Quem protege os “protetores”? A profissão de vigilante muito além da invisibilidade

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“Esperar o caos acontecer” pode parecer um trabalho monótono ou até simples quando não acontecem fatos violentos, mas somente quem vive nessa realidade consegue experimentar, literalmente na pele, a aflição cotidiana de sair de casa sem saber se volta

 

“Para eu dar segurança a alguém, preciso estar seguro; mas, infelizmente, as empresas não pensam assim. Só pensam nos custos que vão ter”. O depoimento de Adgertson Franco, vigilante há 17 de seus 47 anos, parece ecoar a situação de uma legião estimada em 15 mil trabalhadores de segurança em Pernambuco. O número de profissionais ativos é do Sindicato dos Vigilantes do estado, bem como o valor do piso salarial, de apenas R$ 1.441, já com benefícios, para contemplar mais do que longas horas de trabalho, muitas vezes de 12 horas, mas para arriscar a vida, diante de uma onda de violência que torna suas presenças cada vez mais comuns e necessárias.

“Esperar o caos acontecer” pode parecer um trabalho monótono ou até simples quando não acontecem fatos violentos, mas somente quem vive nessa realidade consegue experimentar, literalmente na pele, a aflição cotidiana de sair de casa sem saber se volta. O trabalho é árduo. “O meu trabalho começa quando eu saio de casa. Já fui muito ameaçado e por isso preciso estar atento o tempo inteiro, mesmo fora do meu local de trabalho. Além disso, muitos postos de serviço são bem desprotegidos, e, apesar de estarmos armados, o risco de sermos feridos é alto.”, conta Gel, como é conhecido Franco, escalado para trabalhar dia sim, dia não.

Roberto Ramos/DP

 

Um fato comum entre famílias é quando os filhos seguem os passos dos pais. Foi exatamente o que aconteceu com Carlos Roberto Bento, que há 10 anos trabalha como vigilante e inspirou o filho mais velho, Hermanne Nascimento, de 22 anos, que já trabalha fazendo vigilância. “Chamaram ele para trabalhar como segurança de uma das lojas do Shopping RioMar. Entusiasmado, ele veio me contar até que já conseguiu render um bandido. Fico feliz por ele, mas também tenho receio”, conta Bento, cujo filho mais novo, Antônio Nascimento, de 16 anos, também sonha em seguir na área de segurança, mas enveredando pelo Exército. “O vigilante intimida o suspeito. O bandido tem que pensar duas vezes antes de chegar no lugar. Ao ver o segurança, por vezes, desistem”, defende.

Rodrigo Cunha, de 38 anos, endossa a avaliação. Com 8 anos de experiência na área, explica como a rotina é desafiadora, pois quem trabalha como vigilante assume o papel de um policial militar, principalmente quando está armado, mas, se houver qualquer incidente, são tratados como cidadãos comuns. “Ser vigilante é desafiador por não recebermos liberação como autoridades. No momento em que acontece alguma tensão ou invasão no meu posto de serviço, se eu atirar no elemento, como medida de segurança e defesa, terei de responder como um cidadão comum, embora a minha profissão me proponha fazer isso. Dizem uma coisa, mas na verdade é outra”, reivindica. A limitação acaba levando os profissionais a tratarem a arma como adereço, enquanto efeito de intimidação, uma vez que mesmo um tiro para cima pode significar uma implicação legal. Os riscos inerentes à profissão acabam atingindo também o bem-estar familiar. “Sou casado e tenho dois filhos. A família toda, principalmente a minha esposa, fica apreensiva porque sabe que é uma profissão em que a gente vai trabalhar, mas não sabe se voltaremos”, completa Rodrigo.

Por conta dos desafios financeiros, muitos encontram maneiras alternativas para acrescentar à conta no final do mês. Gel, por exemplo, se antecipou, e, quando não está de plantão, ocupa o seu tempo trabalhando como auxiliar de policiais militares, também presta serviços como motorista e faz segurança de pessoas físicas, e tem até suas dicas para se consolidar em suas outras atividades. “Ter uma certa distância do cliente é fundamental. É preciso não ter muita amizade para não comprometer o lado profissional”, diz. Rodrigo também busca o complemento de renda e se envolve em atividades musicais para garantir uma renda extra. “Sou músico. Toco bateria e percussão. Trabalho como músico contratado nas horas livres”, conta.

mil é a média de vigilantes em Pernambuco

mil é a média de piso salarial (em reais) desses profissionais

Conhecendo bem os perigos que cercam os seguranças, entendendo as aflições dos parentes e as horas cansativas de plantões tensos, o Sindicato dos Vigilantes defende uma maior valorização dos mesmos e uma melhora na remuneração. “Os contratos públicos, que são os que mais contratam vigilantes, são os mais difíceis de lidar. Eles atrasam bastante os salários. Chegam a dever até três meses de salário, e, dependendo do risco dos postos de trabalho, o salário ainda é muito baixo e não chega a suprir a necessidade do trabalhador”, argumenta o diretor suplente executivo do Sindicato, Luís Carlos da Silva.

Infelizmente, as histórias não são apenas de riscos corridos, mas de perigos concretos. Ainda segundo o Sindicato da classe, trabalhadores chegam a optar por um afastamento e uma desvinculação da profissão por conta de situações que nunca conseguiram superar. “As questões mais graves são as que causam traumas psicológicos. Vigilantes acabam afastados de suas ocupações por conta da violência psicológica e emocional. Não conseguem lembrar com tranquilidade de episódios do passado”, revela o sindicalista.

Roberto Ramos/DP
Laís Leon

Laís Leon

Repórter

Laís é estudante de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e escreve para o Diario desde 2016, passando pela editoria de Redes Sociais antes de integrar a equipe do CuriosaMente.

Roberto Ramos

Roberto Ramos

Fotógrafo

Roberto Ramos é membro da editoria de Fotografia do Diario 

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