A sinfonia de Seu David: o artista morador de rua que ensinou a viver

Foi ao entrar no hospital que Seu David começou a viver. Nos derradeiros momentos em que poderia se render ao ingrato câncer que insiste em perfurar seus cansados pulmões, ele fez arte. Aos questionamentos, responde com o sorriso de quem não teve oportunidades, instrução ou mesmo um teto sobre sua cabeça por quase quarenta anos. A cama mais macia na qual já dormiu é a que ocupa no leito 2 da Casa de Cuidados Paliativos do Hospital Pedro II, no Recife, área voltada a quem “já não tem mais jeito”, àqueles cujo destino teimou em ser mais injusto, e o fardo, mais pesado. Contrariando a dor que se apresenta a cada simples inspirar, David Wilibaldo de Luna, aos 57 anos, sorri. Sempre. E assim o fez nesta sexta-feira, ao ser tratado como artista, durante a exposição de seus desenhos, organizada pela equipe médica e de voluntários em sua homenagem. As mãos, autodidatas, tremiam ao receber tantas atenções. A primeira vernissage de quem já fez das ruas, seu endereço.

Nos corredores da ‘morte anunciada’, seu David encontrou teto no dia 3 de abril. De lá para cá, todos os companheiros dos demais 13 leitos se foram. De alta médica ou ‘celestial’, como dizem nos corredores. Tratamento, de fato, não mais existe. Lá, ele apenas aguarda. Enquanto isso, ensina aos mais jovens seus valores, ética e até cultura. Estudar, só até à segunda série. Mas em termos de música, pintura, geografia e história mundial, ele dá aula mesmo aos graduados que dele tomam conta. O conhecimento, tirou das ruas, da velha enciclopédia Barsa e do conjunto de 86 vinis de Bach, Bethoven e Mozart, todos mantidos em lojas comerciais dos conhecidos das ruas em que fez morada. Sem teto desde os 17 anos, quando fugiu de casa e das agressões do padrasto, em Escada (Zona da Mata), seu David habitou os símbolos da cidade que adotou como sua: Camelódromo e Mercado de São José.

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Hoje, discute economia, fala sobre os presidentes americanos e de mobilização social. Desconhece Facebook, iPhone e outros supérfluos da modernidade tanto quanto, durante tantos dias, ‘desconhecia’ um prato de comida. Limitações que a vida não tem tempo de justificar, enquanto exige que se siga em frente. Desde cedo, a fome era saciada com cigarros. O frio também. E como se não bastassem as privações que lhe foram impostas, a doença que o escolheu como companheiro não se deu por satisfeita em invadir seu peito, espalhando-se por seus ossos…

Seu David vai morrer. Sim, como cada um de nós. Mas sua certeza e a de todos que o rodeiam, semana após semana, é que este desfecho, tão repugnante e rechaçado, está bem perto. Ele não chora, como você provavelmente o faria. Também não agride terceiros ou tenta apressar o inevitável. Ele pinta. Na ‘carreira’, como gosta de chamar, fez precisamente 295 pinturas com tinta acrílica. No hospital, concebeu mais seis. Paisagens que nunca viu, mas imagina agradáveis. Ceias fartas, cheias de frutas, como nunca teve. Emoções traçadas em cartolina branca manchada por fortes marcas de lápis coloridos, que se manterão alimentando sonhos depois de sua ‘partida’, nas paredes de casas de quem, um dia, se deixou influenciar por sua arte.

Aproveitando o momento de estrelato, os amigos do hospital lhe prepararam sua primeira festa de aniversário da vida. Momento pelo qual sempre aguardou. A data seria o dia 3 de novembro, mas a única certeza do grupo, a quem hoje chama de família, é o desejo de partilhar o momento com seu David. Por isso, com o pouco das forças que lhe restaram no peito, soprou as velas de uma idade que não sabe se irá completar. Com a sabedoria de quem compreende além do que lhe é esperado, antecipou não apenas a comemoração, mas planos, reflexões, alegrias, trazendo tudo para o hoje. Aproveitando cada momento. Assim como deve ser.

