Quem faz o Recife que lê quadrinhos

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“É uma paixão que vai se renovando, geração após geração. E é algo que a gente leva até o fim da vida”. Quem me disse isso foi Marcelo Rigaud, publicitário recifense de 50 anos de idade. Assim como eu, ele é leitor – mais que isso, apaixonado por histórias em quadrinhos.  Sou prova viva de sua afirmação, bem como seu filho Lucas, de 22 anos, a quem ele se referia nesse momento de nossa conversa. Assim como ele, meu gosto por quadrinhos nasceu e se consolidou em casa. Dos primeiros gibis da Turma da Mônica e da Disney, comprados por minha mãe, até minha primeira revistinha de super-heróis – um exemplar de Homem-Aranha.

Marvel Comics/Reprodução

Começou ali. A ansiedade pelos fins de semana com passeios à banca de jornais, picolé, coca-cola, pipoca e gibi. Os saudosos suplementos infantis das edições de domingo. A ação estonteante e desenfreada do boom noventista das histórias da Marvel e da DC Comics, mal contidas nas capas dos formatinhos – na época, publicados pela editora Abril. Quadrinho é paixão.

Que acompanha desde então, desde aquela primeira palavra lida, desde o “Amigão da Vizinhança” encarando Kraven, o Caçador, e se casando com Mary Jane, por entre a morte e a ressurreição do Último Filho de Kypton, por intragáveis Sagas do Clone, por viagens interplanetárias ao império Shi’ar e formações azuis e douradas, por Crepúsculos Esmeraldas. Sou quem sou por causa dos quadrinhos.

E trouxe tudo comigo quando vim de Brasília para Recife. Um lugar em que as bancas me pareciam mais estranhas. Menores, menos vivas, sem tantas cores. Eu não sabia onde estavam meus iguais. Nem sabia se haveria uma nova loja favorita.

Tudo isso me vem à mente diante do primeiro grande evento envolvendo quadrinhos no Recife: a CCXP Tour. Derivada da Comic-Con Experience (daí a abreviação CCXP), o evento já teve três edições anuais em São Paulo. Ele acontece nos mesmos moldes das convenções de quadrinhos norte-americanas que, na verdade, já há muitos anos deixaram de ser eventos voltados para gibis.

O crescimento daquilo a que hoje nos referimos como cultura pop é o que hoje dita o tom desses eventos gigantescos, suntuosos. As editoras de quadrinhos dividem espaço com produtoras e atores de cinema e televisão, empresas de videogames, e tudo mais que hoje circunde o universo geek – antes tão restrito, hoje tão popular.

Topsy.one/Reprodução

Mas é um momento relativamente confuso para os quadrinhos, esse atual e – para quem os ama. Por um lado, a produção nacional independente e alternativa nunca foi tão diversificada; porém, o mais relevante evento brasileiro totalmente dedicado à nona arte, o Festival Internacional de Quadrinhos, realizado a cada dois anos em Belo Horizonte, pode deixar de existir – por falta de verbas de seu maior parceiro: a prefeitura da cidade. Enquanto isso, o modelo de evento das grandes convenções pop parece se consolidar no país. Com a CCXP saindo de São Paulo, pela primeira vez, para vir ao Recife.

Cidade que é conhecida em outros estados por sua efervescência cultural e que, em sua multiplicidade, viu os quadrinhos em seus momentos de glória: os salões de humor, o festival que teve Will Eisner – um dos maiores mestres dos quadrinhos mundiais – como convidado. Pariu a Ragu, um dos projetos de quadrinhos autorais mais admirados do país.

Mas que parece tão alheia ainda aos quadrinhos, sem o que possamos chamar de cena, de núcleo. Se levarmos em conta que os quadrinhos nunca deixaram de ser – como em boa parte do país – um nicho restrito, podemos dizer que é o mesmo de antes. Um nicho no qual fui me inserindo aos poucos, nas buscas pelas melhores bancas, aonde estariam as lojas e, principalmente, aonde estariam aqueles que fazem a mesma busca que eu. Numa dessas, encontrei Fernando.

