Sucesso nas ruas e nas redes, Michael Jackson das coxinhas troca quitutes por carroças de reciclagem

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Nielson Nascimento acumula contatos dos tempos que se fantasiava do rei do pop e rodava o Recife vendendo seus famosos quitutes, mas conquistou carro e estabilidade ao investir em materiais recicláveis

 

Alguns passageiros se assustam quando Nielson Nascimento chega. De colete cintilante, chapéu e óculos escuros, o rapaz avisa: “Chegou o Uber do Michael Jackson”. Ecoa o grito que deixou o cantor norte-americano famoso e convida o cliente para uma balada até o destino. Prefere rodar de madrugada, mas para ele não tem tempo ruim. Tempo, na verdade, é coisa escassa no seu cotidiano. Aos 27 anos, dirige, é mecânico de refrigeração, animador de festas e sócio de cooperativa de reciclagem.

A rua estreita onde mora dá direto para o mar. Lá, assim como em todo o bairro, todo mundo conhece seu personagem. O rapaz até parece político: não dá dez passos sem ser parado por alguém, dar o “gritinho do Michael”, apertar duas, três, quatro mãos.

A fama sempre foi grande, mas aumentou quando o pai perdeu o emprego e ele começou a vender coxinhas na praia do Buraco da Velha, a 50 metros da porta de casa. “Até tentei vender ‘normal’, mas não dava sucesso, aí pensei em usar uma fantasia de Michael Jackson que tinha feito no Carnaval. Vendia tudo rapidinho, mais de 100 por dia”, lembra o rapaz que administra cinco perfis nas redes sociais, dois deles lotados, e divulga seus serviços.

Hoje, não precisa mais usar as seis peças de roupa sob o sol do meio-dia para vender quitutes, pois conseguiu comprar um carro, que usa para rodar com o aplicativo, e descobriu contatos diretos de compradores dos materiais coletados nas ruas, quase 20 toneladas por mês. Menos trabalho, mais prazer e mais remuneração, que supera os R$ 2 mil. “E também a pessoa anda menos coletando recicláveis do que vendendo coxinha”, brinca.

Só quem é da Brasília e testemunha o zelo constante do rapaz com o ônix azul de quatro portas sabe qual foi o primeiro carro da família. Era bem mais pesado de dirigir, tinha três rodas e não precisava de gasolina para funcionar. Os motores eram pernas e braços, revezados dia e noite pelos pais e dois filhos com o único intuito de catar recicláveis. Foi comprado como todos os bens dos Nascimento após seu Jorge perder o emprego: de forma suada. “Fui juntando garrafa, reciclável, vendendo até conseguir comprar o nosso primeiro carrinho. Foi em duas parcelas”, afirma a mãe, Maria Tereza.

Gilson Silva é um dos 20 de catadores de recicláveis que contribui diariamente na cooperativa de Brasília Teimosa. Só com materiais do bairro, já chegou a tirar R$ 100 por vez

Dentro do largo terreno onde hoje fica a cooperativa da família, a todo momento alguém chega para deixar sucata. “Eu já tirei R$ 100 em um dia”, conta o catador Gilson da Silva, um dos que divide a coleta com Nielson. O Jackson, além de Uber e catador, ainda faz bicos consertando condicionadores de ar. A Deus, atribui a energia necessária para ser um faz-tudo 24 horas por dia, ir dormir às cinco da manhã, após pegar o último cliente, e acordar às nove para consertar os aparelhos. Além da fé, sua motivação oculta parece estar na felicidade dos pais em falar para quem quiser ouvir que “Minha filha trabalha como atendente de um restaurante. Meus filhos dirigem Uber. Aqui, todo dia chegam mais de vinte abençoados para deixar sucata. Todo mundo vai se ajudando”.

Toneladas em média são recicladas por mês só na cooperativa

é o número médio de catadores que passam pelo local semanalmente

também era o número de coxinhas vendidas diariamente no Buraco da Velha

Os frutos colhidos pela simpatia e pelo bom humor, herdados da mãe analfabeta e do pai catador, não permitem que ele pare, só o obrigam a querer cada vez mais, sempre com o pé no chão. Hoje, a meta de vida dele é conseguir dinheiro suficiente para trocar o pequeno caminhão azul que ajuda a cooperativa a fazer entregas. O veículo, comprado de segunda mão, foi consumido pela maresia e só anda a trancos e barrancos. Situação incômoda, mas não assustadora. Já se acostumou: nada é impossível para os Nascimento, nem o moonwalk

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Lorena é jornalista formada pela Universidade Federal de Pernambuco. Ela integra a equipe do CuriosaMente desde maio de 2016.

Marlon Diego

Marlon Diego

Fotógrafo

Marlon integra a equipe de fotografia do Diario de Pernambuco desde setembro de 2016.

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