A ladeira do Exu onde carros em ponto morto sobem de ré

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Declive que liga Exu (PE) ao Crato (CE) tem característica peculiar: a água e até carros em ponto morto parecem subir sozinhos

 

Se algum dia for ao Exu, município do Sertão pernambucano, localizado a 688 km do Recife, não se engane com sua aparência: o lugar tem vocação para grandeza e uma atração inusitada. Uma ladeira na Rodovia Asa Branca, que liga Pernambuco ao Ceará, intriga a população por “arrastar” os carros para cima, aparentemente, contrariando a lei da gravidade. Bola rola sozinha, ladeira acima e a água da chuva escala a estrada sem dificuldades.

O guia turístico do Parque Aza Branca Jorge Miguel, já levou muitos turistas curiosos à via. “Hoje em dia digo que não posso, que estou trabalhando. Uma vez, o motorista saiu do carro e o ‘danado’ desceu sozinho mesmo. Ficou todo mundo impressionado, o velocímetro não saiu do canto, é bem devagarzinho”, lembra.

O movimento de veículos oriundos de vários estados do Nordeste parando para testar a tal “ladeira que não desce” é acompanhado pelo agricultor José Agnaldo Alencar, morador da Fazenda Ouro Branco, próxima ao ilustre trecho misterioso. “É esquisito. Até a água da chuva, ao invés descer, escorre pra cima”, estranha.

E haja boato para explicar a esquisitice. À sua maneira, cada um formula uma teoria. “Acho que é uma má formação geológica. Não tenho outra coisa a dizer. Já ouvi falar que é ilusão de ótica, mas não é. Porque se você coloca um carro pra descer e ele sobe não tem como ser ilusão nenhuma”, asserta José. Jorge arrisca: “é alguma gravidade que puxa. Assombração, o povo não acha que é, mas que naquela serra tem malassombro, tem”.

A Terra do Rei do Baião

No Exu, nasceram Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e Bárbara de Alencar, a pouco conhecida revolucionária pernambucana, que levou a insurreição de 1817 do estado para o Ceará e pode ser considerada a primeira presa política do país. A região também possui alto potencial turístico graças às belezas naturais da Chapada do Araripe e à divisa com o Cariri cearense.

Os mais céticos vão a campo na tentativa de desvendar o mistério. O agente de saúde Francisco Bacurau, conhecido como Tico, já fez várias experiências na rodovia. “O pessoal fica inventando conversa, diz que é por causa de um vácuo na Serra da Gameleira. Um dia, resolvi, a 60 km/h, mudar a marcha do carro para ponto morto. A velocidade vai caindo para 50, 40… até parar. Quando para, o carro começa a dar ré. Quem está lá aposta a vida que o veículo anda só”, comenta. Impaciente, Tico garante que outras experiências virão. “Qualquer dia, vou jogar bem muita água pra ver para onde vai. Eu sei lá o que é aquilo, deve ser um vulcão pro lado do Exu”, brinca.

Outros já haviam postado registros na internet:

Já fiz a experiência três vezes. Na primeira, estava com meu irmão e meu pai. Temos um sítio perto da estrada. Já consegui subir mais de sessenta metros essa ladeira.

Saulo Bacurau

Empresário

O professor de Geografia da Universidade Regional do Cariri (URCA) João Ludgero dá fim ao enigma. A verdade é que a descida exuense rumo ao Ceará não é uma descida. “É uma subida na encosta da serra. O que acontece é um fenômeno físico de ilusão de ótica, causado pelos paredões da chapada. O conjunto dessas paisagens engana a visão, criando uma falsa imagem: as pessoas veem um carro subindo de ré, quando ele está apenas descendo”, explica. O fenômeno acontece em outras regiões do país, a exemplo do trecho de BR-226, entre Florânia e Jucurutu, no Rio Grande do Norte, e da Ladeira do Amedoim, em São Tomé das Letras, Minas Gerais. “Isso ocorre em área íngremes cercadas por acidentes geográficos. A convivência de elementos distintos causa essa confusão”, completa.

Marília Parente

Marília Parente

Repórter

Marília é estudante de jornalismo da UFPE. Escreve para o Diario desde 2014. É filha do Exu, apaixonada pelo Sertão e já fez o teste da ladeira “mágica”: “É bem perturbador”. As fotos dessa reportagem são do amigo Lello Santana.

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