A história à frente da Banca Filosófica da Rua da Aurora

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Sebo da Rua da Aurora é reduto de comerciantes que se juntam para discutir teologia, filosofia e política e ganhou o nome de banca filosófica

 

Paulo Pereira tem sete filhos e a sua casa está sem luz elétrica. A moradia, inclusive, é onde ele passa apenas os finais de semana e algumas noites entre segunda e sexta-feira. Costuma sair de um trabalho e ir para outro emprego e de lá voltar para o trabalho anterior. Jornada sobre jornada. Da portaria de um colégio privado do Recife para o negócio próprio, apelidado de “Banca filosófica” – um fiteiro repleto de livros em plena Rua da Aurora. Como consegue viver desse jeito? “Vivo na luta, meu amigo”, explica de forma sucinta com um largo sorriso estampado no rosto.

João Velozo/Esp.DP

Respostas sucintas são artigo raro para quem vai no sebo de Paulo, no Centro do Recife. A conversa flui facilmente, quase sempre com o ritmo ditado pelo livreiro. Também pudera, em 16 anos na banca ele alega ter aprendido de quase tudo um pouco. “Oficialmente, eu não sei de nada, mas meus conhecimentos vão de filosofia a concreto armado”, afirma com convicção. “Para a sociedade, de modo geral, eu sou um vendedor de livro velho arruinado. Mas a sociedade não me enxerga direito”, complementa.

Da ruína, Paulo conta que busca a evolução. “Mesmo sem ninguém ver, eu ‘tô’ evoluindo”. É adepto da teoria de que “a crise chega para criar oportunidades”. A Celpe cortou a energia de sua casa, no bairro de Dois Unidos, há quase três meses. Reação? Comprou lampiões. “A Celpe devolveu a minha família”, gargalha. “Antes, era um menino no tablet, outro no computador, outro no celular, ninguém conversava, brigava… tinha um que nem comia! Agora tá todo mundo junto, jantando junto, conversando junto”, explica.

Fala de jantar, mas nem sempre os presencia. Porteiro plantonista de um colégio do Pina, por dois ou três dias na semana sai da Aurora direto para a Zona Sul e, doze horas depois, faz o caminho de volta. Os filhos vão no mesmo caminho trabalhador do pai. “Tem um que vende pipoca, outro, manga, um terceiro, jaca. Minha filha vende flores. É a necessidade”, resume. “Um dos meninos veio pedir um videogame. Quer um? Trabalhe para ter!”. A casa é herdada dos pais – um casarão abandonado que, segundo ele, “virou mansão”.

A convicção e o carisma de Paulo lhe dão o posto de uma das pessoas mais conhecidas da rua da Aurora. Conversar com ele significa parar a cada minuto para uma resposta sua a qualquer aceno – seja de pessoas passando nas calçadas ou nos carros – ou mesmo ver a conversa se transformar em uma roda de discussão. Chega um amigo, daqui a pouco vem mais um e assim vai se formando. Os assuntos são diversos, mas teologia e filosofia, são os preferidos. Por isso, o sebo ganhou o nome “extraoficial” de Banca Filosófica. “Se você chegar aqui no final de tarde, só tem filósofos, escritores, teólogos. Aqui é lugar de debater, de conversar e de discordar. É lugar de confronto de ideias”, resume.

Paulo é evangélico, “mas ao mesmo tempo, um livre pensador”. Já aprendeu “até sobre maçonaria” nas leituras dos livros que lhe são doados ou que compra para revenda. Tem sido assim desde que ficou desempregado. Cozinheiro formado pelo SENAC, trabalhou em cozinhas de vários restaurantes. Do último, saiu após ser informado pelo chefe que teria “hora de chegar, mas não de sair”. “Eu disse: ‘olhe, meu amigo, isso não dá pra mim, não. A escravatura já acabou”, relembra gargalhando.

Gargalhadas vindas de Paulo são constantes. É do tipo de pessoa expansiva, fala gesticulando e rindo efusivamente. Ao ponto de ficar suado ao longo da conversa, ritmada pelos toques no braço do interlocutor requerendo atenção.

No passado, antes mesmo de lidar com a cozinha, já era vendedor. Daqueles que garantem vender de tudo. “O que você me der para vender eu vendo. É um dom que Deus me deu”. Das mãos dele, já compraram gás, picolé, água e frutas diversas. Depois, deu um tempo nas vendas para vivenciar o hiato marcado por longas horas, panelas e fogões. Voltou a lidar com o público após ser socorrido por um xará no período sem emprego. Paulo Oliveira era o dono da banca em que ele hoje se encontra e quem tomava conta dela anteriormente acabara de morrer. “Ele estava desempregado e sei que ele é bom de vendas, então chamei”, explica Oliveira, chaveiro na Aurora.

A partir de então, Paulo Pereira começou a tirar o sustento da venda de livros. Em semanas boas, tira cerca de R$ 300. As vendas diárias variam de trê a 10 unidades, “dependendo dos livros que chegam”.

O gosto da clientela é variado. Entre os mais vendidos estão os de Augusto Cury, livros de filosofia, além de “tudo que envolva cálculo e saúde. Muita gente que vai fazer concurso passa aqui”.

“Uma vez, dei um livro pra um rapaz que passou no concurso e depois veio aqui me dar dinheiro”, conta orgulhoso, não pelo dinheiro oferecido, mas por ter ajudado na realização de um sonho. “Hoje em dia, ninguém mais quer ler livro, para vender um é uma guerra. Mas as pessoas que compram sempre voltam, mais cedo ou mais tarde”, relata, mais uma vez, sorrindo.

A “Banca Filosófica” fica aberta de segunda a sexta, entre 10h e 17h. Livros doados certamente encontrarão novas mãos e preencherão novas mentes.”O camarada que lê deixa de ser aquele ‘piolho moral’, que vai pela cabeça dos outros”, ensina Paulo.

João Velozo/Esp.DP

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João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é estagiário do Diario desde 2014, a maior parte do tempo para a editoria de Política, antes de fazer parte do projeto CuriosaMente, da editoria de dados do jornal.

João Velozo

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Fotógrafo

João Velozo é fotógrafo do Diario desde 2015.

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