Pernambucanos integram aquela que pode ser a última missão do Brasil no Haiti

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Missão brasileira no Haiti recebe contingente pernambucano no que pode ser a última fase da ação de paz no país do Caribe. Fotos e produção: Teresa Maia

No caminho, há alimentos por todos os lados. Em sacas, caixotes ou soltos. Quase não se vê rua. E os pneus de um comboio passam por entre melancias e hortaliças diversas. Há um desperdício naturalizado que quase não se nota – ao contrário do forte cheiro de urina que se mistura à decomposição decorrente desse mesmo desperdício. O avançar é lento. Bem lento.

Deslocamentos normalmente feitos em duas horas, exigem seis de persistência. Em parte, graças aos velhos carros que, uma vez quebrados, vão se amontoando nos meios-fios, à espera de um dinheiro que nunca chega, para permitir um conserto, ou de uma sanção nunca aplicada, ao menos não pela força dos homens. Estamos nas redondezas do Mercado Venezuela, em Porto Príncipe, maior e mais desenvolvida cidade haitiana, encravada no coração de um mar caribenho da América Central.

Imagine uma população um pouco maior que a do estado de Pernambuco vivendo em uma área que compreende basicamente Litoral e Zona da Mata (pouco mais de 27 mil km²). Mais que isso, que esses pouco mais de 10 milhões de habitantes tenham uma maioria de analfabetos. 52% para ser exato. Há muito, o Haiti não é conhecido por suas praias paradisíacas e muito menos se faz destino turístico de relevância no contexto latino. Ainda assim, é conhecido como La Perle des Antilles, ou, no bom português, “A pérola das Antilhas”. A face social do país, no entanto, é menos reluzente.

O Haiti foi o primeiro local a se fazer nação, na tentativa de tornar-se independente ainda em 1804, quase duas décadas antes do Brasil, por exemplo. A iniciativa foi fruto de uma revolta de escravos, numa revolução que durou quase dez anos e que pôs na liderança da república homens antes escravizados. A tal independência de direito, pouco se fez de fato. Ainda hoje, três em cada cinco haitianos vivem abaixo da linha da pobreza e amargam um baixo índice de desenvolvimento humano reduzido a 0,483, numa escala que vai de 0 a 1 e põe o país em 163° num ranking de menos de 200 nações.

As estatísticas da Organização das Nações Unidas (ONU) se fazem reais em um caminhar pela Cite Soleil, a maior favela da capital. É o reflexo mais duro de um indicador de desigualdade social que chega a 59,2 numa escala de 0 a 100 – onde 100 significaria que apenas uma pessoa detém toda a riqueza da nação. A tensão toma conta até mesmo dos agentes brasileiros que integram a missão de paz Minustah (Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti). Há lugares em que não é permitida a parada ou distância dos veículos, uma vez que a segurança não possa ser garantida. Um deles é conhecido como Hell’s Kitchen – a “Cozinha do inferno”, tal qual a alcunha popularizada no universo dos quadrinhos Marvel para identificar a vizinhança onde as regras são praticamente definidas pelo crime organizado.

O medo, ainda existente, tece relação direta com a razão que trouxe os soldados brasileiros ao local. “Em 2004, parte do país havia sido conquistado por forças rebeldes – parte dessas forças ainda está presente no país, porque 12 anos é um tempo muito curto – e o país vivia uma crise institucional muito grande, à beira de uma guerra civil, foi quando a ONU decidiu enviar tropas para estabelecer a segurança do país e criar o ambiente seguro e estável que vivemos hoje”, afirma o general Ajax Porto Pinheiro.

O trabalho, no entanto, evolui constantemente para distanciar-se das forças insurgentes no país. Um terremoto em 2010 – que vitimou 300 mil pessoas, incluindo 18 oficiais brasileiros – impôs uma vida que tinha nas ruínas seu status quo. Com estrutura e economia quebradas, o Haiti levou anos para reencontrar o crescimento. Seu PIB, hoje equivalente a R$ 48 milhões, é três vezes menos que o de Pernambuco, para uma população de mesma dimensão, habitando uma área quatro vezes menor. Foi essa realidade que o Furacão Matthew, em outubro de 2016, voltou a devastar. Na conta, mais de mil mortos. Apenas mais um número, desses naturalizados, quase já não ouvido por cidadãos de um mundo que, volta e meia, ainda pensam que o país fica na África…

Ajuda de luxo a uma vida de privações

Há um pouco de infância pelas ruas de Porto Príncipe. Ao longo do dia, é possível observar uniformes de cores gritantes, em corpos de todas as idades, caminhando com animação por entre os corredores da grande feira que se tornou o perímetro urbano da capital. Eles cumprimentam colegas de mesma idade a conversar em esquinas ou encostados em carros abandonados nos acostamentos das ruas da cidade. De um lado, a vestimenta padrão, fornecida pelo governo. Do outro, Nike, Adidas e tantas outras marcas internacionalmente conhecidas.

As roupas, grandes ironias ao estilo de vida que nenhum deles escolheria levar, são frutos de doações que chegaram em grande quantidade, de todas as partes do mundo, após as tragédias naturais que abalaram o país. A maior parte chega dos 19 países que compõem a Minustah, hoje coordenada pelo Brasil.

À noite, no entanto, as cores das vestimentas somem por completo. Mesmo na capital federal, praticamente não há energia elétrica. Alguns poucos bares e igrejas, equipados com geradores a combustíveis, são os únicos pontos iluminados e com algum sinal explícito de vida. Todo o resto do espaço depende dos poucos carros circulando no local para ser visto às custas de faróis. O cenário acaba propício ao crime, sendo roubos e estupros as grandes preocupações, num contexto em que os homicídios chegam a 26 por 100 mil habitantes ao ano, patamar bem inferior, por exemplo, ao registrado em Pernambuco.

A última missão?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Teresa Maia/DP

“Em 2016, a natureza foi violenta, com o furacão Matthew, que causou um desastre humano,  ambiental e econômico. O país terá que novamente se recompor”

Ajax Porto Pinheiro

General, coordenador da missão da ONU no Haiti

Desde 2004, 35 mil brasileiros já participaram da missão. O 25° contingente marca o retorno da Força Aérea Brasileira ao Haiti, após um ano fora da iniciativa. A maioria dos participantes faz parte do Exército e, em 2016, um em cada quatro componentes do grupo de atuação no país é de Pernambuco. A 24ª partiu do eixo Centro-Oeste, a partir de Brasília.

O prazo de conclusão da Minustah está previsto para abril de 2017. O final da parceria ainda é incerto e pode ser prorrogado, em caso de negociação entre o governo brasileiro e a ONU, mas, segundo o ministro da Defesa, Raul Jungmann, presente durante o embarque do contingente, no Recife, é possível que os esforços brasileiros sejam realocados. “Por nós, nosso ciclo deveria estar encerrado. Há 14 ou 15 outros lugares em que há necessidade da atuação brasileira. É hora de atender a outros pedidos”, disse.

“Coordenamos, há cinco anos, a única força marítima de uma missão de paz no mundo, no Líbano, e já há reconhecimento do Brasil não apenas pela ONU, considerando que já são mais de 30 missões de paz em todo o mundo”, completou.

Haitianos
por Teresa Maia

Teresa Maia

Teresa Maia

Fotorepórter

Editora de fotografia e fotógrafa especial do Diario de Pernambuco

Ed Wanderley

Ed Wanderley

Repórter e editor

Editora de fotografia e fotógrafa especial do Diario de Pernambuco

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