Voluntários promovem mudança de vida de moradores de rua ao matar fome de comida e de carinho

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Apesar da correria do cotidiano, grupo “Pão nosso de cada noite” reúne 40 pernambucanos de diversas áreas para cuidar de população de rua da capital todas as terças-feiras

 

Abdicar do próprio tempo livre para ajudar as pessoas de rua que passam por necessidades é uma ação solidária que nem todos estão dispostos a praticar. Paciência, boa vontade e amor ao próximo são algumas das qualidades do grupo de voluntários do Pão Nosso de Cada Noite, um projeto que alimenta moradores de rua da cidade do Recife todas as terças-feiras. A iniciativa partiu de um grupo de 10 amigos que buscavam mudar um pouco a vida de quem vivia na Rua do Imperador, no bairro de Santo Antônio. Hoje, dois anos e meio depois, eles já são 40 pernambucanos que oferecem não apenas refeições, mas afeto a quem mais precisa.

A atividade muda a vida não apenas de quem recebe a boa ação, mas também dos que a oferecem. “Ajudar essas pessoas já virou uma rotina, uma necessidade pessoal. É cansativo. Eu acordo às 5h20, passo o dia na rua trabalhando e quando chego em casa só dá tempo de tomar banho e jantar. Volto pra casa só depois das 23h, mas com uma sensação de dever cumprido”, explica advogado Rafael  Leão, 29, a frente da organização do grupo.

Ricardo Fernandes / Esp. DP

O grupo realiza duas paradas, todas as terças-feiras, por volta das 20h30. O primeiro local a ser atendido é a Rua do Imperador. A cada semana, cerca de oito novos rostos se juntam à iniciativa. A ação é voltada para os moradores de rua e também para quem mora em comunidades próximas. A segunda parada, com situação mais grave, é feita na Praça Maciel Pinheiro, no bairro da Boa Vista. Além da maior concentração de pessoas a dificuldade de lidar com elas também é maior, devido ao comum uso de drogas da população de rua na área. “Uma das principais dificuldades que temos é em relação às filas, que alguns não respeitam e também com o lixo, que lutamos para criar o hábito deles jogarem no local certo para podermos recolher depois”, explica Marina Leite, uma das voluntárias responsáveis pela organização das filas.

Ricardo Fernandes / Esp. DP
Ricardo Fernandes / Esp. DP

No cardápio fixo, a lista que varia entre mungunzá, cuscuz recheado com salsicha, pão, café e água. Outros alimentos dependem de doações que o grupo recebe ao longo da semana de preparação. Fatias de bolo, frutas e biscoitos são as mais comuns recebidas pelas pessoas que transformam a noite daqueles mais necessitados. Tudo fruto de doação dos próprios voluntário, cuja lista da semana é dividida por meio de um grupo de mensagens do qual todos fazem parte.

mil é a média estimada de pessoas que vivem nas ruas do Recife

abrigos são administrados na capital

deles são voltados especificamente para moradores de rua

Em meio aos carros parados com o alerta ligado, a distribuição da refeição é feita aos poucos e recebida pelo público com muito anseio. Seu José Silva, de 48 anos, conta que essa é a única refeição que faz durante o dia, com exceção de alguma doação que recebe de vez em quando e diz que é o momento mais esperado por ele e pelos colegas. “Temos a sorte de contar com essas pessoas, que se importam com a gente. Se não fossem eles, eu não comeria nas terças-feiras. Também somos muito gratos a outros grupos que fazem a mesma ação em dias diferentes”, conta o morador de rua.

Além dos alimentos, outros tipos de auxílio são disponibilizados aos moradores de rua, incluindo identificação de problemas de saúde, auxílio na prevenção de gravidez, ajuda na procura de tratamentos contra as drogas, consultoria jurídica e até mesmo ajuda com problemas de escolaridade. Os voluntários também oferecem carinho e atenção aos moradores de rua que formam as filas para receber a refeição. Com prioridade, as crianças são alimentadas e ganham livros de colorir e alguns lápis de cor para alegrar a noite. Em seguida, os adultos obtêm comida, bebida e um “ouvido amigo”. Depois de todos se alimentarem, é permitido repetir.

O Recife conta com 11 abrigos, sendo oito deles especificamente para pessoas em situação de rua, além de duas unidades estatais de atendimento para este público. No entanto, segundo dados da Prefeitura do Recife, 1,2 mil pessoas vivem nas ruas da capital pernambucana e na maioria dos casos não há perspectiva de qualquer mudança em curto prazo.

Ricardo Fernandes / Esp. DP

Para aqueles que quiserem integrar o grupo de voluntários e ajudar a população de rua, basta entrar em contato com o a equipe do Pão Nosso de Cada Noite através da fanpage no Facebook ou também comparecer a um dos pontos de distribuição das refeições, qualquer terça-feira, a partir das 20h30.

Ricardo Fernandes / Esp. DP
Eduarda Bagesteiro

Eduarda Bagesteiro

Repórter

Eduarda é estudante da Universidade Católica de Pernambuco e estagiária do Diario desde março de 2017.

Ricardo Fernandes

Ricardo Fernandes

Fotógrafo

Ricardo é fotógrafo do Diario de Pernambuco.

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