“O luto é o preço pago pelo amor”: o que a ciência é capaz de explicar sobre a morte

O professor de medicina da UFPE Roberto José Vieira de Mello calcula ter realizado mais de 20 mil autópsias desde 1974. Passeia com naturalidade entre os cadáveres do bloco onde ensina. Estuda os órgãos autopsiados com a intenção de compreender melhor como as doenças se manifestam e identificá-las nos vivos. Bob, como é carinhosamente conhecido na universidade, é apenas um dos cientistas que encontram, na morte, a chave para compreender melhor os fenômenos ocorridos em vida.

Para os estudantes de medicina que atendem às aulas de necrópsia no Sistema de Verificação de Óbito (SVO) da Universidade Federal de Pernambuco, Bob tenta passar sua tranquilidade quanto ao assunto. “Eles ficam surpresos. Chegam pensando que vão encontrar algo terrível, porque têm uma experiência cultural negativa em relação à morte”, comenta. “Logo percebem que é algo natural. O cheiro é o mesmo de um açougue. Quando vemos um cadáver, vemos nós mesmos. A diferença é que, incrivelmente, em nós, ‘aquilo tudo’ funciona.”

Bob explica que somos um personagem criado pelo corpo biológico para proteger o nosso DNA. A ideia é que as células evoluíram ao longo do tempo e, agrupando-se em organismos, executaram a estratégia de criar uma unidade para ser mais forte e se defender. “Quando morremos, o ser biológico deixa de existir e parece que o corpo decide a hora. É impressionante. É um erro tentar impedir o processo. Mas as ideias ficam. Veja, sou neuropatologista e fui discípulo de Keisling. Ele foi aluno de outra pessoa, que foi aluna de outra, que foi aluna de Alois Alzheimer. Então, toda vez que realizo uma autópsia, Alzheimer está comigo de alguma forma, mesmo que seu corpo biológico tenha morrido há cem anos.”

Roberto José Vieira de Mello. Créditos: Paulo Trigueiro/DP/DA Press.

Essa percepção de Bob faz com que ele encare até a própria morte com tranquilidade. Quem o encontra, vê que caminha devagar. Não por problemas de locomoção, mas para desfrutar o caminho. “Tenho 67 anos. O próximo grande evento da minha vida é a morte. Eu só tenho medo da cadeira de balanço. O contato com a morte serviu para me ensinar a viver da melhor maneira, aproveitando as pequenas coisas. Tudo tem um fim”, arremata.

"Monstros"

Os povos antigos já tentavam entender a vida utilizando a morte como instrumento. Seres mitológicos gregos, por exemplo, foram inspirados em fetos mal formados e natimortos. Para eles, fetos continuavam a viver e chegavam à vida adulta, mas em outra dimensão. No Museu de Patologia do SVO, é possível ver fetos com as mal formações que permitiram que a sereia, o ciclope e a medusa fossem imaginados. Por causa dessa questão histórica, fetos com esses tipos de mal formações são classificado como “monstros”.

Entenda o que acontece com o corpo depois da morte:

À luz da fé

Morrer é uma questão crucial para todas as religiões, de acordo com o professor de Teologia da Unicap Luiz Libório. Segundo ele, é a partir da morte que se passa para o pleno. “Desde o Egito Antigo as pessoas pensavam assim. Na época, cria-se que Osíris pesava o coração de quem morria e, a depender do peso, enviava as pessoas para o céu ou para o inferno”, conta. As religiões monoteístas pregam ainda que a vida que conhecemos é apenas uma passagem. “São Paulo chegou a dizer: ‘Não se iludam. A morada plena é em Deus’.” Libório acredita que as pessoas têm medo da morte porque seguem as religiões de maneira imprecisa. “O ateu enxerga a morte tranquilamente. São niilistas, não vêem sentido na vida. Não se pede pra nascer e, depois que se morre, não há mais nada. Se os religiosos ainda seguissem a religião como antes, teriam também convicções: ficariam felizes quando os parentes morressem porque eles chegaram à completude”, comenta. “Os santos sempre falam de uma vontade imensa de desaguar em Deus.” A morte, apesar das explicações oferecidas pelas várias religiões que já estudou, continua sendo um mistério para Libório. “Já vi pessoas que diziam que queriam morrer num dia específico e morreram.”

Para quem continua a viver, o luto

Pensar que as pessoas que amamos podem deixar de existir é sempre doloroso. Das crianças que não conseguem entender o processo aos adultos que não o aceitam. Por isso, a morte é um dos grandes tabus dos tempos modernos. Psicólogos como Josélia Quintas tentam entender o processo do luto. Eles pesquisam como a morte influencia as pessoas no ambiente hospitalar, onde parentes de alguém que acabou de falecer dividem o espaço com pacientes terminais. Essa psicologia da morte ajuda os processos de lutos a serem saudáveis e já consegue fazer com que pacientes terminais elaborem a ideia do próprio fim de maneira mais serena.