O músico, jornalista e leitor de HQs Fernando Athayde/Arquivo pessoal

Fernando Athayde, jornalista de 25 anos, é praticamente meu contemporâneo. Também fomos iniciados de forma semelhante ao mundo dos quadrinhos. “Meu pai me dava um gibi toda semana, no sábado, quando voltava do trabalho; e fui aprendendo a ler com eles”, conta. “Nisso, li muito Conan, muito X-Men e Homem-Aranha. Ainda guardo algumas, uns exemplares de Teia do Aranha; tinha toda aquela série, Batman – Túnel do Tempo, daí vendi e comprei de novo, pelo apego sentimental. Também ganhei vários Almanaque do Fantasma. Ele não me dava muito os infantis, mas após um tempo, passei a ler Mônica e Disney”. Como vários outros leitores de nossa geração, rendeu-se à invasão dos mangás, os quadrinhos japoneses, publicados pela Editora Conrad, no início dos anos 2000. “Na verdade, eu comprava qualquer coisa. Mas quando começou Dragon Ball, comprei inteira e tenho completo até hoje”.

Diferente do que me recordo de minhas férias passadas em Recife durante a infância, Fernando diz que suas incursões às bancas da zona sul da cidade, onde mora até hoje, eram recheadas de opções – dos super-heróis às adaptações de desenhos animados. Ele também presenciou o impacto que a consolidação da “invasão” japonesa teve no Recife, com seu viés um tanto característico da cultura pop.

“Os super-heróis viraram parte do imaginário, mas eram poucos aqueles que realmente liam os quadrinhos; nos anos 1990, por exemplo, os desenhos animados do Homem-Aranha e dos X-Men eram muito populares. Daí, o mangá e o anime vieram com tudo.
Fui pra várias edições da SuperHeroCon, quando ela ainda tinha esse nome e ainda era um evento pequeno, lá no Centro de Convenções da UFPE. Era como a Feira Japonesa do Recife Antigo, só que mais claustrofóbico”, rememora.

Cosplays na SuperHeroCon, ainda no Cecon da UFPE - Julio Jacobina/DP

Fernando acompanhou o crescimento de uma indústria que, nos últimos anos, tem se mostrado de forma mais sólida no mercado brasileiro. As diferenças, para ele, são várias. Passam da diferença na qualidade do material gráfico de hoje em dia até os espaços destinados a isso. Apesar disso, continua frequentando a boa e velha Banca Setúbal; mas nunca mais esteve na Fênix. “Eu trabalhava ali do lado, ia dia sim, dia não. Era uma espécie de ritual. Chegava lá umas 16h, ficava umas duas horas, conversando, vendo os nerds esquisitos, os engravatados e os velhos comprando Tex. Queria voltar mais lá, mas moro longe, hoje em dia é mais difícil”.

O amor pelos gibis... de quem não lê gibis

A internet é um dos fatores apontados por Fátima Lira como responsável por uma certa queda nas vendas. Ela é sócia de uma das poucas comic shops do Recife, a Fênix Geek House. Mas nada necessariamente preocupante, numa trajetória que, desde que ela e o sobrinho Felipe Lira abriram a loja, em 2004, é só de crescimento.

Quando uma conhecida me apresentou à loja, ela ainda se localizava no bairro da Jaqueira. E devo admitir que, naquele momento, eu era uma dessas pessoas que causava preocupação a Fafá (após certo tempo, a intimidade se torna inevitável, já que parte dela mesma). Com a renda escassa, minhas compras de gibis eram limitadas a promoções de lojas virtuais. Quando pude, de fato, frequentar a Fênix, ela já se encontrava em seu atual endereço, no bairro do Espinheiro – o terceiro, desde que Felipe Lira, o outro sócio e sobrinho de Fátima, decidiu abrir uma loja onde se pudesse comprar quadrinhos e artigos de RPG. Desde então, a loja oferece muito mais opções – da leitura a memorabília, passando pela renovada febre dos jogos de tabuleiro.

A Fênix também vende memorabília - Thalyta Tavares/DP

A Fênix é, realmente, um lugar onde nós podemos nos sentir em casa. Primeiro por estarmos cercados pelo crescente acervo de quadrinhos, bonecos (pode chamar de figura de ação, se quiser parecer mais adulto) e jogos. Porque podemos conversar com os atendentes e com os outros clientes, tão nerds quanto a gente. Mas principalmente por causa de Fafá. É ela quem está na loja a maior parte do tempo. Faz questão de conversar com os clientes. E não entende praticamente nada de quadrinhos.

