Sobre chá e poesia: o reduto do mate que reúne artistas e pensadores há 35 anos no Recife

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Improvável reino do chá se faz ponto de resistência na cena cultural, inclusive contra a progressiva digitalização social e o implacável calor pernambucano

 

“Pega a folha tostada do mate, coloca no caldeirão com água quente e deixa cozinhar. Quando esfria, passa na peneira e bota o líquido no freezer. Depois, é só misturar com limão, maçã, tamarindo ou tomar puro mesmo”, conta José Suevânio Pinheiro, 50, sobre a fórmula nada secreta do carro-chefe de sua lanchonete. O chá-mate gelado, nas tardes quentes do Recife, é o toque de amargor refrescante que vem a calhar. Desde que abriu as portas, há 35 anos, a venda acumula clientes fiéis – dentre eles trabalhadores, estudantes, artistas, músicos e poetas.

Mesmo que o hábito de tomar chá esteja longe de bater o costume brasileiro do cafézinho, a lanchonete de José é um verdadeiro reduto suburbano em plena Avenida Guararapes – no Centro do Recife. Em frente ao Edifício Continental, entre táxis estacionados, bancas de jogo do bicho e livros do sebo na calçada, o pequeno espaço se destaca com suas mesas brancas na rua expondo copos de mate. Dentre os frequentadores, geralmente estão homens de chapéu panamá e mulheres vestidas com saias longas. Alguns têm um livro de capa dura em uma das mãos e, na outra, um cigarro. Todos passam horas ali.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O pai de José, no final da década de 1960, começou a vida de “empreendedor” com uma carrocinha de cachorro quente. Criou gosto pela coisa e nunca mais saiu do ramo de alimentação. Com o êxito, abriu a Lanchonete Popular na Rua Siqueira Campos, por trás dos Correios – no bairro de Santo Antônio. “Era a loja 23 e, quando expandiu, juntou com a 24”, lembra o herdeiro. Nesta época, com apenas 14 anos, José começou a trabalhar e aprender tudo que sabe. Quando surgiu a ideia de fazer uma lanchonete especializada em chá-mate, em 1984, não havia concorrência e, segundo o comerciante, o chá estava em alta na cena boêmia.

Formado em administração, o homem coordena seis homens e não abre mão de atender no balcão. Comanda o caixa, entrega os pedidos e ainda encontra tempo para conversar sobre Fórmula 1, política e economia com os clientes – os quais faz questão de chamar de “amigos”.

Com os mais antigos, sabe exatamente o que cada um quer e basta um sinal para mandar uma água tônica ou pão-de-galinha artesanal à mesa. Inclusive, faz questão de pontuar que é a empadinha de camarão e mate puro que o artista recifense e ex-integrante da banda Mestre Ambrósio, Siba, sempre pede quando está de passagem pela cidade.

Apesar do local ser um tanto escondido e seu caráter seja mais proletário, José comenta que as faculdades por perto acabaram oxigenando o público. Agora, recebe muitos jovens e até músicos de rock progressivo e de “MPB de qualidade” – em sua concepção, cantada e interpretada por Caetano, Gilberto Gil, Oswaldo Montenegro e Maria Bethânia. Mesmo com essa diversificação, o reduto do chá-mate também sente os efeitos da crise econômica e, há dois anos, as contas não estão mais fechando.

“Com tanto desemprego, o consumidor não tem renda para gastar. Além das lojas, no Centro, que estão fechando. A maioria dos meus clientes eram trabalhadores locais”. Mesmo assim, mantém os preços acessíveis. O chá mate custa R$ 2,50; a empadinha, R$ 2,80; e o pão de galinha, R$ 3.

 

 

 

Refúgio dentro do caos metropolitano

 

 

 

 

Com aproximadamente sete anos, Salomão Henrique Cavalcanti acompanhava o pai nas andanças de compras ou passeios pelo Centro e aproveitava a parada obrigatória no chá mate da Rua Alarico Bezerra, no bairro de Santo Antônio. Comia sempre um salgado e tomava o refresco. A partir dali, de uma transmissão geracional, deu-se início ao que veio chamar de rotina de diletância pequeno burguesa.

Hoje, com 20 anos, o estudante de Direito não troca as tardes – após a aula – regadas a bate-papo, cigarros, um livro de Jorge Amado e poesias rabiscadas no caderno. Poeta que não publica suas crônicas e contos, se esconde do caos metropolitano em um canto que mergulha no meio disso tudo – mas reserva a serenidade e sua aura idílica.

Sentado ali, passa horas observando as pessoas, transformando-as, secretamente, em personagens de suas obras. “Há várias lanchonetes e bares pela cidade, é verdade. Entretanto, somente aqui é que consigo encontrar uma espécie de refúgio do caos urbano mesmo estando dentro dele”, conta, além de citar a amizade que construiu com o proprietário.

José Garibaldi Chagas, 83, é outro frequentador assíduo do local. Negro, de cabelo grisalho, boina azul e cordão de prata aparente na camisa meio aberta, marca ponto todos os dias às 13h30, depois de largar do emprego. Só vai embora às 19h – quando José finalmente fecha as portas. Não bebe ou fuma, mas confessa jogar no “danado do bicho”, no mínimo, duas vezes no dia, cerca de R$ 26.

Naquela tarde, sua aposta tinha sido touro, leão, macaco e porco. Perdeu. Na aposta das 11h, no entanto, acertou na cabeça e tirou R$ 270. Vai vivendo ali na calçada da lanchonete, à base de água, café e risadas com colegas e as moças de um prostíbulo próximo.

Os tipos que frequentam o local são os mais diversos e, para vários, José, com a política do bom atendimento, opta pela lógica do bom e velho fiado. “Eu preciso manter os meninos trabalhando e aqui ninguém deixa de lanchar porque está sem dinheiro no momento”, ressalta, enquanto lembra que aprendeu a ser solidário como o pai antes de ser patrão.

O sorriso do comerciante, mesmo que acanhado, é sua maior exposição de simpatia e satisfação de fazer o que gosta. Apesar da formação acadêmica, não pensa em fazer outra coisa. Ele é firme na decisão de não desistir do que seu pai começou com tanto suor e garante que, apesar dos apertos, não fechará as portas. E, mesmo de fora, dá para sentir o cheiro de comida feita na hora, de chá e da sua resistência gravada nos azulejos antigos e nos liquidificadores industriais. Mais: está escrita na história anônima do Recife.

Tatiana Ferreira

Tatiana Ferreira

Repórter

Tatiana é estudante de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco e integra a equipe do Diário desde agosto de 2017 – com passagem pela editoria de Local.

Thalyta Tavares

Thalyta Tavares

Fotógrafa

Thalyta é estudante de Fotografia na Universidade Católica de Pernambuco.

Shilton Araújo

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Fotógrafo

Shilton é estudante de Fotografia na Universidade Católica de Pernambuco.

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