Os corações que pulsam nos Bonecos Gigantes

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Símbolos do carnaval viajaram desde a Europa até chegar em Pernambuco, mas só vão às ladeiras pelo esforço de anônimos

Engana-se quem pensa que um Boneco Gigante só é feito de argila, gesso e fibra de vidro. São bem mais que três metros de altura originados na Europa, recriados com um sangue puramente pernambucano. Também é gigante a força dos manipuladores que abraçam Olinda de uma vez só. Anônimos aos olhos do folião, mas funcionando como o coração de um corpo que pulsa ao som do frevo. “Se eu fosse prefeito de Olinda, queria que fosse carnaval o ano todinho”, diz Diogo Adriano, olindense de 24 anos e bonequeiro há 7 anos acostumado a lidar com o desafio de controlar braços com mais de três metros de envergadura, que mais parecem que vão bater nos foliões que acompanham o desfile.

Carregar os bonecos não é missão exclusiva aos adultos. Cauã Fábio, de apenas 12 anos, também manipula os gigantes e não gosta nem de pensar na possibilidade de não desfilar. “Não sei, não teria como. É isso que eu quero fazer pra sempre”, revela inquieto, como se a hipótese pudesse virar realidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Para carregar tanta história nos ombros, ou melhor, na cabeça, a preparação acontece durante o ano todo. Cada boneco pesa, aproximadamente, 22 quilos. Os manipuladores se revezam a cada 40 minutos no sobe e desce das ladeiras. “Cada minuto com eles no corpo faz o peso dos gigantes se multiplicar”, conta Rodrigo Soares de Oliveira, manipulador na Embaixada dos Bonecos Gigantes de Olinda há 19 anos. Para dar conta do recado, foca em uma alimentação regrada e sem extravagâncias. Corridas também fazem parte do cotidiano. É preciso ter resistência para conseguir manter o molejo de um dos principais símbolos do carnaval pernambucano. “Não vejo a hora de colocar os bonecos para cima e começar o movimento”, afirma, contando os minutos para o grande dia. Tanto tempo na área faz com que muitas histórias de carnaval lhe acompanhem. Nem sempre tudo sai como planejado. Hoje aliviado, Rodrigo relembra uma história fazendo a quase tragédia se confundir com a gargalhada de quem conseguiu superar momentos de aflição. “Um dia meu amigo estava manipulando um boneco e uma foliã puxou a mão dele. Ela fez tanta força que o boneco acoplou o corpo dele e ninguém entendia o que tinha acontecido. Achávamos que ele tinha caído na frente do boneco, mas ninguém conseguia vê-lo, só ouvíamos os gritos abafados pela carcaça. Quando fomos tirar o boneco do chão, ele estava lá”, rememora.
Igo Bione/DP
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O criador dos 1000 bonecos

 

 

 

 

 

 

 

Pai dos Bonecos Gigantes, Silvio Botelho conta com um sorriso no rosto toda a história que, com muito orgulho, faz parte. Inspirados pelos Bonecos Gigantes da Europa, eles chegaram em Pernambuco pelo sertão do estado, na cidade de Belém do São Francisco. O primeiro personagem, Zé Pereira, criado em 1919, foi confeccionado de madeira e papel machê. Em 1929, ganhou uma companheira, a boneca Vitalina. Três anos depois, foi a vez do boneco mais famoso ganhar forma: o Homem da Meia-Noite. Criado por Anacleto e Bernardino da Silva, também não poderia ficar sozinho. Logo surgiu a Mulher do Dia. Foi quando Silvio entrou em cena. Com todo encanto, as ladeiras de Olinda foram presenteadas com o toque de inocência que o carnaval precisava. Assim, foi criado o Menino da Tarde. Desde então, aquele sorriso nunca mais saiu do rosto do artista apaixonado pelo dom de criar outras vidas – ou reproduzi-las – em forma de bonecos. A alegria se mantém até ao falar das dificuldades que se confundem com o sonho de Silvio. “Eu quero é que um dia todo o Brasil tenha os Bonecos Gigantes e não só aqui no Nordeste”, diz o artista plástico que já passa dos 1000 bonecos construídos ao longo da carreira. A motivação para alcançar esse sonho é simples na mente de quem respira o carnaval. “A minha cabeça pensa 24h como um carnaval. Se eu pudesse viver ele o ano inteiro, eu fazia o ano todo na folia”. O alto astral não impede que o trabalho necessite também de comprometimento. Só sente o prazer da dura tarefa de carregar os bonecos, por exemplo, quem se empenha também antes da festa.  “Se não trabalhar na criação, não pode carregar o boneco, porque nunca vai saber o valor que ele tem”.

