Emoção literalmente no papel: de papelão a cascas de ovos, livros ganham carga emocional em editoras artesanais pernambucanas

por

Papelão e até mesmo cascas de ovos são matérias primas utilizadas para produzir livros únicos, carregados de cuidado e emoção

 

O processo de escrita de um livro do poeta Fred Caju pode durar anos. Entretanto, o trabalho dele fica longe de findar com o surgimento da última palavra de seu texto. Para chegar ao leitor, Caju ainda precisa se desdobrar em atividades que vão desde a reflexão pessoal sobre como seu trabalho será apresentado visualmente, até se sentar e costurar folha por folha de sua obra, levando-a até as ruas da cidade. Todo esse processo é parte de um modelo de produção feito por editoras artesanais, que substituem a larga escala e o maquinário copioso das grandes editoras, pelas mãos de artesãos, levando ao leitor um livro único, dotado de subjetividade e uma carga afetiva em cada capa.

O trabalho de Fred com esse modelo de produção, por exemplo, começou em 2016, com a sua já existente editora “Castanha Mecânica”, que operava antes com formatos de ebook. “Comecei para dar uma capilaridade do que escrevo. Eu comecei com ebook, mas ebook não dá grana nenhuma, não tive competência para ganhar dinheiro com esse formato. Após fazer uma oficina de artesania de livros, fui ganhando inventividade com a estrada”, conta Caju. Em 2016, ele lançou seu primeiro livro analógico, As Tripas de Francis Conceição por Ela Mesma, com uma tiragem de 150 exemplares.

Para consolidar esse arranjo produtivo, as decisões precisaram ir além do textual. O autor foi angariando conhecimentos e concebendo visões sobre os significados desse modo de se fazer livros. Já era entendido da parte de diagramação por conta dos trabalhos com ebook, precisando apenas adaptar sua esse trabalho das telas para o papel. Também se inteirou sobre processos de costura, impressão, serigrafia, cortes com guilhotina, juntando aprendizados com concepções estéticas próprias.

“Preciso pensar em estética de capa, para que o projeto narrativo entre em confluência com o projeto gráfico. Para isso, penso em granulação do papel, em textura, em alinhamento da diagramação”, explica. Seu livro Estilhaços, publicado em janeiro de 2017, por exemplo, contém em cascas de ovos em sua capa, conferindo um fator orgânico que dialogava com a atmosfera de destruição do conteúdo da obra.

Já o seu último trabalho lançado, intitulado “Permanência”, possuí um projeto gráfico que faz alusão ao mar, desde sua capa amarela com uma granulação que lembra areia, até o azul de sua páginas, que contam com uma diagramação ajustada para esquerda e para direita que simulam ondas do mar com os poemas.

Esse trabalho de ser seu próprio editor acabou por fazê-lo amadurecer como escritor. “Eu percebo que um escritor não escreve livros, ele escreve textos, poemas, romances, etc. O livro envolve uma camada de profissionais”, explica. Tudo isso é feito com uma coerência de produção que visa a acessibilidade do material e o uso de uma verdadeira rede de estímulo a outros projetos literários nesses moldes. “Uma coisa que eu gosto de deixar implícita em meus livros é o seguinte: outra pessoa é plenamente capaz de fazer isso, porque não utilizo nenhum recurso que seja inacessível. Uso impressora A4, tudo vai girando em torno de recursos domésticos”, afirma. No colofão de suas obras, ele indica quais tipografias, papéis, papéis da capa, impressão foram usados, até mesmo a música que estava ouvindo durante os processos de confecção.

“É uma questão de potencializar os recursos, remodelando a cadeia do livro. Isso faz com que o leitor pegue no livro de uma maneira diferenciada, fica muito mais visível que foi uma pessoa que confeccionou aquele livro”, afirma. Seguindo a coerência dessa lógica produtiva, ele utiliza apenas tipografias de domínio público e softwares de código livre para fazer a diagramação. O produtos editados também são livres, desde que seja mantida a autoria, não tenha o conteúdo alterado seja usado para fins não comerciais. As pessoas que trabalham nesses moldes também costumam ser colaborativas uma com as outras, compartilhando material que sobra, ideias e ferramentas. O processo de serigrafia do Permanência, lançado em janeiro de 2018, foi feito com ajuda de um amigo no Ateliê Fialho Serigráfico. Caju também abre chamadas e convida pessoas para serem publicadas por sua editora. Além de escrever e editar, Fred atua como seu próprio livreiro, levando uma banquinha desmontável com seus livros pela cidade e vendendo também em feiras.

 

 

Onde tudo se cria e também se transforma,

até leitores

 

O primeiro trabalho de Fred Caju foi feito nos moldes de uma edição cartonera, fruto do chamado Movimento Cartonero, que teve início nos 2000 na Argentina. Na época, o país sofreu os efeitos de uma crise econômica que vinha desde o final dos anos 1990, com o mercado editorial também sentindo, até que uma alternativa surgiu. Notando que grande parte do custo de produção de um livro vinha da capa, o escritor Washington Cucurto e o artista plástico Javier Barilaro viram no papelão uma saída para viabilizar a produção. Assim surgiu a editora Eloísa Cartonera e o movimento cartonero se espalhou pela América Latina.

