João Bosco e o quarto mais tricolor de Pernambuco

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Torcedor transformou cômodo em verdadeiro museu do Santa Cruz e, há dez anos, dorme e acorda embalado pelo espírito esportivo coral

 

Apaixonado pelo Santa Cruz Futebol Clube, João Bosco Carneiro, um professor aposentado de 70 anos, todos os dias dorme e acorda tricolor, literalmente. Ele decidiu, há pouco mais de uma década, transformar radicalmente o seu quarto em um ambiente totalmente vinculado ao clube. A decoração do espaço vai da cortina com as cores do time coral (preto, branco e vermelho) até os chaveiros do clube pendurados nas paredes. Há bandeiras do time espalhadas por todos os cantos do cômodo, papel de parede revestindo as paredes, um santinho que o próprio Bosco pintou e ainda garrafas personalizadas e faixas mencionando títulos de campeonatos estaduais. “Comecei juntando aos pouquinhos. Colocava uma bandeira aqui, outra acolá, até que o número de peças foi crescendo, as prateleiras, aumentando, e tudo o que eu ganhava fazendo referência ao Santa, acrescentava. Hoje, compro as coisas nos lugares mais diversos. Feirinha de Boa Viagem, lojas de brindes, nos mercados em geral, na própria loja do clube, etc”, lembra.

 

Torcedor da cobra coral desde criança, Bosco recebeu do pai essa herança. “Quando nasci, meu pai já era tricolor e, nas rádios, me incentivava a acompanhar os jogos com ele, além de, mesmo morando em Gravatá, fazer questão de vir pro Recife para presenciar algumas partidas”, explica. Saudoso, conta como foi a experiência da primeira partida. “Fui ao primeiro jogo em 1955, eu tinha 7 anos, e nunca esqueci. Foi Santa Cruz 3 x 1 América, no campo do Náutico, porque o Arruda ainda não existia”, comenta sobre as memórias e a relação com o pai, que o futebol aproximou ainda mais. “O clube nos unia. Ainda me lembro de quando ele me levou ao terreno baldio onde seria o Arruda e me disse com orgulho: ‘olha, meu filho, esse aqui será o maior estádio de Pernambuco’. Impressionado, de início, não acreditei, mas logo depois eu vi que o meu pai estava certo”, comenta.

Casado há 43 anos, ele divide a paixão com a esposa, também professora aposentada de 70 anos, Adilma de Carneiro. Apesar de também amar o clube e achar interessante a coleção do marido, ela deixa claro que já está na hora de transportar os acessórios para um outro lugar. “Eu gosto do quarto, mas combinei com ele que a gente vai tirar as peças porque já faz muito tempo que estão lá e dão muito trabalho principalmente na hora da limpeza. Quem cuida do quarto é a funcionária da minha casa, que vive comigo há 41 anos. O quarto precisa ser limpo toda semana, pelo menos uma vez. Dá muito trabalho e, normalmente, dura o dia inteiro”, conta.

Júlio Jacobina/DP
Júlio Jacobina/DP

Sempre muito apaixonado pelo clube recifense, João Bosco espalhava a sua relação com o Santa Cruz a todas as pessoas de seu convívio, e Adilma, sua mulher, foi a primeira. “Antes de nos casarmos, eu não gostava de futebol e, pra ser sincera, não torcia pra time nenhum. Mas depois de conhecer Bosco aprendi a amar o Santa Cruz. Eu me apaixonei pelo clube ao ponto de não ter nem condições de assistir aos jogos importantes do time porque o coração não aguenta”, brinca. Os três filhos também foram contagiados. “Sempre incentivamos os nossos filhos. Os dois meninos e a garota, ainda pequenininhos, iam pra campo conosco. Um deles, inclusive, com 6 meses de idade já tinha carteira de sócio”, relembra a mãe. “Os dois homens chegaram até a ser mascote do clube”, acrescenta o paizão orgulhoso.

Voltando os olhos para todo o material que adquiriu ao longo dos 10 anos de existência do quarto, Bosco conta que a participação de amigos, mesmo que torcedores de times adversários, foi fundamental para que o espaço tivesse a composição atual. Segundo Bosco, trata-se da competitividade construtiva e saudável. “O futebol, na minha época, não era motivo pra violência, pelo contrário, unia as pessoas, mesmo que fossem de torcidas diferentes. Eu tenho vários amigos que, mesmo sendo do Sport ou do Náutico, por exemplo, me presentearam com brindes do Santa”, frisa o aposentado que, com frequência, ia na companhia de colegas de outros times assistir aos jogos do Santa Cruz no estádio. “Era uma rivalidade positiva que permitia o compartilhar das arquibancadas”, afirma o aposentado que, por falar em amizade, já foi amigo pessoal de Fernando Santana, artilheiro de campeonato entre os anos de 1969 a 1973.

 

 

 

 

 

Família que torce junto vive junto

 

 

 

Filho do dono do quarto mais tricolor de Pernambuco, João Bosco Filho reconhece o valor do imóvel e o quanto a influência de seu pai teve importância para aprender a torcer. “Acho que só uma pessoa muito apaixonada poderia fazer algo do tipo. É um exemplo de amor pelo clube. Foi a partir do meu pai que, desde a infância, aprendemos juntos a amar e ser feliz com o Santa”, diz o Bosquinho, como é chamado pela família. Hoje, com 39 anos, não enxerga mais a vida sem o tricolor pernambucano. “Comecei a amar o time na década de 1980, mas eu era tão novo que não me lembro do primeiro jogo. É como se meu nascimento fosse ligado ao clube. Nasci Santa Cruz. Não me tornei”, declara o também colecionador, com um acervo de 30 camisas tricolores.

Os netos e agora os bisnetos de Bosco também se tornaram torcedores fiéis do Santa Cruz. Bosquinho é pai de um pequeno garotinho de três anos, já apaixonado pelo time. “Meu filho é Santa Cruz sim. Aliás, mais do que eu, pois me tornei sócio com 9 meses de vida. Ele, com 3 dias de nascido. No momento que registrei ele no cartório, fui direto ao Arruda para associá-lo. Ele vibra e grita com os gols do time”, declara orgulhoso.

Júlio Jacobina/DP

Para atender ao pedido de Adilma, Bosco pretende remover as peças do quarto por compreender os argumentos da esposa, mas ressalta que jamais venderia o acervo. “Nunca vou me desfazer. Foi um sacrifício, fui juntando aos poucos. Tem todo um simbolismo e um significado”, defende. Embora ainda não tenha destino certo, o aposentado tem planos de transportar o material para um outro espaço, mais adequado, e, quem sabe, reinaugurar o “quarto tricolor” com direito a visitas de torcedores. “Já recebi visitas por conta da divulgação do quarto e já vieram conferir o acervo de peças. Penso em voltar a receber”.

 

Cobrinhas coral de plástico

Laís Leon

Laís Leon

Repórter

Laís é estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e escreve para o Diario desde 2016, passando pela editoria de Redes Sociais antes de integrar a equipe do CuriosaMente.

Júlio Jacobina

Júlio Jacobina

Fotógrafo

Júlio é fotógrafo do Diario há 28 anos

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