Quando o bebê com microcefalia chora e o pai escuta

Baixos níveis econômico e educacional dificultam compreensão de anomalia

Por Silvia Bessa e Alice de Souza

 

Naquele dia, Poliana e Geneci Pereira estavam em conflito conjugal. No centro dele, Mayara, menina de pouco choro, com dias de nascida, e que consta nos relatórios do Ministério da Saúde sobre a microcefalia. A filha do casal é uma das 13 crianças do município de Afogados da Ingazeira, Sertão do Pajeú em Pernambuco, notificadas como supostas vítimas de microcefalia e do zika vírus. Geneci se recusava a autorizar a mulher de apenas 21 anos a acompanhar a filha mais nova em exames neurológicos no Recife: “Não quero porque essa menina não tem nada. Ela tem cabeça pequena porque é toda pequena. Nunca vi confusão tão grande por causa de um ou dois centímetros. Nada a ver”.

Mãe de outras duas crianças com menos de três anos, Poliana estava propensa a concordar com o argumento do companheiro. A jovem de sombra magra lutava na Justiça para ter o direito de criar os quatro irmãos com menos de quatro anos que estão em um abrigo, prestes a serem adotados. Mayara, a bebê que acabara de chegar na família e cujo sangue está sob análise do Estado, será criada dentro desse contexto. Apesar do discurso de que o Aedes aegypti “é democrático”, a pobreza, a falta de saneamento básico e de instrução ou de acesso à informação oferecem terreno fértil para a proliferação do mosquito e dos vírus que transmite. Os contextos social, econômico e educacional devem, assim, ser considerados nesse quadro de saúde pública.

“Corto mato, ajudo como pedreiro, ganho até R$ 200 por semana e corro para não deixar faltar o leite da menina”, diz Geneci, o pai. Dona de casa, Poliana lava, passa roupa, cozinha e cuida das três crianças. “Só posso entregar a Deus”, resigna-se a jovem, moradora do bairro Baixo São Francisco.

Quanto maior a vulnerabilidade social, mais difícil é a compreensão do desafio a ser enfrentado pelo filho. Para especialistas, a conclusão é quase unânime. “Vemos muitos casos de mães sem base familiar, com nível de carência financeira grande, falta de instrução. Essas certamente não têm noção do quanto a microcefalia mudará a vida delas”, corrobora Rosilene Salvador, assistente social do Hospital Regional Emília Câmara, profissional responsável pelas pacientes dessa unidade de saúde que atende 12 municípios.

Talvez a vulnerabilidade, seja ela qual for, explique a decisão extrema de uma família que, em outubro passado, abandonou um bebê portador de microcefalia no abrigo Lar Rejane Marques, no Recife. A criança chegou lá com cerca de um mês. Entrará no Cadastro Nacional de Adoção. Já surgiram outros casos.

“A situação é caótica. O país está muito pouco preparado. O surto de microcefalia é um transtorno enorme. Vai requerer profissionais especializados, o que não temos”, analisa Rubens Wajnsztejn, presidente da Sociedade Brasileira de Neurologia Pediátrica e médico há 36 anos. “A gente vai tentar lidar com o que dispomos nas mãos”, diz.

Na casa de Poliana e Geneci, a intervenção fez diferença. Mayara está sendo acompanhada no Recife, distante 378 quilômetros. Por enquanto, permanece como um caso suspeito. Quando um pai acolhe um filho especial e dá o suporte esperado para a mãe, o peso da responsabilidade e as angústias diárias – dizem elas – ficam mais leves. Érica Lívia dos Santos, 21 anos, se ampara em José Pedro para cuidarem juntos de Maria Evelyn, que agora tem pouco mais de dois meses. Nasceu com 2.290 quilos, 29,5 centímetros de perímetro cefálico. “Só meu marido me consola.”

José Pedro da Silva fica pouco em casa durante o dia. Dedica-se ao corte de cana para garantir o sustento da família, mas faz questão de acolher a menina às noites e de acompanhá-la ao Recife nos exames neurológicos preliminares. Maria Evelyn costuma ir para a capital toda faceira, de vestido de algodão rendado e sapatos de cores combinando. “É o pai que faz isso. Vai para o comércio para comprar, todo besta.”

Está encantado, como muitos, e já encontrou a frase certa para confortar a mulher, mãe da menininha: “Vamos cuidar dela juntos”.

Silvia Bessa

Silvia Bessa

Repórter

Silvia Bessa é repórter especial do Diario de Pernambuco. Escreve para o jornal desde 1996. Produz prioritariamente trabalhos na área social, de direitos humanos e de cunho regional. É ganhadora de três prêmios Esso.

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Alice de Souza

Alice de Souza

Repórter

Alice é repórter do Diario na editoria Local. É setorista de saúde e acompanha o surto de microcefalia desde novembro de 2015. Finalista do Prêmio Roche de Jornalismo, da FNPI (Colômbia), voltado a reportagens internacionais de saúde.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Filho de fotógrafo, é uma apaixonado pela imagem. Fez carreira na Bahia e, há menos de um ano, mostra seu talento em Pernambuco. Diz ser fotógrafo porque é “inquieto com o que o rodeia”.

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