Queridinha contra gripes, acerola foi apresentada ao Brasil pelo Recife, há 60 anos

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Do Litoral ao Sertão, fruta que usou Pernambuco como porta de entrada para o Brasil influencia paladar e lavouras locais desde 1958

 

Pernambucano tem mania de se vangloriar de pioneirismo e mesmo com uma frutinha de 7g a postura não seria diferente. Seja em forma de suco, polpa, picolé ou in natura, a acerola não é brasileira, mas abriu as portas para produção nacional no bairro de Dois Irmãos, Zona Norte do Recife. Se hoje não é difícil encontrar um pé capaz de produzir mais de quatro mil vermelhinhas por ano em qualquer quintal da cidade, no final da década de 1950, quando a primeira planta foi trazida da Costa Rica ao Brasil não tinha nem o nome atual. Ela era a “cereja das Antilhas” e não demorou muito para cair no gosto do público. Hoje, o estado ainda é um dos que mais a produz. Apenas no Centro de Distribuição e Logística de Pernambuco (Ceasa), 4,7 mil toneladas da fruta são comercializados anualmente, a maior parte proveniente do Agreste.

O intervalo entre ser plantada e dar frutos é de cerca de três anos. A partir daí, não tem safra difícil: entre florescimento e amadurecimento, leva pouco mais de três meses. Pensando na praticidade e retorno, um dos produtores que decidiu investir nelas foi Luiz Amadeu, dono do sítio Sete Estrelas, no município de Igarassu. Com “apenas” 12 pés, ele produz 800 litros de polpa por safra. Ao lado de mais um funcionário, fornece o resto das frutas in natura para feiras orgânicas. “A produção funcionou tão bem que decidi duplicar este ano”, afirma.

A fruta é exigente: precisa de água em abundância para vingar. Por isso, após a inserção da fruta no país, pela professora Celene Ferreira Cardoso e plantada no próprio campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), os pesquisadores da universidade escolheram a Zona da Mata pernambucana como região para que ela ganhasse espaço. Historicamente, a área tem cerca de 2 mil milímetros de precipitação por ano, três vezes mais do que o Sertão. “Fomos a primeira plantação extensiva de acerola na América Latina. Na década de 1970, o meu pai, Alcindo Lacerda, e os professores Expedito Couceiro e Maria Celene escolheram o terreno”, explica a administradora da Acerolândia, Nádia Lacerda.

kg é a média anual por planta

plantas, em média, por hectare

mil hectares é a média de plantações da fruta no Brasil

%

da produção fica dividida entre BA, CE, PB e PE

Dona Nádia cresceu junto às acerolas

O local, no município de Paudalho, a cerca de 50 km do Recife, tem oito hectares plantados e toda uma estrutura inspirada no tema da “cereja das antilhas”, que o batiza. “Em áreas com média de 1,2 mil milímetros de chuva, ela dá cerca de três safras por ano. Mas em locais irrigados, ela tem capacidade de dar frutos o ano inteiro”, explica o professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco, Acácio Figueiredo. Para dar cinco ou seis safras por ano, o terreno da Acerolândia conta com irrigação. A cada mês, mais de uma tonelada de polpa e seis mil picolés e sorvetes são vendidos no local, gerando empregos e movimentando o comércio da região.

Nádia, que cresceu junto aos primeiros pés do lugar de onde hoje cuida, cita com facilidade estudos e números e tem orgulho em dizer que o único ingrediente que vem de fora dali é o mel utilizado no preparo de alguns doces. Todo o resto é paudalhense. Para a cidade com pouco mais de 50 mil habitantes, exibida em rede nacional por causa do parque em 1988, a Acerolândia é ponto de referência e atração turística.

O local que mais produz acerola em Pernambuco, porém, fica a 700 quilômetros da Acerolândia, em área irrigada pelas águas do Rio São Francisco. O Distrito de Irrigação Nilo Coelho, em Petrolina, tem mil hectares dedicados à fruta. Ali, ela é apenas a sexta mais cultivada, com 4% do território, mas, de acordo com números da Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira (Ceplac), corresponde a 10% de todo território nacional voltado para o cultivo.

Como no Brasil a maior parte da produção é voltada para consumo interno (cerca de 60%), a atualização de números é rara. Entre os maiores produtores locais do Sertão é possível perceber que boa parte das frutas vai para feiras orgânicas ou são transformadas em polpas, enviadas para outras regiões, como Sul e Sudeste.

Além das produções próprias, que vão direto do quintal para a mesa, a Região Metropolitana do Recife se abastece com frutas provenientes em sua maioria do Agreste. Entre os principais fornecedores da Ceasa, estão os municípios de Pombos, Vitória de Santo Antão e Bonito.

Campeã de vitamina C: mito ou verdade?

A fruta está no páreo, acima de referências clássicas como o limão e a laranja, mas não é primeiro lugar na concentração de vitamina C. “Quem tem a maior quantidade de vitamina C é uma fruta não muito conhecida, chamada camu camu. Entre as cítricas, porém, a acerola fica em primeiro lugar”, explica a tutora de nutrição da Faculdade Pernambucana de Saúde, Fabrícia Padilha. A primeira colocada é típica da amazônia, cresce nas margens dos rios e, segundo pesquisas recentes, tem até 20 vezes mais concentração da vitamina do que a acerola.

Difícil, porém, é tragá-la. O amargor do camu camu é tão grande que ela geralmente é consumida em compotas, doces ou outras misturas, o que pode fazer o valor nutricional despencar. “A fruta in natura sempre vai trazer mais benefícios”, explica Padilha. Além de ajudar no sistema imunológico, os sete gramas também são ricos em vitaminas do complexo B e A, sendo consideradas por estudo da Universidade Federal de Alagoas como um antioxidante tão eficiente quanto os industrializados.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é estudante de jornalismo da Universidade Federal de Pernambuco. Estagia no CuriosaMente desde maio de 2016.

Rafael Martins

Rafael Martins

Fotógrafo

Reportagem publicada integralmente no dia 01 de setembro de 2017. Diario de Pernambuco.

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