Moda do sereísmo faz Pernambuco ganhar até fábrica de caudas

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Onda ganha força com produtos voltados para quem deseja visual inspirado em sereias e abre espaço também a quem usa ser mítico para chamar a atenção

De filmes a acessórios, que incluem brincos, maquiagem e até shampoos de colorações extravagantes, o movimento do sereísmo, que inspira a identificação com sereias, ganha novo significados em cidades litorâneas. Tanto que a Região Metropolitana do Recife serve de sede para, acredite, uma fábrica de caudas, para quem quer levar a sério a vestimenta inspirada no ser mitológico.

Para a criadora, Joseany de Oliveira, 31, a própria fábrica de caudas de sereia, no município do Paulista é a realização de um sonho. Apaixonada por todos os elementos envolvendo a figura mitológica, o sucesso das caudas de Joseany cresceu em até dez vezes após a popularização do sereísmo, mas, para ela, nem todo mundo entende que essa paixão não é apenas brincadeira de criança.

Essa relação híbrida da sereia também é observada nas belas artes. Para o professor de teatro da UFPE Marcondes Lima, essa relação com a criatura mitológica está ligada a um lado primitivo do ser humano. “Depois de algumas versões românticas açucararem essa figura, temida por muitos, ela se tornou mais palatável e até angelical, vinculando-se a um imaginário fantástico e infantil – A Pequena Sereia, de Andersen e da Disney, são exemplos disso”, pontua, acrescentando que, o movimento contempla a necessidade quase instintiva de representação dos humanos para “transformar-se” em outros seres (bichos, humanos ou fantásticos).

“Coloco o sereísmo nesse lugar da ludicidade desse tipo de jogo que é bem teatral e que, num mundo tão tenebroso e em crise como esse, torna-se uma válvula de escape para a imaginação, o fantasioso e o lírico. É uma forma lúdica de negação ou no mínimo de afastamento do ser humano”, completa.

O processo de criação das caudas é demorado, trabalhoso e caro. Sozinha, ela mede, monta, costura e pinta cada cauda de acordo com a demanda da cliente. A nadadeira da cauda é feita com um monofin, ponta da cauda que é o mais clássico no visual de sereias, enquanto o tecido que a cobre é de neoprene, o que possibilita que a causa seja realmente usada dentro d’água e sirva para nadar. As pinturas são todas feitas a mão e levam cerca de dez dias para ficarem prontas.

O trabalho não sai barato e as caudas podem ser adquiridas a preços que variam de R$ 50 a R$ 250. Com a nadadeira, chega a R$ 500. Isso porque matérias-primas como o monofin, importado, encarecem o produto. O investimento pesa no bolso de quem procura o produto final, o que eleva o interesse mais por pedidos de aluguéis ou empréstimos. “Quando eu comecei no sereismo, as pessoas não entendiam nada. Sofria preconceito e era tachada de louca, mas depois que virou moda todas essas pessoas têm me procurado. Infelizmente, 98% das pessoas têm apenas o propósito de chamar a atenção”, conta. “Depois que apareceu na televisão, todo mundo resolveu que queria fazer sessão de fotos como sereia, mas elas não queriam exatamente ter a cauda, então ficavam pechinchando e pedindo para alugar”.

Andrea Caselli/Arquivo Pessoal

Para pessoas como Andréa Caselli, historiadora que atualmente está fazendo um estudo sobre sereias nas narrativas mitológicas e contos de fadas, a questão vai muito além de um prazer passageiro. Segundo ela, poder ter a própria cauda de sereia foi, além de uma realização pessoal, uma questão de melhora de saúde. “Na maioria das vezes, as meninas praticam o sereismo para elevar a autoestima, por causa do encanto com a beleza e o fabuloso, mas eu tenho uma limitação na coluna, por causa de um sinal de carne que tive que remover em diversas cirurgias, e isso me impossibilita de realizar exercícios abdominais fora da água. Com o nado do sereísmo, que é tradicionalmente o estilo ‘golfinho’, consigo fazer exercício sem me prejudicar, pois a água auxilia esse movimento, então vai além de uma questão estética”.

Enquanto pesquisadora da área, Andrea consegue fazer uma relação mais aprofundada a respeito do fascínio natural das pessoas quanto à lenda das sereias. “A água é fonte de toda vida e de toda morte. A mulher é a geradora da vida, que dá à luz e nutre. A sereia representa o poder feminino da água, perigoso e sedutor, porque a tudo pode transformar. O arquétipo da sereia oferece uma metafísica que nos aproxima da natureza e nos traz o devaneio da água”, explica.

