Estudante concilia trabalho na roça com estudo de física e é aprovado em medicina

Arquivo Pessoal/Cortesia

Passar numa faculdade de medicina ainda é tabu para muita gente – em alguns casos, tido como sonho impossível. Trabalhador rural, aos 20 anos, Jéferson César subverteu as probabilidades. Vai trocar o Sítio Laje do Carrapicho, na Zona Rural de Alagoinha, no Agreste do estado, por uma vaga para formar-se médico, na Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, onde já assegurou lugar ou no campus da UFPE em Caruaru, onde ficou na lista de espera – 15° lugar numa lista de 13 vagas. A aprovação não é questão de acaso – passou em 3° lugar no concurso do Sisu, no sistema de cotas.

A conquista veio quase quatro anos após formar-se na Escola Estadual Gonçalo Antunes Bezerra, em 2012, e ao custo de conciliar os estudos com o cuidado com os animais e plantações do sítio. O sonho foi adiado por conta das fortes secas, que impossibilitaram os ganhos familiares a ponto de conseguir ajudá-lo a manter-se longe de casa, numa cidade nova. “Desde os cinco anos, lido com palma, capim, feijão e milho e tiro leite de vaca. Mas a seca foi a pior que já vi no Nordeste, não tinha como meus pais me ajudarem em outra cidade. Nem tentei. Fiz Física, porque era em Pesqueira, aqui perto, e passei. Agora, com as coisas melhorando, tentei, mas achando que seria minha primeira tentativa, porque muita gente que quer ser médico tenta muitas vezes, né?”, relata o estudante que acaba de trancar a licencitura em física, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), no 7° período, de um total de 8. “Não era o que eu queria”.

O desejo de ser médico surgiu entre os 10 ou 12 anos, decorrente das dificuldades no estilo de vida que encontrava no sítio e no raro acesso à unidades de saúde por parte de sua família. O plano teve que ser adiado por forças maiores (que incluía o clima), mas no que dependia dele, cada momento contou na preparação. Acordava às 5h e seguia para o trabalho no campo, até as 10h. Então, estudava e almoçava, antes de voltar ao trabalho às 14h. No início da noite, seguia para o curso de física na cidade vizinha, de onde retornava às 22h30 e se dedicava à última hora de estudos, voltados ao Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “Não dava para fazer mais que isso, senão só dormiria 5h e acabava atrapalhando tudo”. Para contornar a falta de tempo, improvisava: “Eu aproveitava o silêncio do campo e, enquanto tirava leite das vacas, ouvia umas 2h, 3h de videoaulas no celular. Isso facilitou”, diz, sorrindo.

Jéferson virou referência na cidade. Não há quem não conheça o rapaz da área onde até o celular é ruim de pegar. Até o prefeito da cidade, Maurílio Andrade expôs a história nas redes sociais e publicizou os feitos dos jovens da pequena cidade, de 15 mil habitantes.

Quero parabenizar a todos de nossa querida Alagoinha, que foram aprovados no ENEM, e que irão cursar o ensino superior….

Publicado por Maurilio Almeida em Segunda, 18 de janeiro de 2016

Antes de fazer as malas, o garoto só precisa saber a cidade em que concentrará seus esforços. Não sabe bem como será o futuro. No IFPE, contava com bolsas que o auxiliavam nas contas familiares e sequer sabe se elas existem nas universidades que agora o acolhem. Na curva que traçou para o próprio destino, só tem uma ideia – a especialização em geriatria. “Meus pais estão ficando velhos, né? Tenho que cuidar deles…”

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Jéferson César teve notas no Enem de 920 na redação, 780 em matemática e média geral de 734
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