É dia de concerto

Foi nas ruas que chamou de casa que Seu David descobriu a música clássica. Um acorde descoberto a cada esquina. Paixão capturada em fitas K7, que carregava consigo. Quando estabeleceu ‘morada’ mais fixa, ao redor do Camelódromo e do Mercado de São José, no centro do Recife, viu a coleção crescer. Os vinis, recebidos por amigos comerciários da área, admiradores do “homem da Enciclopédia Barsa”. Toda lida! David Wilibaldo de Luna, aos 57 anos, vem se acostumando a impressionar quem acompanha sua passagem pelo mundo.

 

Ex-morador e artista de rua, ele ocupa o leito 2 da Casa de Cuidados Paliativos do Hospital Pedro II, no Recife. Onde deveria ocupar-se apenas em combater o câncer, que agarrou seus pulmões e tomou-lhe os ossos, deu aulas de música, cultura, história mundial mesmo a quem tinha como cargo apenas dar-lhe conforto para esperar o inevitável. Com simplicidade, transmitiu seus valores, conquistando outros pacientes, voluntários e equipe médica. O retorno veio em forma de reconhecimento. Depois de ganhar a primeira exposição de seus quadros e o primeiro bolo de aniversário de sua vida, Seu David empresta seu nome a uma composição original, no estilo clássico, a exemplo de seus ídolos Vivaldi, Beethoven e Strauss. Ontem, sentou na primeira fila para ver o concerto David Davida, realizado por integrantes da Orquestra Sinfônica do Recife, em sua homenagem, no hospital que fez de última casa.

 

O estudo, concluído apenas até a segunda série, e a falta de teto desde os 17 anos não impediram a qualidade de sua apreciação. A cada movimento de violoncelo e reverência do clarinete, uma reação com as mãos, dedos em riste, acompanhando a assinatura sonora de cada estrofe. O ouvido, apurado, foi acostumado a esse tipo de composição por ficar dia e noite grudado ao rádio de pilha sintonizado na Rádio Universitária, desde 1974. Os olhos, perdidos numa viagem própria e pessoal, davam margem ainda maior ao largo sorriso aberto ao final de cada canção. “Esse é Chopin. Um dos 63 grandes compositores mundiais”, identifica, com naturalidade. “De brasileiro mesmo, só Villa-Lobos e Carlos Gomes”, completa.

Há quatro meses, Seu David rejeita o próprio fim, ignorando-o. Não fala da doença, desenvolvida pelos anos em que fez de melhor amigo, um ou outro cigarro. Foi um dos 17 em cada 20 fumantes que sucumbe às consequências maliciosas da nicotina. Sabe que engrossará as estatísticas que, friamente, revelam que 12% de todos os homens acabam padecendo do mesmo tipo de câncer com o qual tem que lidar todos os dias. A dor, tenta esquecer, com o auxílio, a cada duas ou mais horas, de doses cavalares de morfina, 36 vezes superiores às ministradas em uma cirurgia comum. O ar, mal puxa sozinho. O barulho do respirador passa a lhe fazer companhia nos momentos de inconvenientes silêncios que sempre convida a repensar as escolhas de uma vida marcada por privações que lhe foram impostas.

Seu David é apenas um dos rostos que ignoramos todos os dias nas ruas. Um pernambucano, da cidade de Escada, zona da Mata, entre os pouco mais de 440 mil que não dispõem de um teto fixo ou refeições regulares. Ele dá nome e forma a um abandono. Um preconceito que dá como certo o destino de toda uma população: sobreviver sem educação ou qualidade de futuro. É também uma exceção. Não pela inteligência que impressiona ou opinião sobre política e economia que desafia a compreensão, mas por ter nome e imagem reconhecida e tratada enquanto gente em uma realidade desumana que mal permite olhar o próximo.

O concerto David Davida apresentou 10 clássicos e a original, que dá nome ao espetáculo. Foram 70 preciosos minutos que dão novo significado a uma vida de 20716 dias contados. Quando deu entrada na unidade de saúde, o artista ‘não tinha jeito’. Restavam-lhe poucas semanas. Cento e vinte e seis dias depois, assume como meta, chegar ao aniversário: dia 3 de novembro. Com o otimismo sorridente que cativou a todos, sem querer, se faz exemplo. Por insistir em desafiar a morte, Seu David ensina a viver…

Uma obra incompleta

A obra de Seu David ficou incompleta. Os ajustes nas cores e o desenho do carro de boi não seguiram o cronograma. Faltou-lhe ar no meio do trabalho. David Wilibaldo de Luna, aos 57 anos, completou a sua luta e, no final da noite desta segunda-feira (17), despediu-se, afinal. O homem que morou nas ruas do Recife por 40 anos foi paciente terminal da Casa de Cuidados Paliativos do Hospital Pedro Segundo, no bairro dos Coelhos. Sorrindo, resistiu, por cinco meses, ao fardo imposto por um câncer de pulmão, que já lhe tomava os ossos. A mensagem que tentava deixar na tinta acrílica de seus últimos quadros era mais do que clara na história de quem alguma vez o ouviu falar sobre música clássica ou geografia mundial: em seus últimos dias, numa cama de hospital, Seu David descobriu a felicidade que tantos buscam, nas coisas simples que tantos têm.

