Pioneira, mulher pernambucana ganha espaço há 2 séculos

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Historicamente reduzidas ao lar ou à cozinha, a profissionalização de mulheres em áreas tidas como nobres levou décadas e, até hoje, carece de paridade

 

Isnar de Moura foi a primeira mulher em Pernambuco a trabalhar numa redação, ambiente até então masculino. Mais que isso, em plena década de 1940, escreveu, em livro dedicado à mãe, o A Admirável mulher do Capitão Zeferino, como ela perdeu a virgindade antes do casamento, numa época em que esse seria um dos segredos mais profundos frente à ditadura da moral e dos bons costumes. De forma semelhante, várias profissionais, ainda que sem tamanha polêmica, foram pioneiras e abriram caminho, mesmo sem saber, às mulheres de gerações posteriores. Da medicina, ainda no século 19, ao ingresso na Aeronáutica, há menos de 40 anos.

“A teoria que trabalha essa divisão sexual do trabalho se fundamenta na ideia de que há atividades para qual somente os homens estão preparados e funções que são para mulheres”, explica a socióloga e professora da UFRPE, Rosário Leitão. “A princípio, muitas trabalhavam no campo e em casas de senhores de engenho, embora não fossem oficialmente reconhecidas”, lembra o professor de antropologia da UFPE, Barry Scott. Ele também menciona o comércio de rua como um cenário comum, na época, para escravas e libertas. “Havia um trabalho de venda e comércio local e elas se envolviam muito nisso”, explica.

Isnar nasceu em 1909 e formou-se professora no Colégio Santa Gertrudes, em Olinda. Balzaquiana, passou a escrever crônicas sociais, onde foi recebida com estranhamento na redação, em um tempo que não existia curso superior de jornalismo. “Todo pioneiro sofre alguma reação dos que não entendem a sua presença naquele meio. Ela foi por muitos anos, eu diria quase décadas, a única mulher que frequentava as redações de jornais no Recife. Outras iam esporadicamente, mas ela de fato trabalhava lá”, afirma o sobrinho, o jornalista Abdias de Moura, autor do livro Memórias do século 20, no qual dedica um capítulo à tia, que o acompanhou em sua primeira entrevista.

Se mulheres trabalhando eram incomuns, em empregos que exigiam qualificação elas eram ainda mais raras. A exceção era verificada apenas nas vilas operárias, na primeira metade do século 20, quando as fábricas começaram a contratar famílias inteiras, o que acabava envolvendo a mão de obra de mulheres e crianças no serviço. Mesmo quando elas, de fato, conseguiram dar início às suas carreiras, as opções eram mais limitadas, sujeitas a um ideal de feminilidade.

“Aquelas que conseguiam romper com o modelo de dona de casa tinham tendência a fazer cursos ligados à educação ou cuidado, como pedagogia ou enfermagem”, conta Rosário. “Roupa, comida e educação foram as áreas em que houve mais espaço para as mulheres começarem a trabalhar”, acrescenta Barry. “Sabemos que essas tendências não são mais tão cristalizadas, mas podemos ver que ainda há modelos de feminilidade nas carreiras ainda nos dias atuais”, avalia Rosário.

Contra as probabilidades, Isnar seguiu trabalhando até os 70 anos. Faleceu em 2013, aos 104 anos, após falência múltipla dos órgãos, deixando como herança a história de uma mulher à frente de seu tempo – e, tendo em vista a distante equidade no mercado de trabalho, provavelmente também à frente do nosso.

Interior teve primeira médica do estado

Foi na Rua Formosa, atualmente a Avenida Conde da Boa Vista, que o consultório da doutora Amélia funcionou por boa parte de sua vida. Tocoginecologista, Maria Amélia Cavalcanti de Albuquerque saiu de Sirinhaém, onde nasceu em 1854, para estudar na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, formando-se aos 38 anos. “Sabe-se que era de origem humilde, tendo nascido em um engenho e que casou-se com um primo legítimo antes de ir embora para o Recife”, relata o historiador Valdemir Lima, que elabora dissertação de mestrado sobre Sirinhaém.

Assim que se formou, Amélia voltou ao Recife e abriu seu consultório, na rua Primeiro de Março, onde permaneceu alguns anos e enfrentou a fase inicial do preconceito. “Na época, até ir a um médico para uma consulta necessária se constituía um desafio, pois a moralidade reinante não admitia ser o corpo da mulher, solteira ou casada, tocado ou vislumbrado por estranho”, relata documento elaborado pelo historiador do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco, Francisco Bonato Pereira, sobre a vida de Amélia.

Pioneira na profissão no estado, Amélia também marcou a história por ser a primeira médica evangélica do país. Trabalhando ao lado da Primeira Igreja Batista do Recife, ela converteu-se à religião em 1908, após uma vida criada no catolicismo. Faleceu em 23 de outubro de 1934.

A senhora do A Mulher

O ano era 1842 e, pela primeira vez, uma mulher colocaria um jornal na praça. O A Mulher, publicado em Olinda e Goiana era de propriedade da potiguar Nísia Floresta. “Ela era de uma família humilde, queria muito estudar, casou-se com um intelectual e eles vieram morar no Recife e depois foram para Goiana”, conta a escritora Luzilá Gonçalves, da Academia Pernambucana de Letras.

