Quantos dias faltam para o carnaval?

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 Para dar início à contagem regressiva de 100 dias antes do carnaval 2016, trouxemos uma crônica da folia seguida de nada menos que o Top 100 fotos do período momesco produzidas pelo Diario nas últimas décadas. Uma viagem no tempo sobre o período mais colorido do ano

 

Apenas um conto de folia…

Chegou ao local, que mais parecia uma vila estranha que palco de algo mudaria a vida de alguém – como o prometeram. Pagou rapidamente ao taxista, que já praguejava pela demora, e pensou o quanto povo daquela cidade parecia mais exaltado e apressado. Deixou-se levar pela multidão já formada às poucas horas da manhã. Sol alto e em pouco tempo foi abordado por um grupo de jovens garotas vestidas de diabas a segurá-lo. Arma de plástico a disparar um líquido transparente em sua boca. O amargo o fez sentir calor de imediato, a ponto de quase (apenas quase) não perceber os glúteos sendo malandramente apertados. Reconheceu o sabor da cachaça, que o fora apresentado nos dois últimos dias. As diabinhas se foram, pulando, como se nem o tivessem visto. É, a experiência seria diferente.

Duas altas ladeiras acima, avistou um bloco de rua em sua direção. Sem sentido e opção, seguiu a massa. Viu-se entregue à festa. Sorrisos em sua direção, fantasias que pareciam infantis em adultos claramente embriagados. Poderia jurar que o undo acabaria nas próximas horas – era a chance das despedidas. Bebeu uma lata. Quente. Outra. Várias. Sempre com a presteza de quem, alheio à animação, trabalha.

Assistiu atento aos passos ousados, claramente mais difíceis que o dubstep de sua ‘casa’, ao qual já não se fazia tão familiarizado. Olhou em volta. Ninguém realmente fazia aquilo. Apenas seguiu o fluxo, se fez nativo, com passinhos ritmados, saltos baixos e mãos ao alto, gritando, como se o amanhã já não fosse opção. Ao lado, a mais bela mulata, pouco mais de vinte primaveras. Contato visual. Antes que tentasse qualquer aproximação, se viu invadido pelo cheiro de caneal doce. A boca, invadida por uma língua nervosa e apressada, o fazia bem-vindo àquele àquele estranho lugar.

Mais latas. Várias. Fitou a veia de gente num organismo de ruas e ladeiras a pulsar até onde a vista alcançava. Riu da ironia de bebidas e amassos nos degraus de igrejas quase em pedaços, da urina nas paredes vizinhas aos banheiros químicos, quiçá, por mera opção. As músicas, reconhecia, quase eram quase sempre as mesmas – até o momento em que adultos agachavam-se até pular simultaneamente, aos berros. Apenas repetia. Se divertia. E não largava Juliana. “Ju-li-a-na. Isso. É como se fosse a ‘Maria’ do Brasil moderno”, ouviu, num inglês apenas eficiente o bastante para evoluir a relação além dos encontros de corpos.

Arrepio frio no pescoço. Ao crepúsculo, três grupos se encontram aos pés das ladeiras e, em sintonia, batem grandes tambores. Quebradas em compassos marcantes. Estava num dos programas do NatGeo em meio a cidade. Em meio a cores. Em meio à gente. Mãos nervosas, convidada Juliana a deixar a ladeira para trás. “Hotel”. Ela sorria, balançando a cabeça. Dizia haver brasileiras e brasileiras antes de disparar: “puta, tem em todo país”. Foi a separação. Arrastaram-se por objetivos e blocos distintos. “Posso vê-la novamente?”, questionou. Ela, a rolar os olhos sorriu. O mais amplo dos risos: “é carnaval”. Bastou.

No dia seguinte, não tomou o avião. Tomou cachaça. Por conta própria. “É até quarta”, tinham lhe dito, em tom de aviso. Agora compreendia. Precisava encontrar Juliana. Roubou uma flor do hotel e, com um sorriso, disse ao taxista: “Ô-lindar”. Subiu as mesmas duas ladeiras, olhou o relógio. Quase o mesmo horário. Flor em mãos, melhor sorriso nos lábios… Esperava pelos cacheados cabelos negros a destacar-se da multidão. Foi num relance. Nos olhos dela, quase compaixão. Na boca, um semirriso.

Estendeu-lhe a flor. Ela, a mão. Num dos dedos, uma aliança que não estava ali no dia anterior. De susto, beijou-lhe a boca, sôfrego, pedindo num português arrastado: “É carnaval”. Gargalhou. Do bolso, ritou a segunda aliança. Casou-lhe ali mesmo, na esquina da Ribeira. “Que seja eterno enquanto dure”. E durou até a noite da quarta ingrata. Costas marcadas, quase podia sentir o cheiro de canela a invardir-lhe o estômago, do alta da aeronave que tornava pequena a estranha cidade. Baixinho, já treinava o canto que ela lhe ensinara. Num parco português que, agora, lhe fazia sentido, repetia: “Vol-tei, Recife”…

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Ed Wanderley

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Repórter e cronista

Ed é repórter do Diario desde 2010. Já cobriu dois carnavais e tirou férias nos demais. É viciado na festa de Momo. Daquela que se pula no povo, sem cordão de isolamento ou camarote, com sol na cabeça e chão quase fora do pé.

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