Pernambucano foi pioneiro na aviação comercial no Brasil

Agrônomo de Palmares, Severiano Lins foi também o primeiro brasileiro a pilotar avião comercial por companhias europeias

 

Em 1928, um agrônomo deixava a fazenda em que trabalhava em Barreiros, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, em busca de um brevê. Havia visto um avião chamado Jahu no Recife, que embarcaria para a Europa, cruzando o Oceano Atlântico pela primeira vez naquele mesmo ano. Encantou-se instantaneamente e decidiu dedicar a vida ao sonho, sem saber que entraria para a História da aviação. Três anos depois, Severiano Lins, nascido na cidade de Palmares em 1902, se tornou o primeiro piloto brasileiro a conduzir um voo comercial no Brasil.

“Foi em 1931 e, naquela época, o avião Junkers F13 seguia com o piloto, o copiloto, que era também o mecânico, quatro passageiros e a carga, normalmente cartas”, conta o filho de Severiano Lins e também aviador Fernando Chaves Lins. A rota era a ponte aérea entre Corumbá e Cuiabá, ambas no Mato Grosso. “Eles levavam principalmente cientistas e pessoas importantes que iam estudar ou trabalhar no Pantanal. Era a ‘linha de penetração do Oeste’, operada pelo Sindicato Condor, a primeira companhia aérea comercial brasileira.”

Severiano Lins, à esquerda, e o avião utilizado no primeiro vôo. Créditos: arquivo Fernando Lins.

Em 1936, Lins passou a pilotar uma nova linha que saía do Rio de Janeiro e ia até Belém pelo litoral brasileiro, fazendo escalas no Recife. Ele experimentava um novo avião com três motores e capacidade para 17 pessoas chamado Junker, o JU-52. “O avião descia na Bacia do Pina e uma lancha da Condor o levava até o aeroporto, que ficava próximo ao Cais de Santa Rita, exatamente onde estão as duas torres gêmeas”, explica o filho do aviador.

“Fiz esse voo quando era criança, porque, apesar de nascer no Rio, meu pai só queria me batizar em Palmares, sua cidade natal. Esperou até que pudesse fazer isso. Durante o voo, fiquei em pé na cadeira por causa de uma bolacha e o aeromoço disse ao meu pai que eu estava traquinando. Terminei na cabine de comando, amarrado na cadeira e com medo do barulho que os flutuadores fizeram quando entraram em contato com o rio”, lembra Fernando Lins.

Revoadas de 1936 e Getúlio Vargas

 

Em 1936, menos de dez anos depois de ver o primeiro avião, Severiano participou de duas revoadas – uma espécie de corrida de aviões. A primeira no Rio de Janeiro e a segunda passeando entre Rio, Sâo Paulo e Belo Horizonte. Venceu as duas, ganhando o troféu Ícaro de Ouro e sendo homenageado pelo presidente Getúlio Vargas no Palácio do Catete.

Severiano Lins foi convidado para estagiar na empresa alemã Lufthansa, em 1937, onde aprendeu a pilotar de maneira “cega”, sendo guiado apenas por instrumentos. Para chegar a Berlim, fez uma viagem histórica a bordo do Graf Zeppelin, que atracava e partia do Parque do Jiquiá, Zona Oeste do Recife. Quando chegou à Europa, descobriu que o dirigível Hinderburg havia explodido, causando a morte de 36 pessoas e a era dos dirigíveis havia acabado. Voltou ao Recife de navio, depois de pilotar 2 mil km na ponte aérea entre Berlim e Roma, e continuou a trabalhar com aviação comercial para a Condor.

Numa tarde de sexta-feira, em 13 de janeiro de 1939, durante uma tempestade, Severiano Lins conduzia o avião com outras nove pessoas a bordo, uma viagem que teve início em Belém (PA) e tinha como destino o Rio de Janeiro (RJ). Ele sobrevoava Rio Bonito, já fora da rota, por conta das condições climáticas. Seguindo um mapa, foi levado a crer que a Serra do Sambé contava com árvores de, no máximo, 200 metros e, por isso, conduziu o aeronave, às cegas, por entre as nuvens. Por infortúnio, o mapa não mostrava que a serra contém locais de até 900 metros de altitude. Naquela tarde, o piloto mais experiente do Brasil bateria com o veículo, que explodiu. Fez-se, então, a lenda de Rio Bonito de que o avião estaria carregado de pedras preciosas e muitos teriam enriquecido por encontrá-las na mata, fato nunca confirmado.

Um legado criado em dez anos:

Tira brevê pela Escola Militar de Aviação

Primeiro vôo comercial, no Mato Grosso

Estagia na Lufthansa, na Alemanha

Morre em acidente na Serra do Sambé

Busto de Severiano Lins. Crédito: Roneymar Alves/Infraero.

Homenagem

Atualmente, um busto do aviador Severiano Primo da Fonseca Lins está sendo mostrado no Aeroporto Internacional dos Guararapes/Recife – Gilberto Freyre, na Imbiribeira, Zona Oeste do Recife. A obra foi realizada por Abelardo da Hora em 1981, e patrocinada por entidades como a Associação dos Pilotos de Pernambuco, o Governo do Estado, o Aero Clube de Pernambuco, o Diario de Pernambuco e Infraero.

Paulo Trigueiro

Paulo Trigueiro

Repórter

Paulo é jornalista e psicólogo. Escreve para o Diario desde 2013. Não tem medo de aviões.

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