Sobre esperar e resistir: Muribeca, uma terra de ausências

Há duas décadas, moradores do Conjunto Muribeca, em Jaboatão dos Guararapes, vivem de esperar. Por soluções e recomeços, mais do que por indenizações e tempo

 

A gargalhada ecoa alto por dezenas de metros. Os meninos estão correndo com seus pés de samboque, tão íntimos do barro pedregoso que carregam moldes do relevo da Muribeca nas pontas dos dedos. São poucos. Jogam ininterruptamente a tarde inteira, tendo meia dúzia de prédios vazios como megafones de seus sonhos de grandes feitos futebolísticos. São filhos de uma geração que insiste em não abrir mão de um conjunto residencial que já foi órgão vital de uma Jaboatão dos Guararapes em franca expansão. Das 2,2 mil famílias que já viveram em algum apartamento dos 69 prédios do habitacional, menos de 1% permanece.

Como na cidade ucraniana de Chernobyl, alguns poucos moradores decidiram se manter em suas antigas residências, mesmo contra as recomendações das autoridades, que temem por suas integridades físicas. Mas no residencial pernambucano, não houve qualquer explosão de reator nuclear. A tragédia – e esta é a palavra – foi silenciosa e bem menos comovente que o acidente da União Soviética que, até hoje, inunda a imaginação de populações do mundo inteiro. Em 1995, o primeiro prédio do Conjunto, inaugurado em 1982, apresentou rachaduras. Depois outro. E tantos outros, até a primeira desocupação. E poucos passam a encontrar sentido na palavra lar, quando se é vizinho do medo.

Aos poucos, um a um, os prédios foram sendo interditados pela Defesa Civil do município. Uns, por problemas estruturais. Outros, pela proximidade com o edifício vizinho, que ameaçaria cair. Pouco a pouco, as quase 10 mil pessoas que ali viviam foram trocando o risco de desabamento pelo risco de nunca mais tomar para si a realização do tradicional sonho da casa própria. Como tumores, foi diagnosticado que um raio de 12 metros de cada prédio condenado teria que, também ser demolido. Até hoje, poucos chegaram a ir ao chão, ao contrário da esperança de tantos.

O caso dos moradores chegou à Justiça. A Caixa Econômica Federal, por conta do seguro firmado no financiamento da obra, paga o equivalente a R$ 2 milhões mensais em aluguéis aos que deixaram suas residências. Mas não há previsões se o local será reconstruído ou se todos os moradores poderão ser indenizados. De certeza, apenas que o método construtivo utilizado, o de alvenaria resistente, foi proibido desde 2005.

Algumas das crianças que viram os colegas desocupando apartamentos hoje estão casados e vivendo nos apartamentos que as autoridades condenaram. Hoje adultos, junto a alguns familiares, criaram três frentes de resistência: a Somos todos Muribecas, a Daqui não saio, daqui ninguém me tira e a Associação dos moradores do Conjunto Muribeca. Lutam por perspectivas e, também, por um senso de identidade que não rachou nem cedeu.

A Chernobyl em que não houve explosão segue guardando belezas por entre escombros. Veículos abandonados no local completam aniversário. Quando o sereno fecha as janelas do sol, repousando por sobre os telhados de tantos edifícios de três andares, andar por entre seus prédios te apequena, batendo à porta de um reino de pesadelos infantis em que até a escuridão ecoa. Acordar é dar de cara com a inscrição num muro revestido de sinceridade: “A Justiça massacra o povo do Conjunto Muribeca”.

À repórter Rosália Vasconcelos (em reportagem de novembro de 2015), a contadora Fabiana Cynthia dizia, emocionada, que “A gente sai de Muribeca, mas Muribeca não sai da gente”. É que no condomínio do abandono, ninguém cobra por desabafos. Ao redor do edifício 59, demolido pela metade, a introdução de uma natureza que reclama seu espaço vai dando indícios de reintegrar suas posses. Entre dezenas de apartamentos apagados, alguns feixes de luz lembram aos desavisados que ali há vida. E é esse lembrete que serve de boas vindas a quem esquece que onda há esperança, a bravura do resistir balança, mas não cai.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Rafael é fotógrafo do Diario desde 2015. Foi à Muribeca com a repórter Rosália Vasconcelos para reportagem publicada em novembro de 2015 (confira). Assina este ensaio, que tem crônica de Ed Wanderley.

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