O seu corpo fala mais do que você pode querer demonstrar

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Linguagem corporal pode afetar tanto o seu cotidiano como suas relações pessoais e profissionais e passa longe de ser coisa de ficção

Aos 23 anos, o engenheiro de software Fernando Fernandes foi ficando craque em entrevistas de estágio e emprego. Muito nervoso desde os tempos de escola até para fazer provas, sempre transparecia o incômodo e foi perdendo uma oportunidade atrás da outra. A mudança só veio quando começou a perceber (e mudar) aquilo que estava além do currículo apresentado ou das palavras que falava. “Em uma das minhas primeiras entrevistas, notei que estava todo mundo calado, tímido. Eu ficava sempre com os braços cruzados, não olhava para a pessoa, olhava para o lado, mordendo os lábios, gaguejando e também acabava esquecendo de dizer algo importante”, lembra.
Segundo especialistas, o jovem não poderia estar mais certo. Cerca de 65% daquilo que se comunica é realizado através da linguagem não verbal, e, muitas vezes, não se tem consciência, nem se nota o que é dito. Portanto, as expressões e microexpressões faciais e corporais podem te ajudar ou te derrubar, desde uma entrevista de emprego até numa simples discussão de relacionamento.
Essa linguagem começou a ser estudada na década de 50 pelo psicólogo e pesquisador Paul Ekman, que começou a desconfiar dos pacientes liberados pelo hospital psiquiátrico em que ele trabalhava. Ele notou que os pacientes afirmavam para a equipe que estavam bem e curados da depressão, mas, dias depois da alta, se suicidavam. Essa pesquisa foi importante para que ele analisasse e descobrisse o que as pessoas, realmente, estavam sentindo e não queriam contar.
Psicólogos ou especialistas em RH são alguns dos profissionais que costumam observar a linguagem não verbal, a partir de detalhes durante análises ou entrevistas de candidatos para vagas de emprego, inclusive para identificar ou relevar sinais de nervosismo, como explica Manuel Arruda, psicólogo e mestre em psicologia organizacional. Segundo ele, analisar as reações e expressões faciais e corporais deve ser apenas um dos pontos levados em consideração nas seleções.
“Já entrevistei um engenheiro que apresentava vários comportamentos que não são considerados ‘normais’, como passar constantemente as mãos no rosto, não olhar nos olhos e ficar inquieto. Ele demonstrava um estado de estresse permanente. Com o decorrer da conversa, conquistei a confiança do candidato e descobri que ele tinha viajado de um outro estado para fazer a entrevista, passou a noite em claro e ainda esperou três horas até dar o horário marcado. Marquei uma outra entrevista com ele porque o currículo era bom. Então, se eu o tivesse eliminado sem analisar, nós dois sairíamos perdendo. Ele, o emprego; eu, um ótimo profissional”, explica Arruda.
Pequenas alterações no comportamento podem surtir efeito. “Além de mostrar meu portfólio, também me preocupava em sempre olhar nos olhos do entrevistador, não ficar com os braços cruzados e não balançar constantemente a perna. Com o tempo, você também amadurece. Agora consigo ir mais tranquilo e agir naturalmente”, afirma Fernando Fernandes. A mudança de postura parece ter dado certo. Além de conseguir a vaga, na área e na empresa que queria, ele já está trabalhando há três anos e foi contratado antes mesmo de concluir a graduação.
BrendaAlcântara/DP
Como “ler” um rosto?
Convidamos a atriz Micheli Arantes para interpretar alguns traços estudados quando o assunto é linguagem corporal.
Desprezo

Alegria

Medo

Nojo

Raiva

Surpresa

Tristeza

Não seja traído pelo seu próprio corpo

 

Para que você não precise passar por uma situação complicada como essa conversamos com a gerente de intermediação, Tereza Farias, e com a psicóloga Aldineide Pereira, ambas da Secretaria de Trabalho do Recife, para dar dicas de como utilizar a linguagem não verbal ao seu favor durante entrevistas de emprego. Eis algumas delas:

Jarbas/DP
Não mexa constantemente nas mãos ou se mexendo em excesso
Jarbas/DP
Não fique cruzando e descruzando as pernas
Jarbas/DP
Evite roer unhas durante a entrevista
Jarbas/DP
Concentre-se no que está sendo dito e aja naturalmente;
Jarbas/DP
Mantenha uma boa postura e olhe nos olhos
Jarbas/DP
Não puxe assunto para forçar intimidade com o avaliador
Jarbas/DP
Evite ficar com os braços cruzados para não passar imagem de pessoa fechada
Jarbas/DP
Não aperte compulsivamente o botão da caneta

No amor, até o silêncio”fala”. Aprenda a ouvir

 

Você pode declarar facilmente o que bem entender, mas o seu corpo pode te desmentir a qualquer momento. Nem sempre as pessoas são totalmente sinceras e isso afeta, por exemplo, relacionamentos. De acordo com especialistas, por exemplo, se um dos indivíduos não sente mais a mesma coisa e passa a demonstrar repulsa ou desprezo pelo parceiro, há problemas. “Quando uma pessoa passa a sentir repulsa ou até nojo do cheiro ou beijo da outra é sinal de que a relação não está nada bem, e essas reações podem ser identificadas pela linguagem não verbal”, explica Lívia Grizzi, psicóloga e especialista no assunto. Ou seja, a pessoa pode até dizer que ainda ama a outra, mas, inconscientemente, suas expressões mostram outra coisa.

Quando uma pessoa está mentindo, várias reações corporais a entregam: “Olhar para cima e para a direita, coçar o nariz, já que quando alguém mente, o corpo produz uma substância que causa essa coceira. Essa reação é conhecida como Efeito Pinóquio”, explica Lívia. Existem, também, outros sinais que podem ser facilmente traduzidos pelos emoticons dos três macaquinhos famosos nas redes sociais. “Passar a mão na cabeça, tampando a orelha, mexer no olho, como se tivesse escondendo, e coçar nariz, cobrindo a boca”, explica. E a mentira, normalmente, é o princípio do fim…
Jarbas/DP

Minta para mim

O tema é polêmico. Quem nunca quis saber quando alguém está mentindo? A série norte-americana Lie to me utiliza este recurso para desvendar crimes, tentando descobrir o que os suspeitos realmente pensam. “A série foi baseada na obra de Ekman. A justiça norte-americana costuma analisar a comunicação não verbal na hora de interrogar. Por exemplo, mostrar as imagens da cena do crime. Se ele demonstrar surpresa ao ver a cena, talvez não seja o culpado, mas o contexto também precisa ser analisado. Não pode ser uma coisa determinista”, afirma Lívia Grizzi.
Mayra Couto

Mayra Couto

Repórter

Mayra é estudante da Aeso – Faculdades Integradas Barros Melo. Integra a equipe de dados do jornal desde janeiro de 2016. Fala muito pelo corpo, mesmo sem querer – e é viciada em Lie to me.

Brenda Alcântara

Brenda Alcântara

Fotografa

Brenda é estagiária de fotografia do Diario. O que não fala pelo corpo, externa em monólogos!

Ricardo Fernandes

Ricardo Fernandes

Fotógrafo

Ricardo é fotógrafo do Diario. Não gosta muito de falar e comunica mais por atos (e por sua bolsa de mantimentos) do que por discurso ou pelo corpo.

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