Profissão coveiro: o rosto de quem dá rosto aos piores momentos

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Há décadas, sepultadores assistem histórias de perda e cenas de desespero e, ainda assim, buscam, para si, a felicidade que diariamente veem se esvair

 

Quem tem a morte como rotina não pode ser feliz. Mas é que no caso dos sepultadores, a morte deixa de ser morte. Vira apenas um dos instrumentos de trabalho, tal qual pá, cal e cimento. Se não fosse assim, quem exerceria a função em momento tão delicado? Talvez não haja pessoas melhores para tratar sobre a consciência da brevidade da vida – e, até, medo dela. No maior cemitério do Recife, o Senhor Bom Jesus da Redenção, mais conhecido como Santo Amaro, há 30 deles – muitos, com várias décadas de “despedidas diárias”.

Paulo Paiva / DP
Paulo Paiva / DP

Claudemir Gomes, 49, praticamente cresceu no cemitério. Acompanhava o pai e o avô no local até começar a exercer a função de abrir covas, há 30 anos. “Fazemos aquilo que muitos não fazem. Às vezes, é muito cansativo: além de sepultamentos, tem a exumação do corpo e lavagem dos ossos que foram enterrados há mais de dois anos”, explica. Diz não sofrer preconceito da família, mas que, ao contrário do que aconteceu com ele, a profissão não deve ser herdada por nenhum dos três filhos.

Na profissão, enxerga a oportunidade de aprender a lidar com a angústia de perder um ente querido, o que acaba naturalizando as perdas. “Tenho enterrados aqui meu pai, minha mãe e meus tios. Já me acostumei. Faço aquilo que gosto. Tenho orgulho em trabalhar como coveiro e não pretendo sair da profissão”, disse o sepultador que, no histórico, tem enterros difíceis, como o do ex-governador Eduardo Campos. “Lembro que trabalhei por 18 horas, desde a abertura da cova até a hora de fechar”.

De seus 45 anos de idade, 15 foram dedicados ao cemitério de Santo Amaro. Sílvio Pessoa, dia após dia, lida com entre 18 e 20 exumações, processo de retirada de ossos dos caixões, lavagem com água e álcool e armazenamento em ossuários após o período máximo de dois anos após cada sepultamento. Só diz ficar abalado quando o momento mexe com infâncias. “Não é fácil quando envolve criança, acaba mexendo com a gente também, mas alguém precisa fazer”, lamenta, acrescentando que, para lidar com essa realidade, é preciso dom. “Não me importo em enterrar pessoas. Faz parte do ciclo natural da vida. Assim como já enterrei muita gente, um dia alguém vai ter que me enterrar também”.

Seu Severino Fernandes, 64, não chega a enterrar pessoas, mas prepara o espaço para eles. Construtor de mausoléus, trabalha com os ornamentos em pedras e cimento há quatro décadas. Todo dia, sai do município do Paulista até o cemitério à espera de clientes que desejem um local especial para o ente querido – em 2016, já foram três. “Depois de 40 anos aqui, já decorei onde estão quase todos jazigos e mausoléus. Apesar de tudo, gosto do que faço. Criei meus filhos e sustentei minha família com a renda do cemitério”, relata. Diz que sua profissão é comum, não tem nada de macabro nem envolve medos e que se diverte com os rituais conferidos no local: “Tem gente que sai de costas do cemitério ou que joga moedas na entrada principal”. Coisa de vivos.

Paulo Paiva / DP
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O Cemitério de Santo Amaro

Área total do cemitério

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Túmulos mais visitados:

Menina sem nome

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A menina do túmulo “Menina sem Nome” foi encontrada morta em 1970 na praia do Pina, Zona Sul, ela nunca foi identificada e passou a ser considerada milagrosa.

Eduardo Campos

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Ex-governador do estado de Pernambuco no período de 1 de janeiro de 2007 a 4 de abril de 2014. Vítima de um acidente aéreo em 13 de agosto de 2014.

Chico Science

chico-science Chico Science morreu em fevereiro de 1997, vítima de acidente de carro entre Recife e Olinda.

Personalidades sepultadas:

† Agamenon Sérgio de Godói Magalhães † Barão de Itamaracá

† Chico Science † Conde da Boa Vista † Conselheiro Rosa e Silva

† Eduardo Henrique Accioly Campos † Joaquim Nabuco

† Miguel Arraes de Alencar

Ellen Tavares

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Repórter

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

Peu Ricardo

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