 

 

 

Igo Bione/DP
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Onde nascem os gigantes

 

 

 

 

 

 

 

O nascedouro dos Bonecos Gigantes de Olinda, situado no Alto da Sé, inaugurado há 33 anos, é a casa onde tudo é, de fato, pensado, criado, analisado e produzido. Os bonecos só saem de lá no dia em que estão prontos para “respirar” o ar que nos dá o fôlego de encarar a folia e os dias que virão pela frente. Afinal, há quem diga que o ano só começa quando o carnaval termina. Antes de chegarem às ruas, passam por moldes feitos na argila que servem de base para a fibra de vidro. São entre 30 e 45 dias até que os bonecos estejam prontos. O nascedouro funciona ainda como local de manutenção dos gigantes, normalmente realizada com gesso. Se bem feita, garantem uma vida útil longa, a exemplo dos 80 anos do Homem da Meia-Noite.

O corpo também ganha forma com os tecidos que o vestem. Há 10 anos no nascedouro, Iracema Melquiades, costureira olindense dos Bonecos Gigantes, se emociona só de olhar para os bonequeiros. Garante aprender todos os dias, mesmo com quem viveu nem metade do que ela já passou junto aos bonecos. “Trabalhar com boneco é bom, é gratificante porque quando ele sai na rua com aquele brilho todo, a gente logo pensa: ‘Foi eu que fiz!’ e é muito legal. Foi a profissão que eu escolhi e não consigo me imaginar fazendo outra coisa”, conta. “Aqui (no nascedouro) nós somos muito parceiros e profissionais. Para fazer as roupas, vemos vídeos, conversamos e analisamos. Cortamos o molde, desenhamos, colocamos os panos, fitas e a roupa fica simplesmente linda”, explica.

Igo Bione/DP
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De Ariano a Trump

 

 

 

 

 

 

 

Na Embaixada, situada na Rua do Bom Jesus, no Recife Antigo, a proposta é uma nova geração dos Bonecos Gigantes. Criada em 2009, possui uma exposição com 36 bonecos que podem ser visitados todos os dias. Os responsáveis, Leandro e Sineide Castro, dizem sempre procurar pessoas que têm uma trajetória importante a ser reproduzida para torná-las bonecos. O primeiro foi o escritor paraibano radicado em Pernambuco Ariano Suassuna, criador do movimento armorial. Para 2017, como em todos os anos, é preciso renovar. As apostas são os bonecos do presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, e do atual presidente do Brasil, Michel Temer, além do cantor Wesley Safadão.

Lá, também, os bonequeiros são os responsáveis por levar a folia às ruas. Rogério Barbosa, manipulador da Embaixada, é sucinto quando o assunto é carnaval. Respostas curtas e rápidas trazem a dica de quem se acostumou ao sol quente na cabeça, e a encarar os altos e baixos da vida, muitas vezes mais íngremes que a Ladeira da Misericórdia. “Tem que saber dançar. Se não souber dançar, fica meio ruim”. Pés no chão, espinha ereta e compasso marcado. Este é o segredo de quem vive preparado para o carnaval.

Isabela Verísimo

Isabela Verísimo

Repórter

Isabela Veríssimo é estagiária da editoria de Mídias Sociais do Diario de Pernambuco desde setembro de 2016. Atualmente, integra a equipe do CuriosaMente.

Igo Bione

Igo Bione

Fotógrafo

Igor Bione é fotógrafo do Diario de Pernambuco desde dezembro de 2016.

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