Microcefalia: a história das vítimas

Reportagem viajou 5,2 mil km, do Nordeste ao Sudeste do Brasil, para dar voz às famílias

Por Silvia Bessa e Alice de Souza

 

Mães, insones, soluçam de tristeza e medo do futuro por seus filhos. Pais duvidam quando um centímetro a menos da cabeça faz diferença para um ser humano. Bebês nascem diante de olhares questionadores. Avós, tios e amigos desejam a cura impossível da microcefalia. Sobre o Brasil paira um lamento coletivo pelo mal causado em crianças ainda no ventre. De agosto de 2015 até agora, o Brasil notificou 5.640 bebês com suspeita dessa má-formação; em 2014, foram 147. Os primeiros estudos indicam o ardiloso zika vírus como o responsável pela tragédia. Pode não ser o único. O temor ao zika vírus se espalhou por outros países. A Organização Mundial da Saúde declarou no início de fevereiro o zika como caso de emergência sanitária de interesse internacional. A OMS prevê contaminação de 4 milhões de pessoas por zika nas Américas.

Esta reportagem é resultado de 5.200 quilômetros de viagem. Traz uma amostra dos efeitos da microcefalia na vida das pessoas pelo viés social, econômico, doméstico, familiar, religioso e da saúde pública. Partimos dos epicentros do problema: o zika e o território de Pernambuco, estado com 29% dos casos de distúrbios neurológicos em bebês. Fomos ao Sertão e capitais do Nordeste, a região mais atingida; e ao litoral e periferia do Sudeste. Estivemos em São Paulo, o maior contingente populacional do país. Entrevistamos autoridades e alguns dos melhores especialistas médicos em São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Ouvimos as famílias.

“Seu filho não vai andar, nem falar. Vai ficar vegetando”, disse o médico a Kamila da Silva, mãe de Daniel Henrique, cinco meses de vida dentro de uma UTI neonatal. São de Parelhas, Rio Grande do Norte. A microcefalia afeta o desenvolvimento intelectual, visual, motor e auditivo, provoca crises epilépticas e de comportamento, a depender do caso. Os bebês nascem com perímetro cefálico menor que 32 centímetros, enquanto o peso e tamanho são normais para a idade gestacional. Com uma atrofia severa, Daniel luta para sair da UTI. Um par de sapatos o espera.

O zika tem rápida proliferação e é capaz de furar a barreira da placenta que protege a criança – é o que se diz hoje. O ministro da Saúde, Marcelo Castro, afirmou que o Brasil terá uma “geração de sequelados”. A orientação é que mulheres evitem filhos. Há dúvidas se o vírus é transmitido pela saliva e relações sexuais. “É um desafio sem par para nós neste século”, sentenciou Valcler Rangel, vice-presidente de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz (RJ). “Não temos vacina, um diagnóstico confiável e dispomos de poucos meios para combater o problema”, alertou a diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, Margareth Chan, em visita a Pernambuco. A pior das notícias: não se vê horizonte para barrar o crescimento das estatísticas e a vitimização de inocentes.

Silvia Bessa

Silvia Bessa

Repórter

Silvia Bessa é repórter especial do Diario de Pernambuco. Escreve para o jornal desde 1996. Produz prioritariamente trabalhos na área social, de direitos humanos e de cunho regional. É ganhadora de três prêmios Esso.

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Alice de Souza

Alice de Souza

Repórter

Alice é repórter do Diario na editoria Local. É setorista de saúde e acompanha o surto de microcefalia desde novembro de 2015. Finalista do Prêmio Roche de Jornalismo, da FNPI (Colômbia), voltado a reportagens internacionais de saúde.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Filho de fotógrafo, é uma apaixonado pela imagem. Fez carreira na Bahia e, há menos de um ano, mostra seu talento em Pernambuco. Diz ser fotógrafo porque é “inquieto com o que o rodeia”.

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