Recife e Steven Spielberg: medo de tubarões, pesquisas judaicas e muito além do cinema

O 30° longa metragem dirigido por Spielberg entrou em cartaz nos cinemas da capital pernambucana como todas as suas obras mais recentes: discretamente. Mas nem sempre foi assim que o público recifense recebeu as obras do diretor. Especialmente entre o natal de 1975 e o começo de 1983, quando seus filmes eram garantia de casa cheia. Muito consumidos, os longas acabaram influenciando a opinião dos moradores do Recife sobre alguns temas específicos – de tubarões à cultura judaica.

O  cineasta Kléber Mendonça Filho, por exemplo,  foi marcados pelos filmes que viu na infância. “Fui criança nos anos 1970, e as obras daquela época foram importantes para mim. Acredito que os filmes se ligam aos momentos da nossa vida em que os assistimos. Nós revivemos a época quando assistimos novamente aos filmes”, teoriza. Spielberg não está na obra do diretor de O som ao redor, ele garante. Desconhece filmes pernambucanos que tenham sido influenciados de forma significativa pelo americano. Por outro lado, faz questão de compartilhar as obras que marcaram sua infância para que outros sejam também tocados. Curador do festival Janela Internacional de Cinema do Recife, já exibiu duas películas resgatadas da primeira fase do cinema de Spielberg: Caçadores da Arca Perdida e Tubarão. “O primeiro é uma obra-prima. É realmente uma peça incrível de cinema. O segundo, apresenta mais essa questão do entretenimento da adolescência, que é bom ser revivido.”

 

Quando tubarão era assunto local e não havia ataques

O professor da pós-graduação em oceanografia da UFPE Jesser Fidelis sempre gostou do mar. Quando criança, catava conchas na areia, mas sonhava em conhecer os grandes animais marinhos como os tubarões, golfinhos, baleias. “Assisti a Tubarão na televisão, quando adolescente, e, com certeza, isso alimentou aquela curiosidade que eu tinha sobre como eram os animais marinhos”, lembra.

De acordo com Fidelis, o filme de Spielberg ajudou a disseminar a ideia de que o tubarão é um animal agressivo, uma espécie de máquina de matar humanos. “Os pernambucanos interpretam os encontros infelizes entre banhistas e tubarões a partir dessa noção, que talvez até já existisse, mas que foi difundida pelo sucesso do filme. Ele faz com que as pessoas o vejam como inimigo natural”, interpreta.

Mas faz questão de explicar: “Na verdade, ele morde mais como uma forma de experimentar a carne quando não está enxergando bem. Todas as ondas de ataque têm um motivo, e a culpa não é do tubarão. Quando quer matar, ele leva para o fundo e devora.”

A redescoberta das origens judaicas

A doutora em história judaica Tânia Kaufman considera A Lista de Schindler o primeiro filme a conseguir mostrar à população recifense como realmente foi aquela parte da história, que nunca tinha estado em pauta fortemente. De acordo com ela, as pessoas não acreditavam que o holocausto tinha realmente ocorrido daquela maneira. Ela lembra que, depois que o filme foi lançado aqui, a quantidade de alunos que a procuravam na UFPE para estudar a cultura judaica aumentou muito.

“O filme foi uma espécie de testemunho que levou o conhecimento da história a um patamar mais elevado”, conta.
Tânia assistiu ao filme no cinema com o marido e se emocionou muito, se identificando com a história. “O filme ecoou nas perdas familiares de toda a comunidade judaica. Fugidas do holocausto, muitas pessoas vieram para cá”, conta a professora, nascida no Recife em 1936, filha de pais refugiados da intolerância religiosa.

Ela lembra que a Fundação Spielberg chegou a gravar um documentário com relatos de refugiados que incluíram recifenses. “Articulei o encontro de sete pernambucanos com os documentaristas paulistas que vieram até aqui realizar o projeto.”

Americano protagonista de um Recife pré-multiplex

Espectadores impressionados lotavam estabelecimentos como os extintos Cinema Moderno, que ficava na Rua Joaquim Nabuco, o Veneza, na Rua do Hospício, ou mesmo o gigante São Luiz, na Rua da Aurora, todos na Boa Vista, para ver as obras de Spielberg. Criativo e inovador, o diretor era capaz de levar à catarse quem sentava nas poltronas das salas. Mas, sem se reinventar verdadeiramente há mais de quinze anos, deixou de causar o frisson de outrora nos cinemas locais.

“Assisti a Tubarão no Cinema Moderno, me lembro bem porque fiquei muito impressionado com o filme. Os efeitos especiais eram muito avançados para a época. O que hoje parece até meio tosco, na época fazia as pessoas gritarem de medo dentro do cinema”, lembra o doutor em cinema Cláudio Bezerra. “Quando vi E.T., no São Luiz, alguns anos depois, presenciei uma comoção diferente, mas que acontecia na mesma proporção. As pessoas vibravam, torciam, como se assistissem a uma partida de futebol.”

