No intervalo da construção, o pastor do culto particular

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Evangélico desde 2013, Benival aproveita o horário do almoço para fazer um culto quase solitário

 

Benival Souza comeu o almoço com pressa e já são 12h20. Além de alimentado, está limpo e pronto para orar. Armador de uma empresa de construção civil, atualmente dedica-se à instalação das estruturas de ferro que sustentarão mais um prédio em Casa Amarela, das 7h às 17h. A produção só é paralisada entre as 12h e as 13h. Para a maior parte dos 46 funcionários da obra, este é o horário de almoço e do cochilo vespertino. É quando o silêncio do maquinário é rasgado pelo canto, choro e louvor de Benival, num culto evangélico celebrado praticamente para si.

Integrante da Assembleia de Deus desde 2013, o homem de 44 anos encontra um espaço coberto no segundo piso vazado na construção da Rua Paula Batista. Arrasta uma empoeirada mesa de madeira, em que rapidamente acomoda celular e estojo dos óculos, que ajudam a focar os olhos na Bíblia aleatoriamente aberta para a reflexão do dia. “Tudo é de Jesus. Ele não chegou em Jerusalém como um Rei; como os judeus, montados em seus cavalos e acompanhados de seu grande exército. Chegou montado num jumentinho. Muita gente não acreditou no Senhor Jesus, porque veio humilde, simples, mas dono de tudo que há. Aleluia!”, louva, dedo em riste.

O hábito de realizar os “cultos” no horário do almoço, aprendeu com um colega de trabalho. “Um dia me deu uma coisa ruim, o couro da cabeça arrepiando. Veio o desejo de ler a Bíblia. Eu disse: ‘se o Senhor tirar essa agonia, enquanto eu viver nessa Terra não bebo mais’”. Começou, então, a professar o protestantismo na terra natal. “Quando contei aos irmãos daqui que me tornei crente, foi uma festa. Agora, onde chego, peço ao engenheiro, ao encarregado, para começar a obra do Senhor”, completa Benival.

Empunha a Bíblia com a força de quem levanta uma enxada na tentativa de colher novos frutos. É ladeado por um colega ou outro, em disposição semelhante, na maioria dos dias. Mais próximo à mesa, o eletricista Adeíldo Ferreira entoa os cantos propostos e interage com a pregação, com gritos de “oh, glória” e “aleluia”. “Apesar de ser simplesmente duas pessoas, o mais importante é sentir a presença de Deus quando ele mexe com a palavra. Temos um dia super carregado de trabalho. À noite, não temos tempo de estarmos nos templos. Esse culto nos dá força. Não somos homens letrados, mas transmitimos o que Deus coloca em nossos corações”, comenta Adeildo.

Sobre uma tábua de madeira, um operário cochila, espiando o culto vez por outra. O armador José Amaro da Silva senta-se sobre alguns canos de ferro para assistir ao ritual, um pouco mais distante. Pouco encara o orador. Emociona-se e volta os olhos ao capacete entre as mãos.

“Todo dia acompanho. Sou católico, mas gosto, porque ele prega muito bem. Para mim, é uma boa: não bebo, não fumo, pretendo ser evangélico”, garante.

À espera de Israel

Nascido em Lagoa do Carro, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, Benival chegou ao Recife, em 1990, movido pelo desejo de deixar o trabalho na roça. “Ouvia muito desmantelo na rádio, morte, assassinato. Ficava assustado. Depois fui acostumando ao Recife. Já teve noite que dormi na rua, feito ‘tetéu’, porque gostava de beber”, lembra. Acostumado a trabalhar no corte de cana e no plantio de feijão e mandioca desde os 7 anos, ganhou da cidade a oportunidade de moldá-la. “Comecei como servente, pedreiro, eletricista, encanador… Pensava que nunca poderia comprar nada, mas Deus tirou essa negatividade de mim. Apareceu o emprego na empreiteira”, conta.

Com os estudos completos até a quarta série, Benival surpreende-se ao saber que suas palavras despertaram interesse em alguns moradores de prédios vizinhos a uma das obras em que já realizou seu culto. “O rapaz falou que tinha uma moça tirando foto minha. Por mim, tudo bem. Sou feliz pelo que faço, tenho e sou”, diz ele, que, com o salário de armador, sustenta a esposa e dois dos três filhos. A família, aliás, vê apenas nos finais de semana, quando vai a Lagoa do Carro. “Nos outros dias, durmo numa casinha, com mais 12 trabalhadores”, conta.

Apesar do desconforto, Benival não se queixa. “Antes eu tinha alegria passageira, ora ficava na folia, ora tava triste com falta de dinheiro, ressaca. Hoje não. Minha alegria é na alma, porque Deus me deu”, prega aos colegas, entre uma consulta e outra ao relógio. Os cultos não costumam passar dos 20 minutos. “A hora tá chegada, irmão, e não dá mais para se expressar. Faltam cinco minutos, né? Vamos entregar o trabalho ao Senhor”, encerra o armador. “Quando Jesus voltar, aparecerá nas nuvens, com grande glória. O povo vai dizer: ‘vencemos, conquistamos Israel’”, despede-se, pronto para escalar o edifício inacabado até o alto, de onde é possível ver a cidade que ajuda a construir.

Marília Parente

Marília Parente

Repórter

Paulo Paiva

Paulo Paiva

Fotógrafo

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