“Leva essa menina daqui”, disse a mãe de mais uma vítima da microcefalia

Mães e avós são essenciais no apoio às adolescentes com filhos nascidos com má-formação

Por Silvia Bessa e Alice de Souza

 

Pauliana Souza não conseguia nem segurar a filha nos braços quando gritou em desespero no leito do Hospital Barão de Lucena, unidade pública das mais movimentadas do Recife. “Leva essa menina daqui! Leva, leva!”. O primeiro aleitamento veio acompanhado da rejeição, evidente no semblante infantil de senho franzido e rosto lavado em lágrimas. A quase menina de 16 anos havia dado à luz um bebê com microcefalia. Era setembro de 2015, antes do boom de casos. O diagnóstico abriu as portas da vida dela para as mazelas do sistema público de saúde. Pauliana está aprendendo a ser mãe; o SUS, a ser eficaz, universal e humano, o que inclui políticas públicas específicas que estanquem o crescimento de casos de gravidez na adolescência.

Uma conversa “naqueles códigos de médico que a gente não entende nada” foi o alarme da família de que algo poderia estar diferente na gestação de Agatha Beatriz, hoje com cinco meses. A confirmação do quadro veio um dia antes do parto. Aos quatro meses de gestação, Pauliana teve uma coceira na pele por três dias. Moradora da comunidade do Detran, Recife, acreditava ser consequência da água da torneira. Não saberá jamais se era zika. As amostras devem ser coletadas durante a infecção, explica o integrante do Comitê de Arboviroses do Ministério da Saúde Carlos Brito, pernambucano e um dos primeiros médicos brasileiros a levantar a possibilidade de o vírus estar no Brasil. “Ele tem característica de circular menos tempo no sangue e desaparecer rapidamente. Em um paciente com dengue, se consegue isolar o DNA em até 60% dos casos. No zika em menos de 30%.”

Foram 18 dias de internação pós-nascimento à espera de um neurologista. “A médica disse mesmo assim: ‘não posso fazer mais nada, o cérebro dela não volta ao normal’”, recorda a avó da criança, a doméstica Ana Paula Silva, 38. Coube à matriarca tomar para si as responsabilidades. Por dois meses, ela abriu mão do trabalho, única fonte de renda fixa da residência, para cuidar da neta. Resistiu às ligações da patroa. Suplantou a vergonha ao procurar a irmã e pedir um cartão de crédito para dividir em três vezes um exame de R$ 120. O procedimento estava suspenso pelo SUS. Carregou a criança no colo por falta da cadeira de bebê conforto na ambulância. Sem dinheiro, voltou a trabalhar. Agatha sofre convulsões diárias, uma das complicações da anomalia congênita. Só iniciou a fisioterapia após o surto tomar proporção nacional – hoje é internacional. “Meus conhecidos dizem que vai viver até 10 anos. Mas a cada dia que amanhece, vejo ela viva e fico feliz”, garante a avó.

A microcefalia é o maior problema de saúde pública no Brasil, não o único. Antes mesmo do diagnóstico, as famílias enfrentam a ausência de profissionais e medicamentos. A razão de médicos no país é de 2,11 para cada 1 mil habitantes, aponta o levantamento Demografia Médica no Brasil 2015, divulgado pela Universidade de São Paulo (USP). Se comparado a países integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil só está acima da Coreia do Sul, Turquia, Chile, China, África do Sul, Índia e Indonésia. A ausência é maior nas regiões Norte (1,09/1mil) e Nordeste (1,3/1mil). No Nordeste, existem 72 mil médicos. No Sudeste, são três vezes mais.

Morar na capital é um fôlego de sorte para Agatha. O documento da USP atesta: quando se trata de saúde, há dois Brasis. No interior, a taxa de médicos é quatro vezes menor que nas grandes capitais. Realidade vivenciada por Michele Bezerra, 18 anos, moradora do município do Conde, na Paraíba. Em dezembro, o estado era o primeiro em taxa de notificação de microcefalia: 975 a cada 100 mil nascidos vivos. Michele viajou pelo menos três vezes para João Pessoa. Dava de cara com salas vazias, portas fechadas. A confirmação da microcefalia de Ryan Felipe foi assim: “A enfermeira disse que ele poderia morrer. Nem esperou minha mãe. Praticamente me matou.”

Pauliana e Michele são personagens de outra cicatriz social. No país, a taxa de natalidade entre meninas de 0 a 14 anos aumentou 14% nos últimos cinco anos. Entre as meninas de 15 a 19 anos, o aumento foi de 5%. As mães e avós são âncoras. Pauliana se recompõe com Ana Paula. Michele conta com o apoio da bisavó, dona Odete Bezerra – avó de 50 netos e bisnetos, sem um rim e diabética.

Silvia Bessa

Silvia Bessa

Repórter

Silvia Bessa é repórter especial do Diario de Pernambuco. Escreve para o jornal desde 1996. Produz prioritariamente trabalhos na área social, de direitos humanos e de cunho regional. É ganhadora de três prêmios Esso.

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Alice de Souza

Alice de Souza

Repórter

Alice é repórter do Diario na editoria Local. É setorista de saúde e acompanha o surto de microcefalia desde novembro de 2015. Finalista do Prêmio Roche de Jornalismo, da FNPI (Colômbia), voltado a reportagens internacionais de saúde.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Filho de fotógrafo, é uma apaixonado pela imagem. Fez carreira na Bahia e, há menos de um ano, mostra seu talento em Pernambuco. Diz ser fotógrafo porque é “inquieto com o que o rodeia”.

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