Profissão professora: quando ensinar é ser um pouco mãe

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Ensinando língua portuguesa há mais de três décadas no ensino público de Pernambuco, Rosana diz ter orgulho de gerar centenas de filhos-alunos para o mundo

 

A única gestação de Rosana Paiva, de 52 anos, foi complicada. Diagnosticada com um descolamento de placenta, ela e a filha corriam risco de vida antes do nascimento. Ao dar à luz Marcela, hoje com 23 anos, originou um milagre que se somou ao impedimento de arriscar uma nova gravidez. A segunda criança, muito desejada por ela e pelo marido, nunca pôde ser gerada. O empecilho no meio de um sonho se transformou em impulso para a professora: em cada um dos alunos aos quais ensina, a mulher que perdeu a própria mãe aos 13, vê um pouco das crias. Assim como em uma gravidez, sente e assiste a cada um deles se desenvolvendo de pequenos embriões até pessoas preparadas para conhecer o mundo. Não só como estudantes, mas como seres humanos. Ensinando língua portuguesa, Rosana ganha filhos novos todos os anos. Centenas por vez.

Sendo uma das professoras com mais tempo de dedicação à rede pública de Pernambuco, Rosana soma 12 anos de serviço na rede municipal e outros 19 entre estado e salas de aula particulares da cidade. Comemora o fato de nunca ter perdido a voz ou o fôlego para enfrentar a rotina puxada, que por mais de década durou três turnos e hoje vai das 7h às 18h. A paixão pela profissão, fruto da inspiração de tantas professoras do ensino básico, atravessou anos de vida da então menina até que ela pudesse ser oficialmente uma professora de português, aos 21. O destino a ofereceu oportunidades de trabalhar em uma multinacional, ser secretária bilíngue e até mesmo jornalista, mas a determinação apontava para o magistério. Queria ensinar. Sempre quis. Hoje, mesmo após tantos cursos, capacitações e uma aposentadoria, está realizada. Até quando o corpo aguentar, vai diariamente se locomover do bairro de Jardim São Paulo, na Zona Oeste do Recife, ao Centro para ensinar a alunos entre o 6º e 9º ano. “Penso que a educação básica também precisa de gente competente. Me sinto realizada fazendo isso. Eu quero e preciso ensinar pessoas antes do ensino superior”.

Enquanto as cadernetas manuais viravam computadores e os quadros-negros, lousas, o comportamento dos alunos também mudava, de forma positiva por um lado e desafiadora por outro (não há espaço para negatividade na rotina dela). “Hoje a gente divide nosso tempo pedagógico entre educar, orientar, polir mentes e dar a aula, mediando o conhecimento científico com o conhecimento de vida do aluno”, explica. O esforço de, além das regras gramaticais, ajudar a ensinar as regras da vida, não é para todos, mas rende bons resultados. Entre os colegas, é classificada como profissional extremamente apaixonada e competente. “Os alunos têm uma relação quase que amniótica com ela”, pontua a coordenadora pedagógica Vera Marques.

À filha de sangue, que neste ano termina o mestrado na área de educação física, deu inspiração e determinação para também ser professora. A João, Pedro, Ana, Kauê e tantos outros filhos dados pela rede pública, Rosana deu uma série de lições e exemplos que até hoje geram lembranças. De uma aluna que nos corredores a considerou “a professora mais querida” após ter pedido a ajuda dela em um caso de abuso familiar até o dia do recebimento de um convite para a formatura de outra, que, inspirada pela docente, também fez o curso de letras. Rosana elenca cada conquista, cada história e cada passo, por mais simples que seja, como uma grande e compartilhada vitória. Se orgulha, se emociona e se alegra vendo os filhos de sala de aula crescerem, mesmo que a memória demore um pouco para ligar os tantos rostos aos nomes. “É como se eu me sentisse uma pessoa completa”.

É nos milhares de alunos formados por ela que estarão alguns dos próximos professores do estado, mesmo que pouquíssimos levantem a mão quando ela pergunta quem quer ser professor quando crescer. O “bom dia”, a data e nome da disciplina anotados religiosamente na lousa desde os 21 anos de idade podem parecer apenas um detalhe, mas são símbolos de que só com paixão e determinação um bom professor desafia os obstáculos diários da profissão sem sucumbir. Para quem deseja seguir na carreira de magistério, a professora-mãe Rosana lembra que é necessário muito mais do que ensinar. “Se você entrar na profissão e perceber que não é feliz saia o quanto antes, ou todos saem perdendo. Se gosta mesmo, vá em frente, porque a educação precisa de pessoas que acreditam e estejam dispostas a fazer a diferença”.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco. Integra a equipe do CuriosaMente desde maio de 2016.

Nando Chiappetta

Nando Chiappetta

Fotógrafo

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