Fafá Lira - Thalyta Tavares/DP

“Eu entrei nessa de gaiata”, diz com a voz rouca e o despojamento que lhe são tão característicos. “Tinha acabado de sair de um negócio de bijuterias. Felipe e eu sempre fomos muito chegados, desde que ele era pequeno – e principalmente depois do falecimento da mãe dele. Ele inventou essa história e, como tia coruja, fui atrás. Fui ficando e virei sócia.”
Mas se já era difícil ter tempo para ler os gibis que Felipe tentava lhe empurrar desde que ele tinha 12 anos, ser a responsável pelas questões administrativas da loja tornava a tarefa ainda mais impossível.

“Além do mais, quando os meninos me perguntavam se eu lia, eu dizia que não tinha juízo pra isso, não”, conta. “Mas me bote pra ver os filmes e as séries! Adoro X-Men! Querem me convencer a ver Deadpool, agora”.

Mais do que tudo, Fafá adora o que faz. Ela pode não conhecer a fundo as confusas e extensas cronologias de grande parte dos personagens ali presentes, mas ama o templo que construiu. Falando nisso, Fafá estava ficando louca com a comic-con – palavras dela. Mas é a mesma loucura da qual ela não abre mão em sua loja. E a grandiosidade do evento, na verdade, a deixa orgulhosa. Para ela, o Recife que recebe a CCXP é um que merece. “Eu sou bairrista. Acho o máximo termos um desenhista brasileiro – e nordestino – desenhando exclusivamente pra Marvel” (ela se refere ao paraibano Mike Deodato, o que mostra que ela já aprendeu bastante nesses treze anos). “Por mais que o povo de Fortaleza diga que não, era Recife quem tinha que abrigar esse evento. Não foi uma escolha aleatória, foi feita uma série de cálculos pra determinar qual seria a melhor cidade pra realizar o evento e a escolhida foi Recife”.

"Asgard" encravada na Guararapes

Quem compartilha da expectativa de Fafá é Orlando Oliveira – mais do que isso, ele tem certeza do sucesso que o evento vai ser. “Vou estar lá, com certeza, e vai ser um divisor de águas. Vai superar todas as expectativas dos organizadores”. Ele é proprietário da Banca Guararapes, uma das mais tradicionais do Recife. Fica na avenida de mesmo nome, no centro da cidade. Passei a frequentá-la a alguns anos, quando retomei o velho hábito (como colocado por Fernando) das aquisições mensais de gibis de super-heróis. Para tanto, o ideal era ter uma banca de confiança.

Julio Jacobina/DP

Ao contrário de Fafá, Orlando é um veterano. Começou a ler quadrinhos, como ele mesmo afirma, desde que se entende por gente. “Tenho quadrinhos na minha mão há 50 anos”.

Em trajetória similar à nossa, passou do universo Disney para os clássicos da era de ouro, como Mandrake, Tarzan e Fantasma, daí para os super-heróis e então ao faroeste – Tex parece mesmo ser a porta de entrada para os fumettis, como os italianos chamam seus quadrinhos. Hoje, Orlando é fã de Júlia – Aventuras de uma criminóloga.

Além disso, estar em meio aos jornais, às revistas, aos gibis, é a história da sua vida. Tudo começou com a banca logo em frente – a Globo. Foi aberta por seu pai, o jornalista José do Patrocínio Oliveira, por sugestão do próprio Roberto Marinho, em visita à sucursal d’O Globo, da qual Patrocínio era diretor. Orlando conta que o “Dr. Roberto” teria dito a seu pai “Abra uma banca para sua esposa, Patrocínio”, ao que ele respondeu que não entendia nada do negócio. “Eu também não entendia nada de jornal”, foi a réplica.

O negócio foi crescendo e eles acabaram adquirindo a banca logo em frente – a Guararapes. Aos poucos, ele e seu irmão foram assumindo o negócio. Porém, há cerca de um ano e meio, seu irmão desistiu do ramo. Hoje, Orlando toma conta das duas bancas. E foi a crise que o fez investir mais nos quadrinhos. “A venda de revistas semanais caiu assustadoramente, mas quadrinhos, não. A venda de quadrinhos só aumenta.” Ele diz que eu e os outros fãs respondemos por cerca de 40% do faturamento de seu negócio, atualmente. “Sempre tive uma boa venda, mas do ano passado pra cá, tem aumentado cada vez mais”.

