O pescador tem dois amores: o bem da terra e o bem do mar

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Escolher é renunciar. O que se faz a cada partida. No mar, é tempo de fazer o que se sabe. De volta à terra, e à família, de saber porque o faz. Além da necessidade, a Lua define a vida de um pescador, tal qual a maré desbravada

 

Enquanto o pescador guarda a comida para passar três ou 30 dias no mar, ela observa tudo da praia. A bordo vai pão, mortadela, banana, feijão, arroz e salsicha para as refeições. O camarão é para isca dos peixes. Quando o motor dá partida, sobra só a despedida e as preces inaudíveis pelos bons ventos. Firme como âncora, a mulher faz que não chora quando ele sai e se conforma. Ela sabia: a escolha de ficar estava condicionada a dividir seu amor com o dele pelo mar.

Ystefani Alves, 23, conheceu o pescador Erinaldo Francisco da Silva, 26, ainda adolescente. Ela tinha só 12 anos quando, em um encontro costumeiro com os amigos na praia de Brasília Teimosa, no Pina, conheceu o rapaz. Francisco, pescador desde os 10 anos que seguiu os passos do pai, pediu logo para namorar a morena com traços de índia, dos cabelos longos e negros. Aos 16 anos, engravidou do primeiro filho. Juntos, enfrentaram todas as dificuldades e estão casados desde então.

Tímido e com pouca fluência em romance, Francisco é homem de poucas palavras. Mas é conclusivo quando as decide expressar: Ystefani e a família que ela lhe proporcionou são os maiores bens que possui. Se ele enfrenta o mar com coragem e bravura é porque sabe do amor a lhe esperar e conhece de cor as coordenadas que navegam o barco de volta para casa. “Eu já passei 20 dias em alto mar, lá para o lado de Fernando de Noronha”, conta, enquanto aponta o mar na direção do arquipélago.

Quando vai para longe e precisa ficar mais tempo navegando, só conta com a companhia do som da água batendo na proa e com as conversas jogadas fora com os camaradas. A sua saudade é mesmo salgada. Já sua esposa, que não espera mais que ele arrume um emprego “no chão”, reclama mesmo do silêncio da casa solitária. Enquanto Francisco vai em busca do bem do mar, carregado pelas ondas, Ystefani fica em seu ponto de jogo do bicho nas ruas da colônia de pescadores, o resto, entrega nas “mãos de Deus”. “A única certeza que tenho é que vai, mas é impossível saber se volta”, relata. Sua fé, até então, livrou o pescador de todo o mal.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

No mar, como bem canta em solene poesia Dorival Caymmi, o trabalho é braçal e minucioso: cerca o peixe, bate o remo, puxa a corda, colhe a rede e o canoeiro arrasta a rede do mar. Não precisa ser letrado, mas só braços fortes e habilidosos dão conta do emprego. Há 45 anos, Josenberte Marconi Barros – ou só Betinho – começou a pescar. Hoje, com 59 anos, não pensa em deixar o trabalho que o faz passar mais tempo no mar do que com os pés no chão. O fascínio, que começou desde criança, já era motivo para o menino trocar as salas de aula pela brisa salgada no rosto. Sua mãe, chateada, até tentou o proibir., mas, dentre os nove irmãos, era o único que podia ajudar financeiramente em casa. Pela necessidade, abriu mão do sonho de vê-lo alfabetizado e o viu virar pescador.

Em outros tempos, como recorda Betinho, a pescaria já foi melhor. Isso, de acordo com ele, há aproximadamente 15 anos. Se é só mais uma história de pescador, não é possível saber, mas ele contou que já chegou a trazer uma tonelada de peixe à terra. Realidade hoje incerta. Em uma viagem que dura em média dez dias, se traz em torno de 400 quilos do pescado. Uma parte é a mistura para o almoço.

A outra vai para os balcões de venda – onde gera a renda que é tão imprevisível que o homem nem sabe precisar.  “O tempo que eu não estou no mar é quando a lua está cheia e a maré está alta – isso equivale a mês em mês. De resto, eu vou e volto para já partir de novo”, conta. Deixa Edilane Fontora esperando em casa desde a primeira cerveja que dividiram sob o mesmo astro iluminado que hoje rege o tempo que passam juntos. “Ela entende. Além de ser o dinheiro que coloco em casa, eu não sei fazer outra coisa”.

Quem também tem um amor dividido entre o bem da terra e o bem do mar é Lenilson Gomes, 47. Ele é casado com Marlene de Barros, 55, há três anos. Apesar do pouco tempo de relacionamento, o pescador acredita que foi um encontro profundo. Ele, natural da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, veio para o Recife e trabalha com pescaria há 27 anos. Conheceu a mulher, marisqueira, sentada em uma cadeira de balanço na calçada da colônia. “Ele foi sincero sobre a vida e, além de ser humilde, é um homem digno”.

Apesar da pouca condição financeira, Marlene gosta de deixar tudo nos “trinques”. Inclusive o marido. “Quando eu o conheci, ele andava arrumado e cheiroso. Não é porque é pobre e trabalhador que precisa ser esculhambado”, brinca, mas com toda a braveza de alguém que é o pilar da casa e da família. Só quando o homem se vai na embarcação, o coração da marisqueira amolece.

Ela, que preferiu as águas rasas do mar para catar os mariscos, também deposita na fé a proteção que ele precisa para encarar as inconstantes ondas. O maior medo dela é, para além das contas da casa, que um temporal o acometa. Isso porque, para pescador, morrer por causa de cigarro ou pinga é caso raro, a maioria morre mesmo é da traição do tal amor que, vez por outra troca o ar sereno pelo implacável e os trai, indo de refúgio a cova de afogados. “Só Deus pode guardá-lo”.

Tatiana Ferreira

Tatiana Ferreira

Repórter

Tatiana é estudante de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e integra a equipe do Diário desde agosto de 2017. Fez, também, alguns dos retratos publicados nesta reportagem.

Peu Ricardo

Peu Ricardo

Fotógrafo

Peu integra a equipe de fotografia do Diário desde dezembro de 2015.

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