Mãe de menino preso em quarto, em Trindade, diz não se arrepender

Moradora de Trindade acredita ter feito o certo para proteger outros dois filhos. Creas e Câmara dos Vereadores começaram a acompanhar caso

A mãe do garoto de nove anos confinado em um quarto, longe da família, durante parte de sua vida, em Trindade, no Sertão do estado, afirmou não se arrepender de tê-lo mantido em cárcere, por acreditar que fazia o melhor pelo filho. De acordo com profissionais do Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas), que deram esclarecimentos sobre o procedimento adotado na condução do caso nesta quarta-feira (30), a mulher alega que tinha como objetivo evitar que o comportamento agitado do menino provocasse atrito com os irmãos, de seis e oito anos de idade. O caso foi denunciado com exclusividade pelo Diario e mobilizou autoridades do município, motivando uma reunião na Câmara Municipal de Trindade sobre o assunto.

Um representante do Creas visitou a residência da família, localizada na zona rural, na terça-feira (29). No local, vivem mãe, tio, avós maternos e dois irmãos do garoto, diagnosticado com retardo mental. “Inicialmente, a mãe foi atendida por uma psicóloga. Também marcamos uma consulta psiquiátrica. Ela demonstrou sentir saudade do filho, falou várias vezes sobre ele, mas que sabe que onde ele está, é o melhor para ele, mesmo que não haja arrependimento”, afirma a assistente social Aline Estefânia.

O trabalho dos profissionais do município, inclusive, foi referendado pelos vereadores de Trindade, que se comprometeram a acompanhar o futuro da criança. “O Conselho é quem tem que ver o melhor para a criança. Vamos ajudar no que for possível – isso foi uma unanimidade -. A gente deu carta branca para procederem da melhor maneira”, afirma Kilon Peixoto Neto. “Tenho intenção de conhecer a casa dele e o Craur. Não tenho como me posicionar (sobre a reintegração à família) sem conhecer o abrigo”, garantiu a vice-presidente da Câmara Thayse Thacyanne Cunha.

Especialistas defendem que o agravamento do isolamento social contribuiu para que o menino não aprendesse a falar, brincar, nem se habituasse a usar roupas e é consenso que o quadro do garoto seria outro caso seu desenvolvimento cognitivo tivesse sido estimulado. O psicólogo Jefferson Campos conta que existem relatos do isolamento de pessoas com deficiência mental desde a Idade Média. “Qualquer pessoa com algum tipo de transtorno era tida como louca, possuída pelo demônio e, portanto, alguém que deveria ser isolada do convívio social. Na verdade, é a reforma psiquiátrica, que começou no século XX e se desdobra até hoje, que traz com contundência a ideia de humanização no tratamento da pessoa com deficiência mental”, comenta.

Para a psicóloga Tereza Gurgel, da Casa de Acolhimento Rodolfo Aureliano (Craur), que abrigou o garoto, caso tivesse havido incentivo ao seu desenvolvimento, certamente seu quadro não seria tão grave. “Adultos com retardo mental que foram estimulados na infância podem conseguir bons resultados. Elas requerem cuidado, sacrífício. A depender do nível de retardo, essas pessoas podem até ingressar em universidades”, concorda Campos.

A presença do indivíduo em grupos sociais, por sua vez, reforça a formação de sua identidade. “O primeiro grupo social da maioria das crianças é família, depois vem a escola, onde se formam os grupos de amigos. Esse processo obriga a criança, inclusive com deficiência, a desenvolver tanto sua habilidade em se relacionar quanto a construir parte de seu conceito sobre si”, explica o psicólogo e completa: “Caso a criança disponha uma equipe técnica para cuidar de sua alimentação, sua adaptação e sua saúde mental é perfeitamente possível que ela consiga alcançar bons resultados”, avalia.

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“Aprender a falar e comer, por exemplo, está associado à cultura. Existem pessoas que não têm o hábito de fazer sua higiene pessoal e são acompanhados por um terapeuta ocupacional, que trabalha justamente no desenvolvimento das funções do ser humano”

 

Jefferson Campos
Psicólogo

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Marília Parente

Marília Parente

Repórter

Marília estudou jornalismo pela UFPE. Escreve para o Diario desde 2014, a maior parte do tempo para a editoria do Vrum, de veículos. É ligada aos assuntos do interior do estado, das notícias irreverentes às mais revoltantes.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Rafael é fotógrafo do Diario. Integra a equipe do jornal desde 2015. Baiano, está acostumado a rodar tanto metrópoles como interiores atrás de boas histórias.

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