É nesse viés cartonero, utilizando papelão na manufatura dos livro, que operam boa parte das editoras artesanais de Pernambuco. A pioneira no Recife foi a Mariposa Cartonera, criada em 2013 pelo escritor Wellington de Melo. Tudo começou com um poema longo feito para seu filho mais velho, Alex, intitulado O Caçador de Mariposas. “Era um livro muito pequeno para ser um livro convencional e muito grande para ser uma plaquete. Após fazer parte de uma oficina uma editora cartonera de São Paulo, chamada Dulcineia Catadora e tive contato com essa tecnologia. Decidi lançar o Caçador dessa forma artesanal, um a uma, com cada capa diferente”, conta Wellington. Os 75 exemplares desse título foram todos vendidos na noite de lançamento e ele serviu de inspiração para dar nome a editora.

No ano seguinte, o projeto se transformou na editora, para que se fosse possível publicar outros autores. Hoje, a Mariposa conta com mais de 30 publicações em seu catálogo, com um ateliê localizado no bairro de Poço da Panela. Porém, nos primeiros anos, a produção era mais doméstica. “Eu fazia os livros em casa mesmo, a editora cabia numa mala. Colocava os materiais e ia pra qualquer canto fazer os livros”, explica Wellington. Hoje, além de Wellington, a Mariposa ainda conta com Patrícia Cruz, designer gráfica e dois estagiários.

“A gente tem um trabalho bem independente, inclusive em relação aos autores que publicamos. Não temos essa coisa de enviar capa para aprovação, como em uma editora convencional. Muda bastante o projeto entre o texto que a gente recebe e o que acaba sendo publicado”, explica. Elementos como acessibilidade e relevância do conteúdo publicado são primordiais no pensamento editorial. Exemplo disso é a antologia Inquebrável: Estelita para Cima, produzida em oficinas feitas com o movimento Ocupe Estelita na época da ocupação do Cais José de Estelita. O lucro nunca é a motivação, os preços são estabelecidos levando mais em conta os custos, ficando na média de R$ 25.

As livrarias convencionais costumam ficar de fora do circulação desses livros, devido a sua política de cobrar 50% do preço de capa. Porém, isso não é um entrave para circulação. “O movimento cartonero existe uma rede.

foi o ano de início do Movimento Cartoneiro na Argentina

foi o ano de fundação da pioneira no estado, Mariposa Cartoneira

Hoje, se uma editora da Argentina se interessar por um título, ele pode ser traduzido e em poucos meses tá lá. Você não passa pelas mesmas burocracias de editoras convencionais com contratação de direitos autorais e tradutores, há parcerias com universidades, como a Córdoba, que faz esse trabalho. Aconteceu isso com nossa coleção de 2014”, explica.

Hoje, a Mariposa Cartonera conta com nomes de peso em seu catálogo de autores, como a escritora Maria Valéria Rezende, vencedora de prêmios como o Jabuti e o Casa de las Américas e o poeta local Miró da Muribeca, com a publicação aDeus, que vendeu mais de 3 mil exemplares e esteve presente em várias listas de melhor livro de 2015. “Foi o livro mais bem recebido de Miró e não pisou em uma livraria. Pegamos aqueles poemas brutos, foi dado um corpo e se transformou em um livro com um projeto editorial bem feito”, afirma Wellington.

O melhor dos efeitos dominó

 

 

Para estimular outras editoras desse mesmo arranjo produtivo, a Mariposa faz parcerias de financiamento coletivo para disponibilizar autores desse catálogo. Foi assim que a Cartonera do Mar, formada inteiramente por mulheres, fez suas primeiras publicações. Assim como a Mariposa, a Cartonera do Mar foi possibilitada por meio do contato de suas integrantes com oficina cartoneras. “Conhecemos na Bienal quando conhecemos uma cartonera francesa, gostamos da ideia e fomos atrás”, explica Juliana Albuquerque, uma das fundadoras do projeto. Porém, os primeiros passos não foram publicações, mas oficinas feitas geralmente para crianças, ensinando a confecção de cadernos, por exemplo.

As coisas foram evoluindo e o dinheiro conquistado com as oficinas foi guardado para ser investido nas publicações. Em 2015, foi confeccionado a capa e pesando em parte do projeto gráfico do livro Tempo de Vidro, do escritor Samarone Lima. A primeira publicação inteiramente da Cartonera do Mar veio pouco tempo depois, Visceral, de Katarine Araújo. Os trabalhos da editora são divididos entre cinco integrantes: Glescikelly Herminia, Vanessa Araújo, Bárbara Santos e Jéssica Lima.

Diferente da Castanha Mecânica e da Mariposa Cartonera, as integrantes da Cartonera do Mar não são autoras, mas garantem o olhar cuidadoso com os textos que trabalham. “Eu sei o trabalho que deve ser escrever aquilo e entregar para uma editora. Então a gente pensa o que fazer para que ele se sinta representado, fazer uma capa que represente o que ele quer falar com o que escreve”, diz Hermínia.

“O que nos chama atenção é pensar sustentável e esse é o propósito da Cartonera. Apoiar uma causa que seja socialmente justa, ecologicamente adequada e economicamente viável. Damos vida ao material que dialoga em campos socioambientais e artísticos também”, afirma Vanessa Araújo, a cartonera que levou o nome da editora a sério e hoje reside além-mar, em Fernando de Noronha. Ir além-mar e outros aléns, afinal, é uma das ferramentas da literatura. E as ferramentas que fazem essas ferramentas também podem ser muito mais humanas.

Rostand Tiago

Rostand Tiago

Repórter

Estudante de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco, Rostand Tiago fez parte da equipe do CuriosaMente entre janeiro de 2017 e fevereiro de 2018. Hoje, trilha novos caminhos pelos jornais, livrarias e salas de cinema do Recife.

Comentário(s)

Comentário(s)