Recife: de sede da primeira “Escola para crianças anormais” do país ao desafio da inclusão

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O ano era 1925 e a capital pernambucana recebia com pompa uma unidade de ensino como nenhuma outra. Era conhecida como “Escola para crianças anormais” do Recife. Voltada para crianças com deficiência intelectual, foi a primeira do Brasil a se abrir para o ensino de pessoas com dificuldades de aprendizado. A forma como ficou conhecida derivou da “Escola Normal do Recife”, que funcionava no mesmo prédio, em área segregada do imóvel que hoje abriga a Câmara Municipal do Recife. A iniciativa foi do médico, psiquiatra, psicólogo e professor Ulysses Pernambucano, então diretor da Escola Normal.

O termo “anormais” era aceito socialmente e comumente utilizado, inclusive por profissionais de saúde, na década de 1920. “Na prática, era uma classe exclusiva para crianças com deficiência intelectual dentro da escola. A primeira do gênero a funcionar regularmente no Brasil”, aponta o mestre em psicologia e diretor da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (FACHO), Adailson Medeiros, autor do livro A Contribuição de Pernambuco à Educação Especial no Brasil, que aborda o tema.

Medeiros aponta que Pernambucano, ao lado da também psicóloga Anita Paes Barreto, enfatizava um caráter humanista pouco usual com relação às crianças com deficiência. “Na época, a preocupação com a inserção dessas crianças na sociedade era praticamente exclusiva das famílias. A sociedade, como um todo, não se preocupava com isso”, ressalta.

Acervo Fundação Joaquim Nabuco - Ministério da Educação

O estudo sobre crianças com diferentes necessidades de aprendizado ainda era incipiente e a separação aplicada pelo médico e professor era a forma de ensino ofertada a crianças com ou sem problemas de cognição.

Muita coisa mudou em mais de 90 anos. A lógica de ensino, além de inclusiva, permite desfechos antes improváveis.

Bruno Ribeiro foi o primeiro turismólogo com síndrome de down do Brasil. Atualmente trabalha na Empresa de Turismo de Pernambuco (Empetur). Desde os tempos de colégio, ele esteve no convívio de outros alunos – apenas alguns deles com Down. Hoje, considera que isso ajudou em seu desenvolvimento. “Acho que minha rotina se tornou fácil devido a essa convivência. Comecei a aprender a lidar com pessoas que eu não conhecia. Você pega o gosto. No começo, para a apresentação de alguns trabalhos em grupo, me sentia tímido, mas depois perdi a timidez, pois eles me ajudavam. Ainda hoje, somos amigos e mantemos contato”, aponta.

Setur/Costesia

A professora do Departamento de Psicologia da FAFIRE Walnea Lima ressalta que um ambiente de convivência sem restrições estimula o desenvolvimento cognitivo. “A deficiência é um dificultador, mas não impossibilita nada. Há algum tempo, a pedagogia já reconhece que pessoas com deficiência têm muitas potencialidades”, afirma.

Bruno é reflexo de uma forma de educação que evoluiu ao longo das décadas e é convicto de como as coisas devem funcionar. “Eu acho que independentemente do lugar, as pessoas deveriam aceitar e respeitar as diferenças, inclusive a síndrome de down”, conclui.

 

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João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é estagiário do Diario desde 2014. Escreveu para a editoria de política antes de entrar no projeto CuriosaMente, da editoria de dados do jornal. É defensor da inclusão e admirador dos resgates históricos da cidade.

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