O livreiro da Várzea: de Chico Xavier a Foucault, o homem que ganha a vida lendo as páginas que vende

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Há quase 20 anos, o escritório de Eduardo Moura é numa rua vizinha a UFPE e seu passatempo é também o produto do próprio sustento

Entre José de Alencar, Manoel Bandeira, Michel Foucault, Eleanor H. Porter, Augusto Cury e dezenas de livros didáticos ou apostilas, Eduardo Moura repousa calmamente. Sentado numa cadeira, daquelas que normalmente acompanham a mesa do computador, já bastante desbotada, quase implorando por uma troca, ele divide espaço de uma calçada da Rua Amaro Gomes Poroca, na Várzea, Zona Oeste do Recife, com pilhas de grandes nomes da literatura. 

Bate ponto ali, de segunda a sexta, embaixo da última parada de ônibus da via, vizinha à Universidade Federal de Pernambuco. É “horário de bancário, das 9h às 17h30”, brinca o homem que guarda o mesmo lugar desde 1993 e se dedica a vender livros. Estudantes e funcionários que passam por ali certamente o notaram, ainda que não tenham comprado livros. Das janelas dos veículos ou da altura da rua, a visão se repete: um Eduardo concentrado em suas leituras.

O autor que mais gosta é Chico Xavier “mas também gosto muito daquele menino, Michel Foucault”, conta, esbanjando intimidade. Ao seu lado, uma cadeira vazia, um pote com comida para cachorro – “pra mim são como gente” – e um monte de livros. “Quase trezentos”, estima, com a certeza de quem já contou um a um. Todo dia, vai levando as torres de livros, de casa, também na Várzea, até seu escritório urbano. Dá R$ 5 para uns dois garotos que estejam no local para ajudá-lo a diminuir o número de viagens porque “a saúde já não anda essas coisas” e, então, se põe a ler, à espera do próximo cliente.

Nando Chiappetta/DP/D.A.Press
Feições tranquilas, vestido com uma camisa xadrez e uma calça surrada, um pouco coronha, e sandálias havaianas que já se adaptaram ao formato dos pés são difíceis de não perceber. Passa as mãos ríspidas pelas folhas de “O livro dos Espíritos”, de autoria de Alan Kardec, atual alvo de seus olhos cansados. O rosto, marcado por uma barba não feita há mais de uma semana vão balançando, seguindo as linhas de cada folha tão envelhecida quanto os cabelos brancos, quase amarelados, de seus 55 anos de vida.
Trabalhar como livreiro juntou o gosto e a necessidade. Eduardo não se enquadrava nos trabalhos que tinha que prestar contas a alguém. “Trabalhei em duas carpintarias e não passei uma semana, meu temperamento é muito difícil”, admite. Em média, tira entre R$ 10 e R$ 20. R$ 50 em dias bons. Por isso, a rotina, vai seguindo à risca. Mesmo em dezembro, quando o movimento já não é “essas coisas”, com as férias dos alunos de uma universidade que enxerga do canto do olho, tão próxima, mas que sempre lhe foi tão distante. Na juventude, “tinha uma fobia social muito grande” e nem tentou uma vaga na UFPE.
Foca na realidade que lhe bate à porta, marcada pela violência. “Já vi menino pequeno segurando arma na minha rua, meu muro mesmo tem várias marcas de tiros”. A intimidade que tem hoje com a leitura foi desenvolvida com esforço e “mãos vermelhas”. Aprendeu a ler um pouco mais tarde que o usual para a maioria das crianças. O “bê a bá” nunca lhe foi de fácil compreensão, ainda mais com a palmatória ao lado, à espera de erros. E não foram poucos. Até os 12 anos, a escola fracassou nas tentativas de fazer o menino quieto juntar sílabas e decifrar a própria língua. A intervenção materna veio ao seu socorro. “A minha mãe era semi-analfabeta, sertaneja da Paraíba, mas, mesmo assim, deu aula de reforço pra mim. Tirava dinheiro escondido do meu pai para comprar meus livros”, relembra. É tudo que fala sobre os pais, retratados de formas tão distintas. Ela, carinhosamente, diz ter morrido quando tinha 16 anos. Ele, resume a atuação em surras sem motivos e outras coisas que preferiu calar. “Antes de morrer, meu pai pediu perdão. Todo mundo fica bom quando vai morrer. Ele até deixou uma pensãozinha pra mim, é o que chamam de descarrego de consciência, né?”
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Um currículo de leituras, viagens e sobrevivência

Quando aprendeu a ler, já na sexta série, largou a escola, mas nunca a leitura. “Sempre gostei muito de ler sobre a história antiga, os tempos antigos. Fiz até a sexta série, mas conheço muito de filosofia, de arqueologia e antropologia”, relata. Lendo a biografia de Albert Einstein, por exemplo, soube que o físico também tinha dificuldades na infância para aprender. “Os professores também não entendiam ele”, diz o proclamado autodidata que garante ler em espanhol, “mais fácil, quase português”, e inglês. Xavier e Kardec são apenas alguns nomes do repertório. Religião sempre foi um tema que o seduziu. Começou na umbanda. No Lar de Ita, em Vasco da Gama, descobriu que em outras vidas teria sido cigano, índio, judeu e até nazista. Praticamente uma vida para cada religião a qual já aderiu. “Comecei na Umbanda, fui testemunha de Jeová, católico e também da Assembleia de Deus por um ano. Agora, já faz um tempo que frequento o espiritismo kardecista”, diz, julgando-se “ecumênico, de crença só minha”. Tais quais as tantas religiões só dele, também o são os problemas de saúde. “Quando era jovem fui diagnosticado com esquizofrenia. Tenho diabetes, sou cardíaco, tenho pressão alta e um problema na próstata também, mas não sei direito qual”, enumera o homem que não costuma ir a médicos por falta de gosto. Há três anos, viu um “doutor” pela última vez. Lhe deu dois anos de vida. Como um passeio entre alívio e angústia, sorri: “ainda tô aqui”.

Alguns vizinhos já tentaram tirá-lo do ponto em que vende livros. Relata, aliviado, que sempre aparece alguém para interceder por ele. “Isso aqui pra mim é uma terapia. É mais que uma forma de ganhar um trocado”, aponta. “Mas é isso: na vida, cada um tem uma marca de luz e de trevas. Acho que a minha é meio misturada”.

Nando Chiappetta/DP/D.A.Press

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João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é estagiário do Diario desde 2014, a maior parte do tempo para a editoria de Política, antes de fazer parte do projeto CuriosaMente, da editoria de dados do jornal. Estuda na UFPE e sempre teve curiosidade de saber a história por trás do livro de Eduardo – enfim, “leu”.

Nando Chiappetta

Nando Chiappetta

Fotógrafo

Nando Chiappetta é o fotógrafo ítalo-brasileiro do Diario. Gosta de registrar pessoas e viagens, com Eduardo Moura, encontrou ambos.

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