Com trampolim, Wellington foi do Ibura a Las Vegas

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Atuando em obra sobre Michael Jackson no maior circo do mundo, artista volta à escola da infância humilde e ensina como sonhar em vencer na vida

A quadra da Escola Municipal Maria Adelaide de Barros estava cheia. Cerca de cem crianças assistiam atentas ao acrobata do Cirque du Soleil Wellington Lima, 38 anos, contar a sua experiência de vida. Naquela escola, localizada no bairro da Cohab, zona sul do Recife, ele estudou durante toda a infância. No bairro, ele nasceu e viveu até se mudar para o Rio de Janeiro, já com a possibilidade de se tornar um artista circense batendo à porta.

“Eu sou vencedor”. “Eu sou o melhor”. Foram frases que Wellington fez questão que as crianças repetissem cada vez mais alto, ecoando na quadra. Todas sentadas no chão, de olhos bem abertos que, muitas vezes, não sabiam exatamente do que se tratava aquele momento. Outras sabiam que aquela pessoa que falava trabalhava em um circo, sem saber que se tratava de um dos mais importantes do mundo.

Ao redor, professores, tão empolgados quanto os alunos, observavam com um olhar cheio de alegria, a agitação fora do normal para a escola. “Eu estou vendo o que ele se tornou. Espero alcançar um dia meus objetivos como ele alcançou os dele. Hoje, é Wellington nos Estados Unidos, amanhã, pode ser eu”, comenta a professora Ana Paula Mendonça, 40 anos, que estudou na escola na mesma época de Wellington.

Wellington voltou com o intuito de inspirar. No local simples e pequeno, com a estrutura bem precária, onde passou por momentos de aperto, mas também de muita felicidade.

Relembra dos dias que passava fome e da hora da merenda, esperada com tanta ansiedade e que até hoje, é feita por Dona Ambrosina.  

“A escola está bem melhor hoje em dia, organizada e com mais professores. Eu lembro muito bem da hora da merenda. Era o horário que nós mais esperávamos, sempre. Vê-la aqui, na mesma escola, todos esses anos depois, me lembra das minhas origens. Me lembra de que não posso esquecer de onde eu vim”, explicou emocionado. 

Para Ana Paula Mendonça, Wellington é inspiração Marlon Diego / Esp. DP
Marlon Diego / Esp. DP

Cresceu na Cohab e ganhou o mundo. Já rodou o planeta com espetáculos junto ao circo. Suíça, Espanha, Japão, Portugal, Itália, Hong Kong, México, Argentina e Macau, além Las Vegas, nos Estados Unidos, onde mora atualmente, já estiveram na rota de Wellington.

É consolidado e reconhecido na sua profissão. Não é uma celebridade, mas quer ser uma inspiração. O retorno à escola, para ele, é uma retribuição por tudo que viveu por lá. Junto com Anna Sampaio Oliver, coach e palestrante internacional, o propósito de Wellington é mostrar que cada um tem uma “chama” que precisa ser acesa. Só assim, conseguirão seguir os seus sonhos.

Wellington exalta a importância da vontade “que vem de dentro” por experiência própria. A família nunca foi uma incentivadora. A mãe nunca assistiu uma única apresentação dele, durante a infância. Algo que o marcou, mas não deixou mágoas. “Não coloco a culpa em minha mãe, de jeito nenhum. Ela não sabia como me motivar e nem a importância disso. É por isso que faço o que faço hoje. Pra despertar nas crianças a vontade de crescer, e construir nos pais o papel importantíssimo de apoio familiar nesta fase da vida que é o que vai definir as pessoas que essas crianças irão se tornar”.

Marlon Diego / Esp. DP

Ele conta que o segredo é levar a vida como um trampolim. Cada vez que você toca no chão, ele te impulsiona para mais alto. “Eu gosto de despertar nas pessoas o melhor delas. Eu não faço isso por mim, faço por elas. Pois eu sei que o mundo dá voltas, e tudo que estou fazendo hoje, irá me afetar novamente de uma maneira maravilhosa. Eu vim aqui para mudar o mundo”.

Sem medo de obstáculos

Nenhuma adversidade fez Wellington ceder e deixar de seguir seus objetivos. Aos 11 anos, começou a praticar capoeira no meio da rua, em frente à casa em que morava. A medida que avançou no esporte, também descobriu, aos poucos, que aqueles movimentos que executava não eram apenas um hobby, mas sim, uma vocação. Passou a treinar no Ginásio do Geraldão, na Imbiribeira e, após quatro anos de muito suor e esforço, ganhou o prêmio Trampoline Nationals, concurso de acrobacias realizado nos Estados Unidos, em 1996. Depois do prêmio, se mudou para o Rio de Janeiro, onde sua vida virou de cabeça para baixo. Foi chamado para uma audição no Cirque De Soleil e apenas algumas semanas depois, foi convidado para fazer parte da equipe do espetáculo La Nouba, que veio a ser apresentado no Walt Disney World Resort, em Orlando, na Flórida.

Marlon Diego/Esp.DP

Hoje, traz na bagagem quatro espetáculos diferentes, o último deles, ONE, é uma homenagem ao ícone do pop, Michael Jackson. Espetáculo que custou dezenas de milhões de dólares para ser produzido e que em seu primeiro ano de exibição arrecadou mais de R$ 300 milhões, com ingresso médio custando o equivalente a mais de R$ 800.

Números que Wellington nem sonhava em ver tão de perto. E apesar de todas as viagens e luxos que o trabalho lhe proporciona, faz questão de manter os pés no chão. Após cada apresentação, como ritual, toma um banho de água fria. 

“Eu faço isso pra tomar, literalmente, um banho de realidade. Não vou esquecer minhas raízes nunca e isso é o que me motiva cada dia mais. Ver de onde eu vim, onde eu consegui chegar e para aonde eu vou”, comenta.

Após a palestra, foi surpreendido com um café da manhã regional, que estava posto em uma mesa de uma sala de reunião da escola. Entre as quatro paredes, mal pintadas de amarelo, viu uma mesa em sua homenagem, lotada de comidas regionais. “Faz uns cinco anos que eu não como uma comida brasileira, uma comida especialmente nordestina como essa, e me trouxe um gostinho de casa. Eu pertenço a esse lugar, não nego”, comentou, entre uma garfada e outra.

Acabou de comer às pressas. Um voo para o Rio de Janeiro não podia esperar. De lá segue para Las Vegas e mais uma vez deixou o bairro onde nasceu para ganhar o mundo.

Marlon Diego/Esp.DP
Eduarda Bagesteiro

Eduarda Bagesteiro

Repórter

Eduarda é estudante da Universidade Católica de Pernambuco e estagiária do Diario desde março.

Marlon Diego

Marlon Diego

Fotógrafo e videografista

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