“O luto é o preço pago pelo amor. Quanto mais envolvido com a pessoa que morre, maior o sofrimento”, define a professora de psicologia hospitalar da Fafire. “Mas precisa acabar e dar lugar a um sentimento de saudade saudável. É comum as pessoas não conseguirem aceitar e viverem um luto complicado. Elas pensam que não podem esquecer ou aceitar porque amam os que se foram. Então, não renunciam e a vida não segue de forma madura.” 

Segundo Josélia, o ideal  é entrar em contato com os sentimentos de pesar, e, principalmente, preencher o vazio deixado pela pessoa que foi embora. A espiritualidade também é um fator que ajuda no processo do luto. Os religiosos não vêem na morte um fim, o que diminui o sentido do luto.

Auto-retrato de Arnold Böcklin (1872).

O luto em 5 fases

Os psicólogos compreendem o luto como um processo de cinco etapas. Contudo, as fases não são bem definidas, tampouco sequenciadas, podendo haver retorno a fases passadas.

Fase 1: Negação

Quando a morte acontece e a perda parece impossível, a primeira reação é negá-la. A dor inicial é tão grande que não se consegue aceitar sua causa.

Fase 2: Raiva

“Por que isso está acontecendo comigo?” é um pensamento comum depois que a morte ocorreu. Não se aceitam os pêsames e o sentimento de revolta é predominamente.

Fase 3: Barganha

Recuperado do susto, o enlutado começa a pensar na possibilidade da ocorrer. Passa então a negociar, normalmente com Deus, por favores, prazos ou formas da morte.

Fase 4: Depressão

A morte é compreendida e um enorme vazio toma conta do enlutado. Ela entende que nunca mais verá a pessoa e mudam-se os planos que tinha com ela.

Fase 5: Aceitação

A última fase do luto é quando o vazio é preenchido por novos sentimentos e a morte é aceita com serenidade e se torna uma saudade saudável.

A morte enquanto fenômeno social

Assim como a psicologia, a antropologia também tem uma vertente que estuda o impacto da morte. Mas, em vez de tentar entender o indivíduo, pesquisa os aspectos sociais da morte. É a partir dos estudos antropológicos que é possível compreender como a sociedade avalia a mobilização em torno dos velórios. Coroas de flores, telegramas de pessoas importantes e a quantidade de presentes estão ligados ao poder do morto. A médica e doutora em antropologia pela UFPE Tânia Lago Falcão, por exemplo, vem investigando há quase 15 anos aspectos da viuvez entre as pessoas da classe média pernambucana.

A necessidade surgiu quando, já interessada em fazer um mestrado em antropologia, perdeu o marido. Analisando a forma como era tratada durante o luto, começou a perceber algo a ser estudado, num campo fértil para a pesquisa, que não estava sendo explorado. “Eu estranhava porque eu tinha autonomia da minha vida, mas as pessoas queriam mandar em mim, dizendo o que eu podia ou não fazer”, lembra. “Então, com o mestrado, pude compreender quanto a viuvez feminina é interditada. A sociedade critica a viúva que tenta se divertir, porque isso seria um sinal de desrespeito ao companheiro que faleceu. Como se quisesse substituí-lo. Não usamos mais véus e roupas pretas, mas a ideia deles continua.  A mulher pode sair, mas para fazer um curso de pintura, fazer meditação ou yoga, por exemplo. Nunca para um bar.”

A diferença entre o tratamento da sociedade para cada gênero também foi caso de estudo. “Os homens são estimulados a sair e a tomar uma cerveja. A ideia geral que percebi foi a crença de que um homem não pode estar sem uma mulher porque ele não sabe se virar sozinho. Cuidar da casa e dos filhos, nem pensar. Mas, com os estudos, também descobri que a crença da sociedade está errada. Os homens não só conseguem dar conta de tudo como fazem questão de fazer isso”, conta.

Romeu e Julieta. Pintura de Johann Heinrich Füssli.

A viuvez feminina também difere em cada classe social. De acordo com os estudos que realizou na Região Metropolitana do Recife, as mulheres de classe média são mais dependentes financeiramente dos maridos que as da classe baixa. “As viúvas de classe média trabalham, mas seus salários são utilizados para os luxos e os ‘mimos’. Quando os maridos morrem, elas perdem esse luxo e sentem a diferença. Já as mais pobres, não. Elas comumente são chefes de família. Sentem falta de uma figura masculina em casa”, relata.

“Morri por sete dias”

O neurocirurgião americano Eben Alexander III é uma espécie de link entre a ciência e a espiritualidade no estudo da morte. Ainda era um cético quando passou por uma vivência de quase-morte, durante um coma induzido por meningite. A experiência o transformou radicalmente em um pesquisador daquilo que ocorre com o espírito depois da morte. Alexander descreveu em detalhes o que viu durante o coma no livro “Uma Prova do Céu”, que passou mais de 35 semanas na lista dos best-sellers norte-americanos. Mas, para além de seu relato, o médico recomenda uma vasta bibliografia (em inglês) sobre ciência e espiritualidade, neurociência e quase-morte para quem se interessar. Confira entrevista com o autor:

Você interagiu com pessoas que já morreram? Como foi?