Para Joseany, os momentos de sereia realmente proporcionam o afastamento da terra e aproximação com uma versão mística interna. “Me sinto como parte da água, como se estivesse no lugar que deveria esta. Me sinto em casa”, explica. Não é à toa que Joseany tem tanto carinho na hora de criar as caudas, cada uma com desenho e personalidade próprios, inspirados em imagens da água e de peixes.

A sereia brasileira

Com traços indígenas e longos cabelos pretos, Iara é a sereia que domina o folclore brasileiro. Originária do Rio Amazonas, o nome Iara significa, em tupi, “aquela que mora na água”. Segundo a lenda, vários pescadores morreram afogados ao serem encantados pela beleza de Iara, que por vezes assumia a forma humana para buscar por paixões em terra.

A sereia mitológica

As lendas das sereias são universais, criadas para personificar perigos do mar. Os povos que dependiam do mar para se alimentar sempre relatavam histórias de figuras femininas que enfeitiçavam os homens. A mitologia grega também conta a história das sirenas, mulheres-pássaros, filhas do deus Aqueloo, que causavam naufrágios com seu canto doce.

A sereia da novela

Indiferente ao movimento do Sereísmo, a personagem Ritinha, personagem da novela A Força do Querer, da Rede Globo, acredita ser filha do boto-cor-de-rosa e, por isso, tem alma de sereia. Ela é uma moça de alma livre que age sem pensar nas consequências nem nos sentimentos dos outros, sendo também vilã. Por conta de sua beleza, Ritinha trabalha como sereia profissional em um aquário.

A sereia sombria

No conto de Hans Christian Andersen, a poção da Bruxa do Mar que a Pequena Sereia toma para ter pernas faz seus pés sangrarem terrivelmente e ela só conseguiria ter uma alma ao conseguir o beijo do amor verdadeiro. Porém, o príncipe se casa com outra mulher e, para quebrar o feitiço, a Pequena Sereia teria que matá-lo e despejar sangue sobre os pés. Incapaz de seguir as ordens da bruxa, ela comete suicídio.

A sereia infantil

Adaptada do conto de Andersen, a história da Disney de A Pequena Sereia perdeu os detalhes sombrios e ganhou uma versão romantizada para crianças. Uma jovem sereia de cabelos ruivos é fascinada com as histórias da superfície e, um dia, se apaixona por um príncipe que quase se afogou. A poção que ela toma para ter pernas, nessa versão, não é mutiladora e Ariel e o príncipe têm um final feliz.

Imaginação e extravagância no mercado

O mercado vê a ascensão do sereísmo em todo o país e isso afeta diretamente o consumo. Nos acessórios, cabelos, roupas e maquiagem, a figura da sereia tornou-se inspiração para criação de novas linhas específicas para quem quer ser sereia. É o caso da marca francesa L’Óreal com o lançamento da linha para cabelos Colorista, de tinturas para o cabelo em tons da figura mitológica, da blogueira Bruna Tavares que anunciou uma linha exclusiva de produtos à la sereia (inclusive a patente do nome “sereísmo” pertence a ela) e a norte-americana Lime Crime, que criou uma coleção de produtos para fãs de sereias.

“Não sei se esse modismo vinga em larga escala. Talvez em forma mais dissolvida e pulverizada: cabelo azul, roupas com escamas, acessórios que remetam ao universo aquático e marítimo. Tenho a impressão que os traços do sereísmo ficarão impressos como elementos de estilo e não durarão muito como estilo de vida”, explica o professor Marcondes. Já Andrea Caselli enxerga o momento como forma de disseminação da prática. “Essa moda melhorou o mercado de produtos para a atividade que para nós, sereias, é considerada um esporte, pois existem encontros sociais e competições em todo o mundo, além de proporcionar benefícios físicos e emocionais para as praticantes”.

Paula Paixão

Paula Paixão

Repórter

Paula é estudante de jornalismo da Unicap. É estagiária do Diario de Pernambuco desde janeiro de 2017, no projeto de dados do jornal, o CuriosaMente. Não tem cauda de sereia, mas não se intimidaria a testar uma…

Gabriel Melo

Gabriel Melo

Fotógrafo

Gabriel é estudante e estagiário do Diario de Pernambuco, a partir de 2017. Já fotografa de bebê chamado Ariel a mulher que gostaria de ser Ariel, com o mesmo empenho a cada pauta.

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