Nem só de saudade se faz um cemitério

Turismo de mausoléus não é comum no Brasil, como na Argentina, mas não por falta de atrativos culturais ou artísticos

 

Por ser marcado de ausências, cemitérios não contam com quaisquer simpatia ou atenção de quem anda por seus corredores, sempre na apressada ânsia de deixar o tal “lar da falta” para trás. Talvez por isso a observação das verdadeiras obras de arte espalhadas por entre jazigos não tenha se popularizado enquanto aparelho turístico e cultural no país, frente a movimentos como o do Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, um dos principais aparelhos turísticos da capital portenha. O maior cemitério do Recife, em Santo Amaro, sequer é conhecido pelo nome – Senhor do Bom Jesus da Redenção. Agora, o local ganha sinalização turística bilíngue para apostar num tipo de resgate histórico local já comum em países como Itália, Áustria ou Estados Unidos. O investimento foi de aproximadamente R$ 16 mil e a ação incluiu a troca dos nomes das “ruas” internas do cemitério por alamedas em homenagem à flora local.

CEMITÉRIO GANHA PLACAS TAMBÉM EM INGLÊS PARA IMPULSIONAR NECROTURISMO

Originalmente concebido para receber falecidos com febre amarela, que não poderiam ser enterrados nas igrejas, como era costume, o Cemitério de Santo Amaro foi projetado pelo francês Louis Leger Vauthier e atualmente recebe cerca de 18 mil pessoas por mês. Aos 165 anos, a área é composta por 33 mil jazigos, nos quais se pode permanecer por dois anos e por uma igreja em estilo gótico concebida pelo engenheiro José Mamede Alves Ferreira. Ao seu redor, há mausoléus com esculturas de valor artístico e também histórico em cada esquina e uma arquitetura triangular que propõe passeios elos 45 quarteirões. Na democracia das finitudes, é possível encontrar um ex governador, Rosa e Silva, fazendo vizinhança a uma Menina Sem Nome, falecida como desconhecida, enterrada como indigente e cultuada como santa – distinções que vão além de suas camas, sejam elas de concreto ou mármore.

Turismo também de cultura e fé

Menina Sem Nome: ofertas vão de balas a ursos de pelúcia | Foto: Rafael Martins/ ESP. DP/ D.A. PRESS

Muito além do Dia de Finados, muita gente visita o Cemitério de Santo Amaro em busca dos túmulos de duas crianças. Neles, há de tudo: brinquedos, guloseimas, roupas, velas… Os destinatários, não se esconde nem questiona – uma se chama Alfredinho e outra, nem nome teve.

As histórias de ambas são tão tristes quanto opostas. Alfredo, acredita-se, era um menino de classe média que, ainda em 1959, sucumbiu à doença com descrição semelhante à leucemia. Não se sabe um como, muito menos um porquê, mas alguém alcançou uma graça e acreditou que o garoto intercedeu na boa nova. Espalhada, a história tomou formas de verdade.
Quase dez anos depois, o mesmo cemitério receberia o corpo de uma menina encontrada no Pina. Nenhum familiar se apresentou, tampouco testemunha ou protetor. Cercada de mistério, sua morte tornou-se comoção. E como lar de santo sempre abre espaço a outros, se fez santa sem querer. É a quem muitos vão “fazer ouvir” ou oferecer os agrados que, acreditam, ela deixou de receber em vida. Em troca, graças. Recompensas suficientes para fazer multidões, ano após ano, retornarem ao lugar do qual aprendemos a, quando não temer, manter distância. E assim as crianças vão, em seus cercados de ausências, marcando presença nas faltas de tantos…

Cemitério Santo do Bom Jesus da Redenção

GOOGLE EARTH/REPRODUÇÃO

GOOGLE EARTH/REPRODUÇÃO

 

Inauguração: 1° de março de 1851
15,4 milm²
45 quarteirões
33 mil jazigos
2 anos: tempo de permanência dos jazigos rotativos

Ed Wanderley

Ed Wanderley

Repórter multimídia

Ed é repórter do Diario desde 2010. Cobre assuntos das mais variadas áreas, incluindo os temas de Direitos Humanos, Saúde, Educação e Segurança Pública. Não gosta de cemitérios, mas, a cada ano, se vê marcando cada vez mais presença, não por turismo.

Comentário(s)

Comentário(s)