Papai Noel tropical: o que você não sabe sobre os Noéis dos shoppings do Grande Recife

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Longas horas, até 600 pessoas em seu colo por dia e idas ao banheiro cronometradas. O ofício do bom velhinho passa longe de moleza, mas pode render dinheiro e uma experiência sem igual

Todos sabem quem eles são. Mas pouco se sabe sobre eles. A partir do momento em que vestem a roupa de Papai Noel, deixam de ser “gente” – sem cansaço, fome, calor ou inconvenientes. Não passa de teoria. Na prática, a rotina é corrida e intensa. Nos intervalos, em média a cada quatro horas, são permitidas as idas ao banheiro e as refeições – normalmente um lanche nos camarins. Na volta, a fila parece não ter fim: centenas de crianças – e algumas dezenas de adultos – à espera da vez de sentar-se no colo ou seu lado. Nos finais de semana mais próximos do Natal as visitas chegam a 600. Poucos colos aguentariam…

O trabalho normalmente começa por indicação, meio “no susto”. Em geral, para substituir alguém doente ou até embriagado. O que começa no improviso vira profissão de final de ano. “Novembro e dezembro é uma correria, mal paro em casa, mal vejo a família”, desabafa Severino Júnior, símbolo do Natal do Shopping Recife há 6 de seus 21 anos de “carreira”. Entre as maratonas diárias, a de pedidos não é a primeira. O cansaço começa no deslocamento até o trabalho: de Camaragibe a Olinda, de Jardim São Paulo ao Cabo de Santo Agostinho… Por vezes, são seis ônibus e algo em torno de quatro horas de jornada.

Paulo Paiva/DP

É preciso fôlego, daqueles que tem mais a ver com disposição que com a idade. Diego Porfírio é maquiador profissional e já está no sexto ano como Papai Noel do Shopping Tacaruna. “Quando chega a véspera do Natal, a fila dá umas três voltas. É um monte de flash, parece que Ivete Sangalo está fazendo show de graça”, brinca.

Uma diária de Papai Noel rende entre R$ 100 e R$ 160. A carga horária varia de quatro a sete horas. Fechando a prestação de serviços em novembro, os ganhos não são inferiores a R$ 3 mil. “Com o dinheiro que ganho aqui, invisto na minha profissão. Vou a Buenos Aires fazer uma capacitação de maquiador. Quando voltar, vou procurar emprego, e ano que vem estou aqui de novo”, garante Porfírio.

O mapa dos bons velhinhos

Shopping Tacaruna

tacaruna

Diego Porfírio
Shopping Tacaruna
26 anos

Shopping Recife

recife

Severino Júnior
Shopping Recife
60 anos

Shopping Guararapes

guararapes

Felipe Enndrio
Shopping Guararapes
25 anos

Plaza Casa Forte

plaza

Eli Dias
46 anos
Plaza Casa Forte

Shopping Costa Dourada

Sem título

Luiz Carlos
Shopping Costa Dourada
65 anos

m_Natal de Brinquedos Plaza 2014 - por Fernanda Acioly (24)Eli Dias | 46 anos | Plaza Casa Forte

“Meu primeiro Papai Noel foi o Sílvio Santos”

Uma tarde no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, é a primeira lembrança que liga Eli Dias e o Papai Noel. Ainda que o “bom velhinho” da ocasião fosse o apresentador Silvio Santos. “Um irmão me levou até lá e havia um evento em que ele estava distribuindo vários carrinhos para as crianças que estavam lá. Eu tinha uns sete, oito anos e, pra mim, aquela foi a primeira lembrança que tive do que um Papai Noel representava”, lembra Dias.

A alegria que sentiu na ocasião, vê hoje nos rostos das “crianças” de 0 a 80 anos que vão até o shopping vê-lo. Eli atua como ofício, mas enxerga no Papai Noel, uma figura única. “É um personagem com uma ludicidade fora do comum. Ele tem encanto, tem magia, e mexe com a emoção de pessoas completamente distintas”, aponta.

Nos anos de vivência, identificou uma espécie de ciclo de relacionamento entre o Papai Noel e os admiradores. “A criança novinha tem uma aceitação enorme, depois vira adolescente e fica sem querer vir, quando já é adulto volta e perde essas amarras. É incrível como o é possível brincar com a fantasia das pessoas”.

 

m_Papai Noel Costa Dourada (1)Luiz Carlos | 65 anos | Shopping Costa Dourada

Vocação de filho para pai

Um problema de saúde do filho acabou introduzindo o papel de papai noel na vida de Luiz Carlos. “Perguntaram se eu queria substituir ele e eu topei”, lembra. A partir daí, começou a jornada que já dura uma década. O trenó de Luiz pousou neste ano no Shopping Costa Dourada, no Cabo de Santo Agostinho. “A distância é complicada”, relata o funcionário público da Secretaria Estadual de Saúde residente de Jardim São Paulo.