Sim. Eu observei muitas luzes, o que interpreto como sendo almas que viveram vidas físicas e retornaram à forma espiritual. E minha própria irmã foi minha guia pessoal através das esferas repletas de cores, sons e luzes que visitei.

Como foi a experiência que o levou a crer que a consciência independe do cérebro?

Quando estava em coma, meu cérebro foi desligado por uma meningite bacteriana gram-negativa, um modelo perfeito para a morte humana, dada sua capacidade de destruir a parte do cérebro mais responsável por nossa consciência, o neocórtex. Essa parte do cérebro, que normalmente nos ajuda a sonhar ou recuperar memórias, estava completamente desligada. Por isso, sei que a experiência que tive foi vivida fora dos limites do cérebro e do corpo. Outros clínicos examinaram meus registros médicos e concluíram que eu não seria capaz de ter alucinações, um sonho ou qualquer outro tipo de consciência originada no cérebro naquele estado de disfunção extrema. Como resultado, percebi que a consciência é a coisa que existe. O cérebro pode ser melhor descrito como um filtro para a consciência, mais que um criador de consciência.

A experiência é comum em pessoas em coma?

Muitas pessoas em coma não tiveram uma destruição tão absoluta do neocórtex. Por isso, as comunidades médica e científica prestaram tanta atenção ao meu caso. Alguns tiveram experiências de quase-morte ou jornadas para o outro lado, enquanto outros tiveram perda de memória de todo o tempo em que estiveram em coma. Contudo, eu posso dizer que todos nós vivemos nessa “uma” esfera de consciência e estamos interconectados. Experiências como a minha nos torna ciente do profundo enigma da consciência. Outra práticas, como a meditação, pode nos trazer a essa percepção.

O que você viveu na experiência de quase-morte? Quanto tempo durou?

O coma durou sete dias e a experiência de quase-morte pareceu demorada e cheia de vivências ricas, apesar de o conceito de tempo ser diferente do outro lado. Não é linear, nem medido em sua forma física. O que me convenceu que minha jornada foi real e que a consciência está fora do corpo foi a descoberta de que minha irmã foi minha guia do outro lado. Eu nunca a tinha conhecido, já que ela morreu antes de eu saber que ela existia. Minha outra irmã me enviou uma foto dela quatro meses depois que acordei do coma, o que me fez acreditar que nossas almas vivem eternamente. Tive uma sensação clara de que somos amados completamente, sem necessidade de temer nada. E que, às vezes, nossos adversários são almas aliadas que encarnaram conosco para nos ensinar as lições mais difíceis.

Morrer é mais “seguro” para você desde a experiência? Ela mudou a sua forma de viver?

Aprendi a apreciar e respeitar cada momento depois da experiência. Ao ler o trabalho de sábios e líderes espirituais pelo mundo, notei um forte padrão de conselhos. Sempre falam nos benefícios de viver o presente e não permitir que a existência seja emprestada à ansiedade ligada ao passado nem ao medo do futuro. Morte é uma transição natural, semelhante ao nascimento. Não é o fim da consciência, é uma liberação dela da prisão física. Do cérebro e do corpo. Aquele reino é o lar fundamental e a fonte para todos os seres sencientes do universo. Eu me tornei humildemente grato por tudo em minha vida, sem temer a morte e estou certo da eternidade das almas humanas e suas múltiplas vidas. Tenho um entendimento mais integrado e profundo de como lidar com dificuldades tão presentes – elas são oportunidades para o crescimento espiritual.

Você tem estudado o assunto desde o incidente. Encontrou alguém foi além de você?

Sim. Eu li milhares de relatos de quase-morte online e mais de 150 livros no assunto. Eu sou muito interessado no estudo científico da consciência e do espírito. Ao longo da história, relatos consistentes de jornadas de almas e de espírito que me deram evidências esmagadores que essas experiências são reais. É uma questão de semântica se chamo essa consciência maior de “céu”, “núcleo” ou “vida após a morte”. Para mim, as experiências são lembretes do porquê de estarmos aqui e nos ajudam a curar e a crescer.

Como é a aceitação da sua teoria?

Eu respeito que cada alma tem uma jornada individual em sua vida. Uma das qualidades e dons de nossa alma é o livre arbítrio para escolher e seguir o caminho para aprender e ensinar lições. Não espero que outros aceitem o que eu compartilhei sem questionar ou explorar o que significa ser uma alma em um corpo físico. Eu espero, ao menos, causar curiosidade nas pessoas sobre minha história e encorajá-las a abrir a mente. Espero que elas leiam as histórias de outras pessoas que tiveram experiências de quase-morte e percebam as consistências. Milhares me escreveram desde que o livro foi publicado e expressaram quanto o apreciaram porque ele validou as crenças pessoais ou as experiências que tiveram. Outros ainda questionam, e isso é direito e escolha deles.

Paulo Trigueiro

Paulo Trigueiro

Repórter

Paulo é formado em psicologia e estudante de jornalismo. Escreve para o Diario desde 2013, a maior parte do tempo para a editoria Local.

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