Orlando Oliveira, proprietário da Banca Guararapes - Julio Jacobina/DP

Sempre atento às demandas dos leitores, ele tem um público fiel que transforma a banca em ponto de encontro. Tanto que às vezes, chega a fechar a banca mais tarde para acompanhar as longas conversas de seus clientes.  A Orlando, a retribuição veio em forma de apelido. A semelhança física – alto, forte, de cabelos grisalhos –, lhe valeu a alcunha de Odin, pai do poderoso Thor (tanto na mitologia nórdica quanto nos quadrinhos da Marvel). E ele a ostenta com orgulho: “há quem, literalmente, só me chame assim. Já entra na banca dizendo ‘bom dia, Pai-de-Todos’”.

Os encontros fortuitos em Asgard – como obviamente haveríamos de chamar a banca de Odin –, então, tornaram-se eventos em si. A tecnologia ajudou a agregar-nos ainda mais.

Por sugestão de alguns desses clientes, Orlando criou o Guararapes HQ, grupo no whatsapp que conta atualmente com 256 participantes. É através dele que Orlando hoje informa os lançamentos do dia, recebe pedidos de reserva e interage com seus seguidores.

Levy Andrade/Costesia

Os Recifes dos quadrinhos 

E foi justamente no Guararapes HQ que encontrei Marcelo, autêntico representante da velha guarda dos leitores de quadrinhos, parte da geração de nossos pais, que nos incutiu a perpetuação desse amor. Ele conta que foi só quando conheceu Orlando que redescobriu a sensação de estar entre outros fãs. Para ele, os encontros na banca de Odin são como a versão adulta do “clubinho de leitura” que ele tinha com os amigos quando ainda era criança. “Tinha até carteirinha”, conta, saudoso. “E ai de quem não cuidasse do quadrinho do outro, era expulso sumariamente!”

Arquivo pessoal

Ao contrário de muitos outros fãs, atraídos pela conveniência e pelos preços encontrados na internet, Marcelo afirma que só compra em lojas virtuais o que não consegue achar em “Asgard”. E só se permite escapar do gênero em um mangá aqui, um gibi de Star Wars ali – os quadrinhos de super-heróis são mesmo seus favoritos. Principalmente os do Homem-Aranha e do Super-Homem. Apesar de sentir falta de ver mais daqueles personagens clássicos que Odin também lia. Para ele, a diferença entre o seu Recife dos quadrinhos e o nosso Recife dos quadrinhos, aquele que eu e ele agora compartilhamos, é mesmo a qualidade gráfica das novas histórias e quantidade de reedições das antigas. E claro, o fato de que a cidade sediará um evento tão grandioso.

“Nunca imaginei que Recife teria uma CCXP – na verdade, não imaginava nem em São Paulo. Comparo com o show de Paul McCartney, que abalou a cidade e nada mais chegou perto daquilo” afirmou. Para ele, a emoção de estar em meio a tantas outras pessoas com interesses e vivências semelhantes acaba amplificada justamente pelo fato de que terá essa experiência acompanhado do filho Lucas – que, aliás, vai fazer cosplay. Um para cada dia do evento.

Marcelo também vê um crescimento exponencial de interessados por esse universo em particular dos super-heróis desde que os personagens começaram a migrar para os cinemas. “Tem que abrir mais o leque. O filme da Mulher-Maravilha vai ser ótimo, nesse sentido. As meninas vão ver, se identificar, se interessar. Elas têm que engrossar esse caldo.”

A nova geração dos quadrinhos também é feminina

Não é novidade pra ninguém que os quadrinhos, mais do que um meio masculino, são um meio machista. A convergência entre uma nova onda feminista e a generalização da cultura pop proporcionou a emergência de uma série de discussões, no meio, sobre gênero, objetificação feminina, representatividade e representação (parece redundância, mas o primeiro diz respeito à quantidade e o segundo ao modo como são retratados os indivíduos). Sites como o Lady’s Comics e Collant Sem Decote são boas fontes caso você queira se aproximar dessas questões. 

Adelia Schettini/Cortesia

Apesar disso, parece que essa próxima geração vive mesmo um momento diferente. Porque Nina Schettini, uma dessas meninas que está disposta a engrossar o caldo dos leitores de gibi, no alto de seus quase 12 anos, afirmou que nunca ouviu que quadrinhos são coisa de menino. “Nunca. Nem de adultos”.

