Uma mãe, sua dor e a microcefalia na intimidade

A falta de estrutura nos grotões e a ausência de vacina, de repelentes e larvicidas tendem a fortalecer o zika vírus

Por Silvia Bessa e Alice de Souza

 

Se preciso for – anunciou Lourdinha – “passo por uma seca inteira para o povo fazer exames e dizer se realmente minha filha tem microcefalia”. Sertaneja de 23 anos, Maria de Lourdes Souza Ferreira sabe que uma seca pode ser longa e desgastante. “Estou procurando ficar em pé”, confidencia, enquanto aperta Nayara, 22 dias de vida, por entre os seios. O significado da palavra microcefalia aprendeu dia 5 de dezembro, quando a terceira filha nasceu e a levaram para exames. Desde então, nunca mais dormiu do mesmo jeito. “Oxe, a pessoa pensa de tudo quando está sozinha. É um aperto no coração horrível”. Como se perdida no tempo, olhava para a imensidão do céu azul do sítio Cachoeira Grande, comunidade rural pedregosa e seca de Tabira, interior de Pernambuco. É lá que mora com o marido e outros três filhos: Glaison de 6 anos, Naiara, de 3 anos e Laiane, de 8, por adoção. “Difícil demais ter uma criança dentro de casa e não saber como fazer para cuidar do problema.”

Lourdinha iniciou o pré-natal em 2015, quando tinha 16 semanas de gestação. Antes, não fez uso de ácido fólico, suplemento de vitamina B9 recomendável para proteger o bebê de anomalias congênitas no primeiro trimestre de gestação. “Mas evitava tomando remédio”, conta. Nem sempre tomava como prescrevia a bula, corrigem os profissionais de saúde. O marido trabalha na roça de milho e feijão e leva para casa R$ 28 por dia quando tem serviço disponível. Em tempos de estiagem, não há gado nem lavoura produtiva que atenda à fome de todos. Lourdinha é uma mãe dedicada: faz questão de acordar às 4h para manter o chão de cimento batido lustroso, as roupas das crianças alvas e cheirosas e o mosquiteiro bem firme para proteger a pequena. Os vizinhos e Inês dos Santos, a agente de saúde, atestam.

No final de novembro, quase um mês após a chegada tumultuada de Nayara, que esperou o périplo da mãe por maternidade, estava tensa com a primeira viagem da vida que faria à capital, Recife, 401 quilômetros de distância. Para não esquecer de itens necessários, expôs com antecedência a malinha de mão de Nayara no centro da sala, tiaras para adornar a cabeça da filha e algumas fraldas em preparação à primeira visita da menina a um centro de neurologia. A rotina tendia a mudar dali em diante.

O médico Pedro Gonzales, profissional com 37 anos de experiência, obstetra e clínico no posto de saúde da Ilha do Rato, bem próximo do sítio onde ela mora, dava-lhe força. “Não deixe de ir. Essa criança precisa de acompanhamento o mais breve possível”.

Foi ele que, por acaso, a atendeu na emergência hospitalar. Com três pós-graduações, há 15 anos ele fez opção por atender a população mais carente no interior. Gonzales está preocupado com a subnotificação, sobretudo do zika. “Pode ter muito mais gente atingida do que sabemos.”

A falta de informações, exames, vacinas para evitar a contaminação do zika, repelentes eficazes e produtos químicos que ajudem no combate à transmissão do vírus pelo Aedes aegypti são problemas comuns dos municípios de pequeno porte e das capitais brasileiras. O Aedes é tido como um dos vetores do zika; pesquisadores querem saber se é o único.
Outros fatores tornam a condição dos grotões mais grave. No interior, o acesso aos instrumentos de saúde pública é mais escasso, conforme atestou a reportagem. A se tirar por Lourdinha: para Recife, ela levaria consigo Nayara, roupas de uso pessoal da filha e duas ultrassonografias feitas durante o pré-natal. “Foi briga para fazer. A segunda tirei um dia antes de ganhar minha filha. Não cheguei nem a mostrar para a médica.”

Lourdes soube da má-formação quando Nayara nasceu. “Aqui é tudo mais complicado. A gente sofre.”

Silvia Bessa

Silvia Bessa

Repórter

Silvia Bessa é repórter especial do Diario de Pernambuco. Escreve para o jornal desde 1996. Produz prioritariamente trabalhos na área social, de direitos humanos e de cunho regional. É ganhadora de três prêmios Esso.

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Alice de Souza

Alice de Souza

Repórter

Alice é repórter do Diario na editoria Local. É setorista de saúde e acompanha o surto de microcefalia desde novembro de 2015. Finalista do Prêmio Roche de Jornalismo, da FNPI (Colômbia), voltado a reportagens internacionais de saúde.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Filho de fotógrafo, é uma apaixonado pela imagem. Fez carreira na Bahia e, há menos de um ano, mostra seu talento em Pernambuco. Diz ser fotógrafo porque é “inquieto com o que o rodeia”.

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