Um Professor Pardal no metrô do Recife

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Funcionário da Metrorec há 30 anos, Carlos Alberto da Silva usa a lógica para inovar e melhorar o funcionamento das estações

 

Quem trafega pela linha Centro do metrô do Recife não sabe que ali trabalha um inventor. Hoje chefe de posto da Estação Rodoviária, Carlos Alberto Silva é funcionário do local há 30 dos 34 anos de implantação do modal. Aos poucos, foi aprendendo a operar o sistema dos trens, coordenar as chegadas e saídas e a modernizar-se junto aos novos funcionários e às mudanças pelas quais o local passou ao longo dos anos. A curiosidade, instinto que sempre o guiou, desencadeou as primeiras invenções. Sem fogão para esquentar a água do café no trabalho, usou uma lata de leite, cabo de vassoura e alguns fios condutores de energia para resolver o problema. Depois, bolou uma forma de manter as portas da estação Camaragibe sempre fechadas, economizando energia e aumentando a privacidade dos funcionários com artimanhas simples. Agora, quer voltar as invenções para os passageiros.

O morador do bairro de San Martin, Zona Oeste do Recife, nunca fez cursos de mecânica ou eletrônica, mas sempre teve habilidade em criar artefatos do zero. “Quando era adolescente, bolei um jogo de luz usando o motor de um liquidificador. Sempre fui interessado nisso”, lembra. Não demorou muito até ter a fama de cientista espalhada entre os colegas de profissão, ganhando o apelido de “Professor Pardal”, que ostenta até hoje com ar de brincadeira.

A criação das roldanas para manter uma porta da Estação Camaragibe fechada funcionou tão bem que logo foi implementada nas outras quatro portas internas da administração local. Se o metrô investisse em molas hidráulicas, aparelho com finalidade semelhante à da engenhoca, o gasto seria de R$ 80 por peça, oito vezes mais. Os cerca de R$ 10 investidos em cada porta interna da estação são distribuídos em duas polias (R$ 3 cada), um pedaço de fio de nylon, um parafuso e uma forma de acrílico preenchida com cimento. Tudo é meticulosamente calculado. “As portas de alumínio são mais leves e precisam de menos peso para fechar. Se colocássemos a mesma medida de cimento em cada fio algumas portas bateriam com mais força”, conta.

Apesar do talento nato para as invenções, Alberto não pensa em deixar o metrô atrás de outras experiências. “Eu sempre vou buscar algo para melhorar o meu ambiente de trabalho”, explica. Além da liberdade de criar, ali é o local no qual ele adquiriu amigos para uma vida inteira. Alguns deles considerados irmãos nos momentos mais difíceis pelos quais ele passou. “Há dez anos, perdi meu filho. Ele levou um choque empinando pipa. Fiquei muito tempo jogado de uma estação para outra até me recuperar. Sempre foram muito compreensivos comigo aqui”, afirma.

Para o futuro, Alberto tem um planejamento ainda mais ousado para além da área administrativa do metrô. Ele quer criar um sistema mecânico, que opere de forma semelhante ao das roldanas, para controlar as catracas que ligam a integração do metrô com o ônibus. Dessa forma, espera evitar que passageiros deixem de pagar a passagem rodando a catraca no sentido contrário do permitido. “Quero arrumar uma forma de pôr um contrapeso do outro lado da cancela para ela ficar sempre equilibrada”.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é estagiária do Diario de Pernambuco desde maio de 2016

Julio Jacobina

Julio Jacobina

Fotógrafo

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