Mas nisso a história se repete: paixão por gibi a gente cria em casa. O gosto de Nina pelos quadrinhos começou com a influência do padrasto, Eduardo Padrão, que lhe apresentou a Turma da Mônica – há cinco décadas formando leitores de quadrinhos – por volta dos oito anos. Pra ela, o meio é tão atraente pelo aspecto visual e é o dinamismo que ela vê nos quadrinhos de ação (seu tipo preferido de histórias, junto daquelas que apresentam personagens divertidos), que faz com que eles tenham hoje sua preferência com relação aos livros. Não que ela os tenha abandonado: Nina é leitora voraz, devora tudo que lhe cai no colo. Mas hoje, a predileção pelos quadrinhos se faz cada vez maior.

Daí pra começar a folhear os gibis do Batman que havia pela casa, foi um pulo – acabou se tornando seu super-herói favorito, até o momento. Mas Nina já se aventura fora do gênero. Seu gibi favorito até hoje foi Scott Pillgrim – que ela conheceu antes mesmo de ver sua adaptação cinematográfica e, sozinha, juntou dinheiro da mesada para comprar os três exemplares publicados no Brasil.

Quando chego em seu quarto, aliás, a primeira coisa que ela faz é me mostrar o exemplar de Repeteco, a obra mais recente do mesmo autor, Brian Lee O’Malley, publicada por aqui no final do ano passado.

Pinterest/Reprodução

Nina não é cria de banca – raramente entra em uma. Descobre os quadrinhos que lhe interessam nos passeios pela Livraria Cultura; ou toma conhecimento prévio deles pela internet e já chega na loja sabendo o que procurar. Porém, nunca leu um webcomic – muito menos um gibi baixado. Seu tom de voz, na verdade, subiu um tom com o entusiasmo em saber que havia mais um canal a ser explorado. Estou em dívida de alguns links.

Com esse mesmo entusiasmo, ela demonstrou ansiedade pela CCXP: Nina quer ver muitos quadrinhos e, claro, os cosplays. Menciono o Beco dos Artistas – o reduto da autoralidade no evento de massa. “Sim, descobri há pouco tempo que essa área existe; estou curiosa pra conhecer esses quadrinhos diferentes!”

Quadrinho made in PE

Entre os trabalhos diferentes, os visitantes da CCXP talvez venham a conhecer o pessoal da Ragu, que estará presente no Beco dos Artistas – o reduto da autoralidade no evento de massa. A Ragu, sem exagero, é o auge do quadrinho pernambucano. Foram sete edições publicadas, entre 2000 e 2007, além de projetos paralelos, como a Domínio Público (que apresentava adaptações literárias para os quadrinhos) e a Ragu Cordel. 

Nesse período, a revista experimentou uma trajetória ascendente em todos os aspectos: a qualidade gráfica e o nível das histórias era cada vez melhor; o número de páginas e colaboradores, brasileiros e estrangeiros, também aumentou uma edição após a outra; e o respeito entre os pares quadrinistas do Brasil, mais ainda. Capitaneado por João Lin e Cristiano Mascaro, a Ragu marcou Pernambuco definitivamente no mapa do quadrinho nacional. “Até hoje, quando participo de algum evento, me perguntam pela Ragu”, conta Lin. A revista pode até andar meio sumida – mas não parada. O retorno já vem sendo preparado há algum tempo e a participação na CCXP parece ser um passo nessa direção.

João Lin é autor de Ragu junto a Cristiano Mascaro - Iezu Keru/Cortesia

Lin é um artista de interesses vastos, do teatro de rua à vídeo-arte. A eles, os quadrinhos vieram se somar num momento relativamente tardio, já quando adulto. Anos mais tarde, ao conhecer Mascaro através de um amigo em comum, passaram a trocar impressões, experiências e influências. Nasceu então a vontade de eles mesmos produzirem algo que gostariam de ver nas bancas, que rompesse o marasmo pelo qual passava o quadrinho nacional.

Já com o nome fincado na história do quadrinho nacional, Lin vê no Beco dos Artistas da CCXP uma oportunidade de observar a atual produção nacional. E também de ampliar o público leitor – independente do porte do evento.