De curta duração, seu jornal durou apenas “quatro ou cinco números”, diz Luzilá, pois Nísia mudou-se para a França e não o repassou. Amiga do filósofo francês fundador do positivismo Auguste Comte, ela escreveu livros como Cintilação de uma alma e Carta da minha filha. Nísia faleceu aos 75 anos e sua terra natal, então Papari, hoje leva seu nome.

50 anos de câmera na mão

O cinema ainda era uma realidade distante dos recifenses quando Kátia Mesel ganhou uma câmera de filmes de 8mm de seu pai, em 1967. Na época, estudante de arquitetura, Kátia tinha um profundo interesse pela fotografia e viajava o mundo capturando imagens em função dessa carreira. Iniciou no audiovisual de forma experimental e afirma não ter sequer reparado que era a única mulher no meio até um livro comemorativo dos 30 anos da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-Metragistas (ABD) fazer menção do fato. “Eu sou um pouco desligada disso: gosto de batalhar para tornar as ideias realidade, mas sem obsessões políticas ou de me comparar aos outros”, considera.

É dela a primeira produtora cultural de filmes do estado, inaugurada na década de 1980. “Havia outra, mas era voltada somente para comerciais”, comenta. Trabalhou na TVPE nos anos 1990, com o projeto Pernambucanos da gema – programa semanal independente, com meia hora de duração, que financiava do próprio bolso. “Eu carreguei nas costas o programa: lucro e retorno não tinha, não houve patrocínios e a TVPE, por ser uma estatal, não vendia espaços para comerciais, então não deu mais para continuar”, recorda.

Sobre o trabalho, Kátia diz que sua parte favorita é a de produção. “O que mais gosto de fazer é produzir, botar pra rolar. Se tem um problema, a gente desmancha. Eu tenho uma facilidade muito grande de resolver as coisas, de improviso”, avalia. Apesar de consolidada como cineasta, ela lamenta a dificuldade de dar andamento aos projetos. “Isso me deixa muito angustiada porque eu ainda me sinto uma pessoa muito valiosa no sentido de ajudar nos trabalhos. A minha maior ambição é continuar a fazer cinema, seja com a técnica que for”, conclui.

A colecionadora de títulos

Pioneirismo nunca foi um problema para Margarida Cantarelli. Na verdade, coleciona títulos. Foi a primeira mulher chefe da Casa Civil da Prefeitura do Recife, ainda em 1979, a primeira a ocupar o cargo de vice-presidente da OAB em Pernambuco e, após mais de três décadas de espera, foi diplomada como a primeira (e única, até então) desembargadora do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, em 1999. “O Tribunal de Justiça de Pernambuco naquela época não admitia mulheres como magistradas. Quando eu assumi a presidência, na porta do gabinete tinha escrito gabinete do presidente, afinal, só havia homens. Então mandei trocar por gabinete da presidência e está assim até hoje”, recorda.

Apesar de ter nascido numa família de médicos, formou-se em direito por acreditar nos ideais de justiça e direitos humanos, em 1966, pela UFPE e testemunhou as mudanças no mercado de trabalho. “A sociedade mudou muito nas últimas décadas e eu acho que isso em parte é consequência do esforço da minha geração de enfrentar as dificuldades e ter uma afirmação profissional. A mensagem que eu deixo é de eterna vigilância para que nenhuma de nossas conquistas sofram qualquer retrocesso”.

Pioneira na Aeronáutica

Em 1983 a Aeronáutica recebia, no Recife, quatro mulheres oficiais, como nutricionistas e enfermeiras, de curso concluído no Rio de Janeiro. “Foi uma oportunidade única – abrimos caminho para outras mulheres ingressarem na carreira”, conta a enfermeira e tenente-coronel da reserva Maria Conceição Belo Pessoa, integrante do quarteto. “Fomos capazes de quebrar alguns paradigmas dentro de uma instituição militar e mostrar que mulheres também são capazes”, avalia. Ela conta que não havia planejado ingressar na carreira e que prestou concurso por acaso. Segundo ela, mesmo que na época já houvesse mulheres civis no Hospital da Aeronáutica, onde trabalhava no início, os homens não sabiam bem como lidar com sua turma, mas que foi bem acolhida. “Há momentos que você tem que se superar pra mostrar ser capaz, mas foi muito gratificante”.

Amiga dos pets e dos colegas veterinários

Lúcia Pires Ferreira nasceu em uma família de veterinários. Formou-se pela Universidade Federal Rural de Pernambuco, em 1953, aos 26 anos. Em uma turma pequena, formada por 16 alunos, dos quais era a única mulher, Lúcia avalia com carinho a convivência com os colegas. “Eu era como uma irmã. Eles cuidavam de mim direto”, lembra.
Ao longo de sua carreira, Lúcia atuou como professora no ciclo básico do curso da Rural e fez concurso para o Ministério da Agricultura, onde foi trabalhar na defesa animal. “Sempre trabalhei em laboratório, na parte de diagnósticos e era realmente o que eu mais gostava de fazer”, avalia.

Eduarda França

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Eduarda França é estagiária do CuriosaMente

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