Bezerra explica que os efeitos especiais, carro-chefe da obra de Spielberg, começaram a ser utilizados por vários outros filmes. “Isso diluiu a força que havia naquela maneira de fazer filmes”, explica. Na segunda metade dos anos 1980, então, ele se reinventou e apostou nos dramas históricos, culminando na realização de A Lista de Schindler, em 1993. “Ali, ele atualizou a admiração que as pessoas tinham nele. Juntou ficção com documentário e poesia visual. Depois, não conseguiu mais evoluir e, por fim, parece ter ficado anacrônico, como se tivesse perdido a criatividade”, acredita.

 

Alguns cinéfilos pernambucanos concordam com a opinião do especialista. Para Eduardo Pires, Spielberg perdeu a capacidade de perceber o momento do público. “Um filme sobre Guerra Fria, com vilões comunistas e um herói burocrático parece ir na contramão dos temas relevantes para o público”, avalia o arquiteto, que já assistiu a todos os filmes disponíveis do cineasta.

Ponte dos Espiões traz um tema desgastado – Guerra Fria e espionagem. Mas é pela abordagem de Spielberg desde Munique que não dá para se entusiasmar com seus filmes novos. Convencional e burocrático, tem se limitado a tratar de grandes temas americanos, mas EUA não têm mais os mesmos papel e contexto geopolítico. Esses temas só empolgam se história for contada de modo inovador. Ele poderia voltar a fazer filmes inesquecíveis se acertasse o tema e trabalhasse com o que tem de melhor: destreza técnica, narrativa atraente e bons personagens.

Eduardo Pires

cinéfilo

Spielberg  tem um talento raríssimo de conseguir se colocar dentro de sua obra mesmo que ela seja um blockbuster ou sirva para alimentar a grande indústria do cinema. O próprio Truffaut, quem mais pregou essa necessidade de o diretor imprimir uma marca pessoal nos filmes, reconhece isso. Spielberg parece reviver a própria vida através do filmes, o que, só é comum no circuito alternativo. Mas, provavelmente, o que o antigo Spielberg tinha de melhor era a capacidade de dar plausibilidade ao extraordinário. Ele consegue fazer coisas absurdas parecerem reais.

Pedro Salgado

cinéfilo

Não acredito que ele trabalhe em função de ganhar as estatuetas do Oscar. Spielberg tem um enorme potencial de for your consideration, o expediente utilizado pelas distribuidoras para chamar a atenção dos membros da academia para as produções exibidas no circuito. Nisso, conta com participação certa na cerimônia todos os anos, seja pelas suas obras autorais, seja pelas produções de seu apadrinhamento. É preciso entender que o Oscar representa uma celebração promovida pela indústria de cinema americana e voltada para ela mesma.

Bruno Veras

cinéfilo

Filmes novos, velhos hábitos

Em Ponte dos Espiões, Spielberg arrisca pouco e dirige pela quarta vez um dos poucos atores com quem voltou a trabalhar depois de uma primeira experiência: Tom Hanks. Sem contar a quatrilogia Indiana Jones, que teoricamente exige a participação de um mesmo protagonista, apenas Richard Dreyfuss (3 vezes) e Tom Cruise (2 vezes) foram convocados por ele mais de uma vez. Os gêneros da nova obra também não são novidades para ele. Spielberg já comandou seis filmes históricos, seis suspenses e 15 dramas.

Com o novo filme, o diretor também repete um hábito antigo: cruzar fronteiras distantes para realizar gravações, algo que não fazia desde Munique (2005). Para a execução do longa metragem, locações na Polônia, na Alemanha e nos Estados Unidos foram visitadas. A paisagem polonesa já havia sido utilizada em A Lista de Schindler (1993) e outras, alemãs, em Indiana Jones e A Última Cruzada (1989).

Neste último, o diretor trabalhou em nada menos que seis países diferentes. O Brasil aparece apenas em um dos trinta longas de Spielberg. São imagens sobrevoadas do Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, utilizadas em Indiana Jones e a Caveira de Cristal (2008).

Apesar da relutância dos amantes da sétima arte em aceitar o trabalho recente de Steven Spielberg como verdadeiramente relevante, todos os seus filmes são sucessos financeiros garantidos. Somados, já arrecadaram mais de U$$ 9 bilhões – é o diretor mais rentável do mundo. As indicações ao oscar também parecem inevitáveis – foram 123. Das 30 estatuetas alcançadas, duas foram por melhor direção.

Paulo Trigueiro

Paulo Trigueiro

Repórter

Paulo é estudante de jornalismo e graduado em psicologia. Escreve para o Diario desde 2013, com passagem pela editoria de Local. Assume ser tão cinéfilo quanto ter medo de tubarão – prefere evitar a Praia de Boa Viagem.

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