Paulo Floro/Cortesia

“O tamanho da convenção não me impressiona muito. O que me toca é essa possibilidade de atrair um público que não iria a um festival só de quadrinhos – mas que agora pode entrar em contato com esse universo.” Contudo, tendo um trabalho voltado para uma série de questões políticas e sociais – inclusive na formação de leitores – Lin faz uma ressalva.

“Me preocupa a questão do acesso ao evento. Conheço vários interessados em consumir e produzir quadrinhos que, infelizmente, não vão poder participar, por causa do custo”, afirma. “Não tenho a ideia de que ele devesse ser gratuito. Mas gostaria que essa questão fosse pensada além do acesso tão somente de uma classe mais privilegiada”, acrescenta.

Ainda assim, Lin acredita que o quadrinho independente deve sempre ocupar os espaços que surgem. “Acredito que o artista de quadrinhos que tem essa perspectiva da produção independente tem que estar nos espaços que aparecerem, inclusive como forma de se colocar, de dar visibilidade ao seu discurso”, afirma. Além dele, são mais de trinta ilustradores e quadrinistas pernambucanos se propondo a ocupar esse espaço.

De Pernambuco para o mundo

Mas hoje, nem só do movimento independente vive o quadrinho pernambucano – e não estamos falando apenas de leitores. Entre os convidados do CCXP está Thony Silas, desenhista pernambucano que já trabalhou para as duas maiores editoras do mercado norte-americano – Marvel e DC Comics. Com títulos como Batman Beyond e Daredevil: Dark Knights no currículo, é o outro lado do quadrinho pernambucano: o profissional.

Batman Beyond por Thony Silas - DC Comics/Reprodução

Quando aos 12 anos se tornou assistente do ilustrador Wamberto Nicomedes – que era praticamente seu vizinho – Thony também não era exatamente um leitor de quadrinhos. Foi no estúdio de seu primeiro mestre e principal incentivador que veio o impacto das cores extravagantes nas páginas dos gibis que se amontoavam em pilhas e mais pilhas. Incentivado por Nicomedes, passou a almejar o mercado internacional de quadrinhos. Talvez por isso nunca tenha se interessado muito pelo que poderia encontrar nas bancas. “O delay entre as revistas publicadas aqui e nos Estados Unidos era considerável. E eu queria mesmo era estudar, saber o que estava acontecendo lá, naquele momento”, conta.

 “Então, lia muito pela internet. Também ia muito pra Livraria Cultura – mesmo sem dinheiro pra comprar nada. Ficava pesquisando material importado e sonhando em ter meus trabalhos ali, também”. A empolgação do quadrinista vai além da realização da CCXP em si. É nela que ele dará o passo seguinte em sua carreira, tornando-se, além de ilustrador, criador de um universo próprio. Assim, veremos os primeiros movimentos de sua UEON Productions. O lançamento da história em quadrinhos A Noiva, que já havia sido divulgado no último mês de março, é só o primeiro de uma série, na qual veremos uma abordagem totalmente nova para a Revolução Pernambucana de 1817. 

“É uma combinação de encontros. Primeiro, pelo bicentenário da Revolução – a gente queria muito contar essa história, mostrar para o jovem daqui como Pernambuco foi plataforma de uma história tão épica quanto qualquer uma contada em Game of Thrones.”  Seu projeto quer preencher o vácuo de histórias com as quais os leitores brasileiros possam realmente se identificar – demanda que ele diz perceber já há vários anos – mas com o apelo visual necessário para chamar a atenção do público jovem dos dias de hoje. 

“Não descaracterizamos a história em si; mas, visualmente, a série apresenta uma mistura entre a estética da época vitoriana com aspectos mais modernos – algo que lembra o steampunk, mas sem a interferência tecnológica, nesse primeiro momento”.

Se o cenário de quadrinhos no Recife, em minha chegada a cidade parecia tão distante, já sinto agora uma intimidade muito maior do que eu imaginara em princípio. De casos antigos que perduram por toda a vida às novas descobertas que viram paixões, dos diversos espectros da criação e da congregação, o Recife ainda tem muito o que oferecer à nona arte. E vice-versa.

Dandara Palankof

Dandara Palankof

Repórter

Dandara é estagiária do Diario de Pernambuco desde março de 2017.

Julio Jacobina

Julio Jacobina

Fotógrafo

Thalyta Tavares

Thalyta Tavares

Fotógrafa

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