Vivendo, amando e vencendo com Down no Recife

No dia internacional da Síndrome de Down, pernambucanos mostram como é possível viver normalmente, apesar dos preconceitos

Por Aline Ramos

Tímida no primeiro contato, Catarina Valéria Nóbrega, 24 anos, precisou ouvir um pouco sobre mim para depois falar sobre ela. Afinal, não é para qualquer pessoa que Kate como é carinhosamente chamada por sua família, abre seu coração e conta sua história. Após alguns minutos de uma conversa descontraída, esboçou um sorriso e falou de seus sonhos. Catarina é atriz e já encenou nove espetáculos teatrais com o grupo Integrart. Além disso, é rainha do Maracaarte – grupo de maracatu.

O que a torna diferente dos outros jovens? Ela nasceu com três cromossomos 21, um a mais do que o padrão, o que para alguns, a tornaria incapaz de ter uma vida normal, já que tem Síndrome de Down. Para sua família, ela possui o cromossomo que os fez enxergar um novo mundo cheio de alegrias e desafios. “Kate é a personificação do que é afeto em minha vida. Para ela, eu sou a ‘irmã velha’. Na infância, eu e meu irmão vivemos muitos preconceitos por ela ser diferente, o que me tornou protetora. Nós temos uma relação muito boa de amizade. Ela sempre percebe quando eu estou triste ou feliz e me dá conselhos do jeito dela, e isso, acaba me deixando mais leve”, conta a irmã Amanda Nóbrega, 27.

Em dezembro de 2015, Kate foi pedida em casamento pelo então namorado, Felipe Rosa, 30, também ator e com Down. “Meu maior sonho é casar com ele, ser mãe e criar meus filhos”, revela. “É pra vida toda! Porque, a gente se ama”, enfatiza o noivo. Para Valéria Nóbrega, mãe da jovem, este é o rumo natural da vida e apoia o relacionamento da filha. “Eu costumo dizer que assim como a poliomielite passou por mim na infância e deixou sequelas, a Síndrome de Down passou por minha filha e deixou sua marca. Ela tem o direito de viver e de ser feliz”, afirma.

Estudante do 5° período do curso de Educação Física, a universitária Priscila Mesquita, 24 anos, se expressa bem com as palavras, já que além do horário das aulas, dedica cerca de seis horas por dia estudando em casa.

“Mesmo tendo Síndrome de Down, eu tenho uma vida como a de qualquer outra pessoa. Amo estudar e meu maior sonho é terminar a faculdade e seguir a carreira que escolhi”, enfatiza.

Atualmente, Priscila é professora de zumba, numa academia na Região Metropolitana do Recife. “Zumba é um ritmo que mistura salsa e merengue. Além da dança, eu dou orientações para os alunos de equilíbrio, força e flexibilidade”, explica.

Neomar. Foto: Aline Ramos/DP

Quem vê o sorriso largo e o jeito doce de Neomar Sobrinho, 44 anos, não imagina que ele vivenciou tantas perdas em sua família. Foi na atuação que Neomar encontrou forças e descobriu um futuro instigante e desafiador.

“A síndrome não me impede de ser feliz. Eu quero ser ator profissional de teatro e só quero casar quando tiver um trabalho fixo para poder manter minha família”, conta.

A síndrome de Down é causada pela presença de três cromossomos 21 em todas ou na maior parte das células de um indivíduo. Isso ocorre na hora da concepção de uma criança. As pessoas com Síndrome de Down, ou trissomia do cromossomo 21, têm 47 cromossomos em suas células em vez de 46, como a maior parte da população.

Pessoas com a síndrome podem ter algumas características semelhantes e estar sujeitos a uma maior incidência de doenças, mas apresentam personalidades e características diferentes e únicas – entre as físicas associadas estão: olhos amendoados, maior propensão ao desenvolvimento de algumas doenças, hipotonia muscular e deficiência intelectual.

Em geral, as crianças com síndrome de Down são menores em tamanho e os desenvolvimentos físico e mental são mais lentos do que o de outras crianças da sua idade.

No entanto, ela não é uma doença, mas uma condição inerente à pessoa. Tendo dito isto, é importante destacar que, nestes casos, não há tratamento ou cura.

Aline Ramos

Aline Ramos

Repórter

Aline é repórter do Diario de Pernambuco. Integra a equipe de multimídia do jornal e assina também as fotos desta reportagem. Gosta de contar as aventuras das pessoas que formam esse grande caldeirão de histórias que é a sociedade pernambucana.

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