Chuvas mudam cena do Sertão, mas estiagem em 2016 deve ser ainda mais dura

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Em janeiro, precipitações foram até seis vezes maior que média, mas Apac diz que quadrimestre será ainda mais seco no Sertão que nos anos anteriores

 

As fortes chuvas de janeiro pintaram de verde um Sertão duramente castigado ao longo dos últimos três anos. Ao contrário das previsões meteorológicas realizadas em 2015, no primeiro mês deste ano, em alguns municípios, a precipitação chegou a ser seis vezes superior à média histórica. Ainda assim, a projeção não foi revista: espera-se que até abril, a região mais seca de Pernambuco seja castigada com ainda mais intensidade.

A informação é da Agência Pernambucana de Águas e Clima (Apac). Em 2015, apenas 13 municípios chegaram à média histórica de chuvas em pelo menos um dos quatro primeiros meses do ano. Este ano, apenas dois não receberam chuvas acima da média, fazendo a má notícia prevista ir de encontro ao otimismo recente. Na primeira quinzena de fevereiro, só três cidades apresentaram índice de precipitação acima de 100% em relação ao esperado: Custódia, Ibimirim e Manari.

De acordo com o meteorologista Fabiano Prestrelo, a previsão de que choveria abaixo da média foi feita em consenso na reunião climática entre os centros de meteorologia de todo o Nordeste e está mantida. “É o período mais chuvoso do Sertão, mas ainda assim, será abaixo da média.

O efeito, com maior intensidade, do fenômeno El Niño deve, inclusive, impedir a recuperação do nível dos reservatórios. Os próximos meses serão difíceis”, explica.

As mudanças visuais, ainda que temporárias, já são verificadas. Bastam alguns milímetros precipitados para mudar o cenário.

Uma prova é o registro do Sítio Lajedo, a 10 km do centro de Afogados da Ingazeira. O local, onde nasceu e cresceu o sertanejo Jaelson Pontes, foi fotografado em 25 de dezembro de 2015 e em 31 de janeiro de 2016. “Sempre visito o local. Há 7 anos, moramos na cidade. É bom demais ver a terra assim”, diz.

Apesar de impressionar visualmente, o geógrafo da Universidade Federal do Cariri João Ludgero explica que as plantas xerófitas da caatinga possuem essa capacidade de adaptação devido à evolução. “Elas sobrevivem com pouca água. Para isso, perdem as folhas e ficam acinzentadas para reduzir a transpiração e não reter luz e calor do sol. Além disso, o solo não é profundo, facilitando a absorção de qualquer chuva”, esclarece.

Resta esperar para verificar se as previsões se concretizam ou se, por alguma felicidade do acaso, um Sertão verde continue a ser um incomum, mas sempre bem-vindo, cartão postal do Nordeste…

 

A vegetação sertaneja

Xerófitas (do grego, “seca”)

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Plantas que possuem reforço das paredes celulares e abundância de tecidos mecânicos que as permitem resistir às secas
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Resistem à escassez (não ausência) de água
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Raízes são adaptadas para colher rapidamente água de solo pouco profundo
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Durante estiagem, adquirem cor acinzentada, tentando se aproximar do branco, para reter o mínimo de calor possível
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Com poucos mm de precipitação, recuperam cor e folhas
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São típicas da caatiga, mas não resistem a ecossistema desértico

Médias e índice verificado em janeiro de 2016

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Ed Wanderley

Ed Wanderley

Repórter

Ed é repórter e editor do Diario. Escreve para o jornal desde 2010, em especial nas áreas Direitos Humanos, Desenvolvimento Socioeconômico e Sustentável e Cultura. É apaixonado pelo Sertão e suas histórias…

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