Microcefalia: E quando a onda chegar em São Paulo?

Especialista espera que com boom da microcefalia no Brasil se dê em um ou dois anos

Por Silvia Bessa e Alice de Souza

 

Toda mulher sonha em ter gêmeos. E deseja que um bebê seja menina; outro, menino – acredita Jaqueline Jéssica Silva, jovem de 24 anos, moradora de Santos, São Paulo. Ela teve gêmeos no dia 17 de novembro do ano passado: Lucas nasceu bem; Laura teve diagnóstico de microcefalia quase um mês antes de nascer, com 3,2 quilos e 26 centímetros de perímetro cefálico, sete a menos do que deveria para o tamanho e o tempo de gestação. Foi o suficiente para fazer com que a menina se tornasse diferente de Lucas, o irmão de barriga. “É dolorido saber que Laura pode não andar, não irá para a escolinha com a bolsa nas costas como o irmão”, desabafa, ainda digerindo a novidade, as informações que a cercam e causando surpresa em quem está ao lado: “E é, Jéssica, ela vai ficar na cadeira de rodas?”, pergunta a avó da garotinha, dona Maniara de Oliveira, 45 anos.

Jaqueline muda de assunto sem afobamento. Tem aprendido a lidar com o diagnóstico com a ajuda da internet, em grupos de apoio a famílias de crianças com microcefalia. Vai repassando a conta-gotas o que descobre para o marido, José Maria, 31 anos. Todo final de noite, corre para o Facebook, rede de relacionamento, ou quando não está cuidando da lida dos bebês e dois filhos mais velhos – Paulo Guilherme, de 8 anos, e Gabriele, de 4 anos. “Não imaginei na minha vida que teria um filho especial, mas agora tenho de olhar para a frente.” Conformou-se quando José Maria, trabalhador da área de gesso, disse: “Não é só a nossa filha que tem”.

Com o marido reconstrói planos. Só falam no quarto cheios de borboletas coloridas. “A gente não sabe de onde tira forças, mas arruma e cria com o maior amor do mundo.” Jaqueline acredita que há muitos casos de crianças com microcefalia em função do zika em São Paulo. “Eles é que não querem dizer ou desconhecem. Só eu encontrei duas mulheres no hospital em novembro.” São Paulo é objeto de polêmica porque o estado é suspeito de praticar subnotificação.

O governo fez suas próprias regras. Divulga os casos de microcefalia investigados nos quais a mãe informou ter tido sintomas semelhantes aos de zika na gestação.

A causa do diagnóstico de Laura é uma incógnita para Jaqueline. “Levaram os exames antigos e novos dela e nunca me ligaram.” Durante quase três meses foi assim. Há pouco, conta Jaqueline, o “Ministério da Saúde” fez contato. Laura, então, colheu sangue e foi descartada microcefalia por toxoplasmose e citomegalovírus. Hoje fará exames para investigar relação com o zika. A mãe relata dor de cabeça intensa e coceira no corpo quando grávida. Culpava um casaco velho. Conforme balanço da Secretaria de Saúde no início do ano, 24 bebês nascidos com má-formação são analisados por suposta relacão com o zika.

Entre especialistas, há a expectativa de que haja um “boom” de bebês microcefálicos nos próximos anos. “Estamos no início de uma onda epidêmica de zika. Esperamos que atinja o pico maior em um ou dois anos. Com a circulação em maior escala de centros mais populosos, terá uma verdadeira explosão de casos”, crê o médico infectologista Artur Timermam, um dos maiores especialistas do país, estudioso da Aids e autor de livros sobre a dengue. “O vírus zika deve ter se introduzido no Brasil no ano de 2014 ou dois anos atrás. Está atingindo a maturidade da epidemia agora, se fizermos uma analogia com a dengue.”

Comparação

A média de casos por dengue no Sudeste em 2015 foi maior que a taxa brasileira e três vezes maior que no ano de 2015

Silvia Bessa

Silvia Bessa

Repórter

Silvia Bessa é repórter especial do Diario de Pernambuco. Escreve para o jornal desde 1996. Produz prioritariamente trabalhos na área social, de direitos humanos e de cunho regional. É ganhadora de três prêmios Esso.

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Alice de Souza

Alice de Souza

Repórter

Alice é repórter do Diario na editoria Local. É setorista de saúde e acompanha o surto de microcefalia desde novembro de 2015. Finalista do Prêmio Roche de Jornalismo, da FNPI (Colômbia), voltado a reportagens internacionais de saúde.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Filho de fotógrafo, é uma apaixonado pela imagem. Fez carreira na Bahia e, há menos de um ano, mostra seu talento em Pernambuco. Diz ser fotógrafo porque é “inquieto com o que o rodeia”.

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