Duas horas e meia para ir e mais duas horas pra voltar. Coqueiral, Barro, Cajueiro Seco e Totó estão entre os ônibus diários. Somente de ida e volta já gasta quase as mesmas seis horas de expediente. O corre-corre, entretanto, parece ganha significado especial. “Eu sinto nos olhos das pessoas a emoção do que eu acabo representando. Não só para as crianças, mas também com os adultos”. Em casa, os dois netos se encarregam de tirar a energia que sobra do vovô Noel. “Eles fazem de mim gato e sapato”.

m_Papai Noel Shopping RecifeSeverino Júnior | 60 anos |Shopping Recife

Papai Noel “de fábrica”

“Tudo em mim é original. De cima a baixo, foi Deus que me deu. Não preciso de nada além de roupa e maquiagem”, relata orgulhoso. Na repartição pública onde trabalha há 38 anos todos acompanharam sua saga até ganhar o aspecto do bom velhinho. O trabalho começou por conta de um Papai Noel que bebeu demais. “Minha irmã tem uma escola infantil e ele chegou meio embriagado e não o deixamos fazer o papel. Eu fui lá e substitui”, conta.

De lá pra cá, são 21 anos atuando a cada Natal. Somente no Shopping, são 6 anos consecutivos. “É um trabalho muito gratificante para o meu espírito, no sentido de me realizar vendo aquelas crianças”, reflete. Para ele, a época de Natal é sagrada. O ofício toma quase todo o seu tempo. Tenta tirar férias do trabalho para se dedicar integralmente – “conciliar é difícil” – ao trabalho que aprendeu a amar. “O que eu ganho no shopping, compenso em eventos filantrópicos”.

O Papai Noel só foi introduzido na vida de Severino depois de adulto. Quando criança, com 16 irmãos, era difícil cobrar presente de natal. Aos 13, já trabalhava nas Lojas Paulista. “Tudo que meu pai conseguia era pra colocar comida dentro de casa. Antes de ficar adulto, nunca tinha visto um Papai Noel ao vivo”.

m_papai noel guararapesFelipe Enndrio | 25 anos |Shopping Guararapes

Da frustração à responsabilidade

Imagine encontrar o Papai Noel e pedir um presente de Natal na esperança de recebê-lo na época certa e não ter o resultado esperado. Essa foi a única experiência de Felipe Enndrio com o bom velhinho. “Fui com a minha mãe e pedi uma bicicleta de Natal mas só recebi o presente no Dia das Crianças do ano seguinte”, lembra e sorri: “Pelo menos recebi”.

Apesar disso, como ator, alimentou o sonho de interpretar o símbolo do Natal. “Sou ator de palco pelo estado e até por conta da minha semelhança física, sou gordinho, branquinho… sempre me disseram para fazer e eu alimentei essa vontade”.
Com o papel, veio a responsabilidade. “É muita gente que vem só pra ver ou falar com o Papai Noel. É um dever enorme”. Tudo isso com 6 ônibus por dia para se locomover. “O trabalho é muito mágico, alimenta a minha alma. Tudo acaba sendo compensado”.

m_181215pp061Diego Porfírio | 26 anos | Shopping Tacaruna

Bom ouvido, bons conselhos…

Acreditar no Papai Noel foi uma realidade de Diego até os 14 anos. Foi habituado a ouvir história desde pequeno e criou gosto pela coisa. “Acho que minha infância dura até hoje, na verdade”, brinca.
Para ele, o lado lúdico do personagem serve um pouco como “pai de todos”. Talvez por isso ele preze por um quê de psicólogo durante as conversas com as crianças. “Ela já chega até a gente querendo uma resposta positiva. Eu nunca prometo nada, tento condicionar os presentes. Digo pra ela se comportar bem, estudar, se alimentar melhor, essas coisas”, conta.
Mas as boas atitudes das crianças nem sempre são definitivas para a conquista. “Uma vez, uma criança de três anos veio e disse que queria um iPhone e o pai disse: diga que vai dar porque eu já comprei”. Em 2015, diz ter notado uma mudança de perfil entre os pedidos. IPhones e iPads têm dado lugar a skates e patins. “Pelo menos parece que as crianças estão indo mais pra rua”.

O Papai Noel que você não vê

João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é estagiário do Diario desde 2014, a maior parte do tempo para a editoria de Política, antes de fazer parte do projeto CuriosaMente, da editoria de dados do jornal. Acreditou em Papai Noel até os 6 anos. Hoje, após perder a crença, segue sendo um menino não muito bom, mas aceita presentes…

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo e videografista

Paulo Paiva é fotógrafo do Diario desde 2013. Se interessa desde futebol até as pautas de cunho social. Nunca acreditou em Papai Noel, porque sempre foi virado – mas vive ganhando presentes – na falta de trenó, se joga nos patins.

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