Representatividade para quem?

por

Perfil dos candidatos a prefeito em Pernambuco reforça exclusão de mulheres, negros e jovens

Homens brancos acima dos 40 anos. Este é o perfil da maioria das candidaturas que os eleitores pernambucanos encontrarão nas urnas no próximo dia 2 de outubro. A representatividade reivindicada através de protestos nas ruas foi devidamente contornada pela classe política, não se concretizou e não constará como opção. De acordo com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), dentre os candidatos aos executivos municipais, 79,5% estão acima dos 40 anos de idade. E, desse total, 85% são homens.
O mesmo perfil, ao ser verificado na população pernambucana, corresponde a pouco mais de 13% dos habitantes.

“É a prevalência do coronelismo e do patriarcado. Esses indivíduos, sobretudo no interior, possuem histórico de política familiar, de hegemonia política local”, explica o cientista político Elton Gomes, professor das Faculdades Estácio e Damas. Não há mudança prática, evidenciada pelo perfil dos candidatos, afirma o cientista político Thales de Castro, professor da Universidade Católica de Pernambuco. “Além disso, há uma enorme disparidade com a formação populacional do estado. Há a defesa de uma renovação que, na prática, não renova nada”, observa.

“É a prevalência do coronelismo e do patriarcado. Esses indivíduos, sobretudo no interior, possuem histórico de política familiar, de hegemonia política local”

Elton Gomes

Cientista político

Apesar de Dilma

Mesmo inimigos no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, PT e PMDB são aliados nas eleições municipais de 34 municípios pernambucanos.

Rivais Aliados

PT e PSDB, outra união inusitada, está presente em 30 cidades do estado

Ele acrescenta que até mesmo os políticos apontados como caminho de renovação já chegam com ideias e caminhos comuns às gerações políticas anteriores. “A simples mudança na faixa etária não está vinculada necessariamente às novas práticas políticas”, avalia. Não há mudança prática, evidenciada pelo perfil dos candidatos, afirma o cientista político Thales de Castro, professor da Universidade Católica de Pernambuco. “Além disso, há uma enorme disparidade com a formação populacional do estado. Há a defesa de uma renovação que, na prática, não renova nada”, observa.

Ele acrescenta que até mesmo os políticos apontados como caminho de renovação já chegam com ideias e caminhos comuns às gerações políticas anteriores. “A simples mudança na faixa etária não está vinculada necessariamente às novas práticas políticas”, avalia.

A perspectiva de transformação se esvai ao se examinar as projeções para o futuro. Gomes destaca que há empenho dos jovens em atuar na militância, mas não em participar da política partidária e da possibilidade de ocupar um cargo eletivo. “Eles vivenciam uma crise de representatividade. Ao mesmo tempo, não se sentem atraídos pela política partidária. Ou seja, a crise de representatividade permanecerá”, analisa Elton Gomes.

Quando a renovação na política ocorre, não é exatamente o que os eleitores esperam por “novos quadros”. Não é raro, sobretudo no interior, que se mudem os nomes e permaneçam os sobrenomes. “Quando vem alguém diferente, quase sempre é da família do prefeito”, aponta o cientista político.

É o caso de Matheus Martins, mais jovem candidato ao executivo municipal no estado, aos 24 anos. Tenta ser eleito em Terezinha, no Agreste, pelo PSB com o apoio do atual gestor, o seu tio Alexandre Martins (PR).

Matheus não é apenas sobrinho de um ex-prefeito, mas também neto e bisneto de antigos gestores do município. “Apesar da pouca idade, desde 2008 participo da política da cidade. Fiz parte da campanha do meu tio e temos o objetivo de seguir a mesma linha de gestão de Eduardo Campos”, afirma.

O candidato relata que sofre “ataques” por ser “apadrinhado” e membro da família do atual gestor, embora garanta que sabe lidar com isso. “Os jovens são a chave para continuar com o desenvolvimento da cidade. Dedicarei muito do meu mandato para melhorar a vida deles”, diz.

Candidato mais jovem

Matheus Martins (PSB)
Idade: 24 anos
Data de nascimento: 13/06/1992
Cidade: Terezinha

Candidata mais jovem

Damacele Tomé (PDT)
Idade: 27 anos
Data de nascimento: 10/03/1989
Cidade: Tupanatinga

Candidato mais velho

Professor Josibias Cavalcante (PSD)
Idade: 88 anos
Data de nascimento: 09/08/1928
Cidade: Água Preta

Candidata mais velha

Dona Graça (PDT)
Idade: 77 anos
Data de nascimento: 22/01/1939
Cidade: Itambé

A candidata mais nova entre as mulheres também entrou no jogo político por laços familiares. Damacele Tomé, 27 anos, disputa a prefeitura pelo PDT, em Tupanatinga, no Agreste, tentando suceder o seu tio e atual prefeito, Manoel Tomé (PT). “Para mim foi uma surpresa. Não imaginava entrar na política e estou gostando muito”, revela Damacele, que se formou em enfermagem em 2014. Desde 2015, ela passou a exercer cargo comissionado na Secretaria de Saúde de Tupanatinga. “Eu já lidava com o público e a população me pedia para eu ser candidata. A mulher na política hoje é uma realidade”, declara.

