Edgar e 863: todos mortos por dengue, zika ou chikungunya

Estatística de mortes por chikungunya, zika e dengue pode ser bem maior que a conhecida

Por Silvia Bessa e Alice de Souza

 

Na quinta-feira, tinha cantado na igreja, como de costume. Homem de fé, seu Edgar era querido pelas redondezas. Preferia vender suas sacolas de plásticos para comerciantes de Arcoverde, Sertão do Moxotó de Pernambuco, a se locomover usando um automóvel. As dores nas articulações o incomodaram e buscou um médico na emergência, que lhe receitou um coquetel de remédios. Na sexta-feira, dia 27 de novembro, a pressão arterial baixou e os sintomas ficaram insuportáveis. Bicicleta encostada, pernas fracas até para de andar, ficou internado no Hospital Memorial.

Dois dias depois, foi transferido para a Unidade de Terapia Intensiva. Na quinta-feira, uma semana após o último louvor da Igreja, morreu aos 66 anos, deixando três filhos, um neto pequeno e outro, Josué, prestes a nascer.
“Claro que foi do mosquito. Quando meu marido chegou fez tomografia, raio X do pulmão e tudo estava bem. Só as plaquetas estavam baixas”, relatou, com pesar, dona Rita Freire, mulher de seu Edgar há 31 anos. Falava do Aedes aegypti. Consequência da dengue, chikungunya, zika ou outro fator externo, não se sabe. No Brasil foram registradas 863 mortes por dengue em 2015, o que representou um aumento de 82,5% em comparação com 2014. “No início do ano passado, meu marido teve dengue. De resto, era um homem saudável”, disse dona Rita, que trabalha na área administrativa junto com a filha no Hospital Regional de Arcoverde.

A morte de seu Edgar era assunto nos corredores do Hospital Regional. Andar por lá é ver o terrível rastro deixado pelo mosquito. Há problemas de ausência de médicos, sobretudo de pediatria para cobrir faltas ou plantões de fim de semana. Afora a superlotação. Nos últimos dois meses de 2015, a principal unidade da cidade de seu Edgar passou de 120 para 500 pacientes por dia.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Anderson, o maqueiro, sobreviveu

Os corredores do Hospital da Restauração, no Recife, são a segunda casa de Anderson Nunes, 35 anos. A rotina de carregar a dor dos outros em macas nunca foi, como para muitos poderia ser, assombrosa. Ao fechar os olhos, lembra. Sempre saía da sala vermelha, onde estão os casos mais graves da emergência, para a Unidade de Terapia Intensiva. As intercorrências eram superadas, com descontração, até o dia 26 de maio de 2015. Anderson trocou o posto de maqueiro pelo de paciente para ser levado, às pressas, pelos colegas a um leito de UTI.

O diagnóstico foi Síndrome de Guillain-Barré (SGB), doença inflamatória nos nervos e raízes nervosas cujo aumento de 19% no Brasil, entre 2014 e 2015, está sendo associado à epidemia de zika vírus. “A boca ficou troncha, a voz emboloada e as pernas paralisadas.” Ficou bom, mas meses depois perdeu o emprego.

A OMS reporta crescimento da síndrome em cinco países latinoamericanos. A SGB é apenas uma das complicações neurológicas em estudo associadas ao zika vírus. Existem outras, como a miosite. “O mosquito quando pica induz na circulação a presença do vírus, que pode se alojar em gânglios e células nervosas, desencadeando reações inflamatórias”, explica a chefe do setor de neurologia do HR e uma das primeiras a fazer a correlação entre o zika e a SGB, Lúcia Brito.

“Não estamos preparados. A expectativa é de aumento de casos. O tratamento de um paciente desse custa R$ 40 mil. Hoje, no país, tem hospital faltando medicamento básico”, ressalta o professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF) e membro da Academia Brasileira de Neurologia Osvaldo Nascimento. “Precisamos de uma política muito mais bem definida para a prevenção. Não adianta chorar o leite derramado.”

Silvia Bessa

Silvia Bessa

Repórter

Silvia Bessa é repórter especial do Diario de Pernambuco. Escreve para o jornal desde 1996. Produz prioritariamente trabalhos na área social, de direitos humanos e de cunho regional. É ganhadora de três prêmios Esso.

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Alice de Souza

Alice de Souza

Repórter

Alice é repórter do Diario na editoria Local. É setorista de saúde e acompanha o surto de microcefalia desde novembro de 2015. Finalista do Prêmio Roche de Jornalismo, da FNPI (Colômbia), voltado a reportagens internacionais de saúde.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Filho de fotógrafo, é uma apaixonado pela imagem. Fez carreira na Bahia e, há menos de um ano, mostra seu talento em Pernambuco. Diz ser fotógrafo porque é “inquieto com o que o rodeia”.

Comentário(s)

Comentário(s)