Homem tenta dar volta à América do Sul de bicicleta

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Após sete meses pedalando, Lucas Bernardo faz parada no Recife para festas de final de ano antes de continuar viagem que já percorreu 7 mil km

 

Quatro grandes bolsas organizadas com uma barraca, água, um mapa e a bandeira do Brasil. Os 57 kg de bagagem são cuidadosamente equilibrados em uma bicicleta. É a acrobacia diária de Lucas Bernardo, de 39 anos. Em um dia qualquer de abril de 2016, o morador da cidade de Olímpia, interior de São Paulo, teve um questionamento: “por que só quem tem dinheiro pode conhecer os lugares bonitos?”. No mês seguinte, partia em uma viagem ao redor da América do Sul. Com apenas R$ 1 mil, sem roteiro planejado e sem prazos. No final de dezembro, chegou ao Recife, onde passou as festas de final de ano.

Para ele, o desafio pareceu simples: mesmo a contragosto da família, deixou de lado o trabalho de mecânico; com ajuda de amigos, adaptou uma bicicleta para suportar o peso das malas e saiu de casa. Era 13 de maio de 2016 quando partiu. Destino incerto. Mais de 7 mil km e sete meses depois, passa pelo Recife. O caminho é solitário, mas as paradas, cheias de história. No Recife, onde passou o Natal, contou com a solidariedade de uma amiga da internet, que o cedeu abrigo e emprestou roupas.

Os mil quilômetros mensais poderiam ser o dobro, talvez o triplo, mas a marca foi moldada pelas experiências adquiridas fora da estrada – que, por vontade ou necessidade, transformaram a vida dele. Os obstáculos foram inúmeros. A alimentação desequilibrada e a pedalada média de 32 km diários lhe custaram dez quilos até então.

A Estrada Real, ligando Minas Gerais ao Rio de Janeiro, com seus mais de 700 km em terra batida, foi o primeiro grande desafio. Em um dos intervalos de pedaladas marcadas por subidas e descidas, jura ter pisado em uma cascavel e, no Espírito Santo, chegou a ter água negada por algumas pessoas.

Na BR-262, em Minas Gerais, foi atingido pela correia de um caminhão. “Cai e sofri muitas escoriações. O caminhoneiro não parou. Naquele momento, pensei em desistir”, lembra. Em cima de um túnel de um trem, na cidade de Araxá (MG), sofreu tentativa de assalto – desde então, trocava o dia pela noite, toda pedalando, para evitar roubos. No distrito de Arraial D’ajuda, na Bahia, fez a maior parada: 33 dias acampado, recuperando-se de dores e náuseas da dengue. No mesmo estado, foi ameaçado com uma faca por um senhor, que suspeita ter problemas psiquiátricos, mesmo depois do homem tê-lo oferecido um transporte de balsa, na Ilha de Itacaré. “Às vezes olho para o mapa e nem acredito”, brinca.

Ciente de que ele é o único responsável pelas situações enfrentadas na viagem, o ex-mecânico lembra de problemas pelos quais passou quando o pouco dinheiro separado para a aventura acabou. “Cheguei a passar dois dias só comendo banana e tomando água porque não tinha outra coisa”, lembra. Diante deste obstáculo, porém, diz ter encontrado uma nova forma de olhar o mundo. Sem ter a moeda de troca para suprir suas necessidades, a ajuda de estranhos, sempre bem-vinda, tornou-se indispensável. Foram reparos na bicicleta, teto para o abrigar da chuva, água e comida para ajudá-lo a seguir a missão, tudo sem esperar nada em troca. “Quando fiquei sem dinheiro, percebi que a viagem não era sobre os lugares onde estava, mas sobre as pessoas ao meu redor”, afirma.

Lucas deixa o Recife no dia 2 de janeiro de 2017, em direção à fronteira do Amazonas com o Peru. “Quando me despedi da família minha mãe chorava muito e disse que eu precisava cortar o cabelo. Disse que só cortaria quando voltar e só ela vai fazer isso”. A viagem toda, estima, será feita em três anos. “Me perguntam muito o que eu quero com isso. Só sei responder o que não quero: ficar esperando a morte chegar sentado em casa, sem conhecer tantas pessoas”.

Lorena Barros

Lorena Barros

Repórter

Nando Chiappetta

Nando Chiappetta

Fotógrafo

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