Jaboatão dos Guararapes elegeu o primeiro prefeito comunista do Brasil

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Município já foi conhecido nacionalmente como referência da esquerda a ponto de ser chamado de “Moscouzinho”

O dia 26 de outubro de 1947 marcou a história política brasileira, mas pouco se sabe sobre isso. Nesta data, os eleitores de Jaboatão dos Guararapes escolheram Manoel Calheiros como seu vigésimo sétimo prefeito. Algo, no entanto, o diferenciava de todos os antecessores. Manoel Calheiros foi o primeiro prefeito comunista da história do Brasil. Estranhamente, porém, eleito pelo Partido Social Democrático (PSD), uma sigla reconhecidamente anticomunista. “O PSD, um partido de aristocratas, da oligarquia, donos de usina, se juntou com os comunistas, que tinham na pauta, entre outras coisas, a reforma agrária. Foi um jogo político de concessões”, explica o mestre em História pela Universidade federal Fluminense Diego Carvalho.

O contexto da escolha de Calheiros foi complexo. Naquela ocasião, após menos de dois anos de legalidade, o Partido Comunista Brasileiro (PCB), do qual era membro, teve o seu registro caçado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), durante governo de Eurico Gaspar Dutra.  Jaboatão era um município onde a sindicalismo era pulsante. Principalmente entre os ferroviários, trabalhadores da The Great Western of Brazil Railway Company. “Calheiros tinha influência sobre os ferroviários e  usou o PSD para driblar a ilegalidade do Partido Comunista do Brasil (PCB). A legenda proporcionou a ele a oportunidade, ao mesmo tempo, em que aproveitou a sua popularidade”, aponta o cientista político e professor da Universidade Federal de Pernambuco, Michel Zaidan.

A incidência de sindicalistas e comunistas no município já fazia Jaboatão ser conhecida como Moscouzinho. Com a eleição de Calheiros, a alcunha se consolidou. “Era um apelido para desqualificar, por conta da concentração de operários. De alguma forma, era uma maneira de alarmar entre a população a presença de comunistas em tempos de Guerra Fria”, acrescenta Diego Carvalho.

Carvalho aponta ainda que outros nomes foram estudados para o pleito municipal. Manoel Calheiros, contudo, era alguém que possuía requisitos para compor quadros do PSD, além de ser simpático ao PCB. “O nome dele foi escolhido porque ele era um médico respeitado, fazia atendimentos gratuitos e era um humanista. Uma pessoa popular, respeitada, mas, declaradamente, um membro do PCB”, esclarece.

 

Governabilidade

O jogo político, no entanto, é jogado diariamente. Ser eleito não é garantia de sucesso em um mandato.  Calheiros exerceu sua função ao longos dos quatro anos previstos, mas, com o recuo do PSD ao seu apoio,  perdeu governabilidade.

“Ele não era um radical, queria fazer o governo dele por vias democráticas. Articulou um jogo de partidos, mas o estado passa a ver seu mandato de forma negativa, pelo fato de ser comunista”, aponta.  O governador Barbosa Lima Sobrinho reduziu os repasses para Jaboatão, somado a isso, Calheiros perdeu a maioria na câmara municipal.

Com base na ilegalidade dos comunistas eleitos, a oposição tentou várias vezes impugnar o mandato de Calheiros. Ele, porém, “jogou o jogo” e se justificava afirmando que era candidato pelo PSD e não pelo PCB.  “Tentaram por várias vezes derrubar o mandato dele,  na tentativa de destruir a gestão. A sensação que fica é que ele pouco pode fazer enquanto prefeito”.

 

Sem recursos e apoio, a implantação de seu programa de governo ficou comprometida. Do que conseguiu tirar do papel, maior parte foi dedicado a educação. Em sua dissertação de mestrado “A Educação de Jaboatão nas mãos de um Comunista”, a pesquisadora e mestre em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco, Cely Bezerra, mostra dados que colocam Jaboatão como o segundo município que investia mair percentual do orçamento na área em todo o estado, em 1949. “Ele ampliou a aplicação de verbas para a educação e fez com que a mesma chegasse até as zonas mais distantes do município, principalmente as usinas, onde a clientela escolar sequer era atendida”, aponta Cely.

A menção atual feita a Manoel Calheiros se restringe a uma das principais policlínicas da cidade, localizada no bairro do Curado. Atestado da falta de memória do município com um participante de uma dos principais fatos políticos de Pernambuco. Autor do livro Moscouzinho, publicado em 2012, onde retrata o momento histórico em forma de registro de memórias afetivas sobre o Jaboatão comunista, o fotógrafo Gilvan Barreto é testemunha da dificuldade em se saber mais sobre a existência de Calheiros no município. “Jaboatão sabe pouco dessa história. Independente do posicionamento político, a cidade poderia capitalizar com esse fato. Seria mais uma coisa a colocar Jaboatão num patamar nacional. Jaboatão tinha uma massa ativa politicamente. era um importante reduto da esquerda no Brasil. Calheiros só conseguiu ser prefeito porque já existia uma massa pensante e politizada”.

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