 

Da solidão que o acompanhou durante boa parte da vida, ficou apenas a história. Ao seu lado, várias pessoas acompanharam seu último sono, interrompido por uma insuficiência respiratória. “Estou com medo. Não ‘fico’ até amanhã. Quero dar tchau”, disse. Diálogo esperado. Nem por isso, menos amargo. Junto ao corpo, seu David recebeu flores. O rosto foi afagado por diversas mãos. De amigos conquistados no período de internação, foi cumprimentado com lágrimas. Já há saudades. A dona de casa Lenira Vasconcelos, de 54 anos, conheceu a história de vida do artista das ruas por acaso. Desde então, fez, de cada domingo, um compromisso e um reencontro. “Justo neste final de semana, tive que ficar com meus netos e não vim vê-lo. Era para eu ter dado um jeito, meu Deus”, lamenta, entre lágrimas. Assim foi o cenário durante toda a tarde, enquanto acompanhantes de outros pacientes, voluntário e equipe médica do Imip se revezavam para prestar suas homenagens de adeus.

Da família, nenhum dos cinco irmãos estiveram presentes no velório. A probabilidade de que nem saibam é grande, já que o último contato foi feito há 30 anos. Apenas uma prima, a vendedora Gerusa Holanda, 58, acompanhou o cortejo. “Quando estava com saúde, ele ia na casa da minha mãe almoçar aos domingos. Não iria morar com a gente porque ele tinha medo. Não queria morar com ninguém desde que fugiu de casa porque apanhava muito do padrasto, quando morava em Escada”, conta. Sem abrigo, Seu David passava o resto de seus dias no entorno do Camelódromo, no Centro do Recife. Com ajuda de comerciantes, mantinha uma coleção de discos de vinil, fitas K7 e um enciclopédia Barsa, que completou, informalmente, boa parte de sua educação, concluída apenas até a segunda série.

Com uma exposição de seus trabalhos promovida pela equipe médica, em junho deste ano, Seu David recebeu encomendas de quem se comoveu com sua história. A criação com tinta acrílica em grandes telas brancas foram retomados há duas semanas. A paisagem, incompleta, deve figurar na sala da administradora Veruska Marques, 36. “Eu queria o quadro de qualquer forma possível. Ele é uma inspiração”, resumiu. Os demais quadros não concluídos pelo artista completavam a despedida, marcada por música clássica, conforme seu desejo. Entre as composições, a peça “David Davida”, composta em sua homenagem. “Estive com ele até as últimas horas. Ele me ensinou muito. Dizer adeus dói”, conta o compositor Cláudio Almeida.

O final de David Wilibaldo estaria escrito em qualquer diagnóstico médico ao qual pudesse recorrer. Fazendo do cigarro alimento e companhia, o artista era candidato ideal para engrossar as estatísticas de um dos mais letais tipos de câncer, que atinge 18 a cada 100 mil homens todos os anos e responde por 12,7% de todas as variações da doença. Seu destino, no entanto, fez questão de mudar. Educou-se sozinho. Fez-se artista, sem recursos. Conquistou notoriedade por sua inteligência e pelo sorriso com o qual desdenhava da própria enfermidade. De sua morte, fica o exemplo de buscarmos ser tão cultos quanto um morador de rua, tão sonhadores quanto os que nada têm e tão corajosos quanto os que nada perdem. Talvez assim possamos ser tão humanos quanto se possa ser.

Ed Wanderley

Ed Wanderley

Repórter multimídia

Estas reportagens foram concebidas por Ed no ano de 2012, quando a saga de Seu David foi acompanhada mês a mês, e originalmente publicadas no Diario de Pernambuco. As fotografias são de autoria de Teresa Maia e Blenda Souto Maior.

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