O Jardim São Paulo das histórias que o povo conta

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Recheado de histórias desde a formação, bairro já foi engenho até virar loteamento que recebeu visita de um presidente da República

Rodeado pela linha Centro do metrô, Avenida Recife e BR-101, o bairro de Jardim São Paulo, Zona Oeste do Recife, é um espaço de moradas simples, com edificações de três a cinco andares e uma maioria de casas. Uma praça central lembra cidades do interior, assim como as recordações dos moradores mais antigos, no local desde o início da ocupação, na década de 1940. A área virou objeto de estudo de alunos de história da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em parceria com estudantes da Escola Estadual Professor Trajano de Mendonça – a primeira do bairro – como uma forma de reconhecimento do espaço.

O que começou como o Engenho de São Paulo, unidade do grande Engenho da Várzea, virou loteamento, recebeu até um presidente da República e desenvolveu-se até tornar-se, hoje, morada de 31,5 mil habitantes. Foram meses de conversas e pesquisa, que resultaram em uma linha do tempo detalhada sobre a região. “Desenvolvemos esse projeto de história local, ou história dos bairros, em cinco escolas da Região Metropolitana. A ideia é que os alunos que serão professores no futuro aprendam a juntar pesquisa e ensino”, explica Isabel Guillen, professora da UFPE orientadoras do projeto, junto à também professora do Centro de Educação da instituição Adriana Maria Paulo da Silva. A memória dos que ainda vivem no local foi um alicerce para o trabalho.

Reprodução / História de Jardim São Paulo
O Engenho São Paulo ficava em um ponto que hoje dá espaço a um galpão de supermercado às margens da Avenida Recife

“Meu pai comprou o terreno por (o equivalente a) 35 contos de réis em 1947, cheguei aqui e só tinha a minha casa e a de um sargento na rua”, conta Almir Ferreira. Morando no mesmo local há quase sete décadas, o aposentado tinha cinco anos quando chegou ao bairro. Entre as muitas histórias na memória do senhor, está a visita de dom Helder Camara, na realização da missa em memória do padre Antônio Henrique, assassinado pela ditadura militar em 1969. “Ele foi celebrar a missa aqui e chegaram quatro carros da polícia com armas. Queriam prender o dom, mas a turma se juntou e fez um cinturão para não deixar ninguém entrar na igreja”, recorda do episódio sem registro histórico oficial. Ele garante que, para não ser capturado após a celebração, Camara teria saído pela lateral da igreja e aguardou a hora de ir embora. A hoje Matriz de São Paulo, começou como uma casa de madeira e foi levantada com auxílio de moradores, que segundo Seu Almir, chegaram a tirar tijolos de outras construções para a obra.

Outra visita ilustre marcou o Loteamento São Paulo no começo da habitação: o presidente Eurico Gaspar Dutra. Ele e a esposa, Carmela Dutra, batizaram as duas primeiras vilas do local, na época, sem nem saneamento básico. “O Jardim São Paulo foi o primeiro bairro que teve um presidente da república presente para inaugurar uma vila”, diz, de forma bairrista, Seu Almir. Dono de tantas histórias, que, segundo ele, precisam ser contadas em, no mínimo, três partes, o aposentado tentou duas vezes candidatar-se a vereador pelo bairro e chegou a criar o bloco carnavalesco Cabeça da Vaca, que integra o carnaval local desde 2005.

O barbeiro Diogo Galdino, 91, também fez morada no bairro. Apesar de ter se mudado há mais de 20 anos,  ainda faz visitas quase diárias ao espaço para ver os amigos e atender aos cinco fiéis clientes que só cortam o cabelo com ele. “Quando eu cheguei aqui isso era tudo mato, não tinha praça, nem igreja, nem condução. A gente descia em Areias e vinha a pé até aqui”, afirma. Mesmo com a idade avançada, o senhor ainda pega a linha centro do metrô para chegar ao seu destino preferido e garante que é mais fácil encontrá-lo numa praça do bairro que em casa.

Jardim São Paulo em números

km² de extensão territorial

mil habitantes

Décadas desde sua povoação como loteamento

O afeto pela região não é restrito aos mais velhos. “Por mais que a violência tenha aumentado e as pessoas tenham mais receio de ficar na rua, ainda tem muita criança brincando, algumas famílias ainda colocam cadeiras na calçada em frente às casas pra ficar conversando”, opina a estudante Ana Carla Santiago, 20, em Jardim São Paulo desde os cinco anos. Apesar disso, a estudante diz ter notado mudanças na última década e meia. “Acho que o que mais mudou de quando eu vim para cá em 2001 até hoje foi o surgimento de alguns condomínios fechados construídos em áreas que podiam ter outras coisas”, diz.

Apesar da certeza de que o bairro não é o mesmo da época da sua fundação, é possível encontrar a presença do subúrbio nos senhores jogando dominó na praça ou nas relações de vizinhos que ainda se conhecem pelo nome. O espaço arborizado e com raras construções altas e barulhentas oferece tranquilidade no meio do caos da cidade, tranquilidade esta que é rapidamente despertada pelo barulho constante dos aviões, que fazem sombra no chão e vão acostumando o ouvido dos moradores e só soam estranhos aos que estão de passagem.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco. É atraída por histórias do povo, daquelas que se busca em cada vila ou comunidade e com cujos fragmentos se constrói a História.

Peu Ricardo

Peu Ricardo

Fotógrafo

Peu integra a equipe de fotógrafos do Diario de Pernambuco.

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