P

As 10 alianças que mais se repetem em coligações no estado

PSB + PSD = 83 municípios
PSB + PR = 79 municípios
PSB + PMDB = 77 municípios
PSB+ PP = 69 municípios
PSDB + PMDB = 67 municípios
PMDB + PSD = 65 municípios
PMDB + PP = 65 municípios
PSDB + PSD = 65 municípios
PT + PTB = 64 municípios
PR + PSD = 61 municípios

As 10 profissões mais comuns dos candidatos

Comerciante 44
Advogado 33
Médico 27
Administrador 15
Engenheiro 10
Odontólogo 8
Contador 5
Professor de Ensino Superior 5
Psicólogo 3
Assistente Social 3
Outros 30

Os partidos com mais candidatos a prefeito

PSB 127
PTB 58
PSD 44
PMDB 43
PR 41
PSDB 34
PSOL 24
PT 24
PDT 21
DEM 19
Outros 141

Passos Lentos

De certo modo, a participação feminina tem sido cada vez mais efetiva politicamente. Porém, ainda em uma realidade que não corresponde ao perfil do eleitorado.

Entre os que votam, as mulheres são maioria, com mais de 53% do total de eleitores de Pernambuco. Entre os que são votados, o percentual é, segundo o TSE, de apenas 15,6% nas candidaturas aos Executivos municipais.

A Lei Eleitoral determina que é preciso que as coligações (vereadores e prefeitos) tenham 30% de candidaturas ocupadas por mulheres. Dessa forma, os partidos concentram a grande maioria delas como postulantes a vereadoras, restringindo o acesso ao Executivo.

“Mais de cinco homens candidatos a prefeito para uma mulher é desproporcional. Principalmente em um estado em que as mulheres são maioria da população. Há um papel determinante do machismo e da misoginia”, assegura Elton Gomes.

Isolado

Dos 184 municípios de Pernambuco,  apenas Terra Nova, no Sertão do São Francisco, possui somente candidatas mulheres ao Executivo
O

Partidos apenas com candidatas mulheres

PSDC – Iris Moura (São Lourenço da Mata)
PSTU – Simone Fontana (Recife)
P

Partidos apenas com candidatos a prefeito homens

PCB, PCO, PMN, PPL, PPS, PRB, PRTB, PSC, PT do B e PTN

Dentre os 184 municípios do estado, apenas Terra Nova, no Sertão do São Francisco, possui somente candidatas mulheres ao Executivo. Um ponto fora da curva que segue um padrão nacional. Ao todo, são 52 cidades do Brasil com disputas totalmente femininas de um universo de 5.570 municípios do país.

Ainda assim, a passos lentos, os especialistas defendem que é possível enxergar evolução no papel feminino na política. Não somente por ter tido até pouco tempo uma presidente da República eleita com quase 55 milhões de votos, mas também pela presença de mulheres ocupando posições de destaque no legislativo nacional.

Paulo Paiva/DP

“Ao olhar as imagens da promulgação da Constituição de 1988 por Ulysses Guimarães, praticamente não se vê mulheres. Hoje, apesar de poucas, elas estão presentes”, destaca Gomes. “A evolução existe, porém ainda é tímida diante do potencial de participação das mulheres na realidade política estadual e nacional”, corrobora Thales de Castro.

“Ao olhar as imagens da promulgação da Constituição de 1988 por Ulysses Guimarães, praticamente não se vê mulheres. Hoje, apesar de poucas, elas estão presentes”
Elton Gomes

Cientista político

Fosso racial

Quando se trata do perfil racial dos candidatos, a falta de representatividade é mais profunda. Há uma histórica subnotificação no número de negros nas medições populacionais. Segundo o Banco de Dados do Estado, organizado pelo Governo de Pernambuco, apenas 6,8% da população se considera preta. Entre os candidatos, dados do TSE revelam pouco mais de 3% de candidatos negros a prefeito.

“Não há dúvidas de que exista uma subnotificação em ambos os campos. Isso acontece por conta do caráter valorativo associado à população negra. A este movimento damos o nome de branqueamento, uma política perversa que contribui para a perpetuação do fosso racial”, explica a doutora em antropologia e professora da Universidade Federal de Pernambuco, Liana Lewis.

Ela ainda destaca que o racismo existente leva a população e, consequentemente, os candidatos, a se identificarem com o perfil racial dominante. “Em um país historicamente e estruturalmente racista como o Brasil, a raça negra é associada a um amplo elenco de adjetivos negativos, que revelam uma interpretação de que o negro é menos humano do que o branco”, lamenta.

Simone Silva Lima (PMDB) concorre ao cargo de prefeita no município de Jaqueira, Zona da Mata Sul de Pernambuco. Ela faz parte do pequeno grupo de 18 negros – entre homens e mulheres – que possuem uma candidatura. Uma fração pequena se for levado em conta que são 576 postulantes a prefeituras no estado. “Para os negros, a abertura desse espaço é muito difícil. É preciso ser muito forte e ter disposição para disputar um cargo eletivo”, aponta a postulante.

Apesar de ter consciência da falta de representatividade da população negra na política, ela conta que é reconhecida na cidade e não sente na pele, durante a campanha, o preconceito racial. “Mas sei que é uma realidade. É triste, mas em pleno 2016 precisamos conviver com o racismo”, conclui.

João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é repórter do Diario desde 2014. Como estagiário, escreveu para a editoria de Política, antes de compor a equipe de dados, no CuriosaMente.

Comentário(s)

Comentário(s)