Há duas décadas, dando “banho de cheiro” no Brasil

Projeto que reuniu grandes nomes da música nordestina completa 20 anos, sem planos de retomada

Era noite de 26 de janeiro de 1996 e Elba Ramalho percorria os arredores do Ginásio Machadinho, em Natal (RN), com semblante atordoado diante do aglomerado de fãs à espera do show de estreia do projeto O grande encontro. Ela, Alceu Valença e Zé Ramalho e Geraldo Azevedo subiriam juntos ao palco. Já vestida e maquiada, abandonara o camarim a fim de localizar o primo, Zé Ramalho, atrasado para o espetáculo composto por canções de cada integrante do quarteto. Sem telefone celular, artigo não indispensável na época, era preciso encontrá-lo pessoalmente, a tempo de cumprirem o horário prometido.

O público esperou 40 minutos além do previsto para assistir à reunião no tablado. A primeira de uma turnê concluída com álbum ao vivo, no Canecão (RJ). O trabalho renderia ainda outros dois álbuns e um DVD, que ajudariam a sacramentar o caráter nacional da música dos artistas nordestinos em contexto cultural então dominado por axé e sertanejo.

Oficialmente, o aniversário do projeto não deve ser marcado por novos shows. Entre as possibilidades ventiladas nos últimos anos – a fim de conciliar agendas e contornar possíveis recusas de alguns dos integrantes -, a mais recente é arquitetada pelo ex-marido de Elba, o empresário Gaetano Lops: informações não oficiais de bastidores dão conta de que o plano seria articular nova versão d’O Grande Encontro, mantendo três dos quatro participantes originais e substituindo Zé Ramalho pelo cearense Fagner.

Até então, o aniversário do projeto deve ser marcado pelo lançamento de livro de um dos empresários envolvidos em sua criação, com informações de bastidores até hoje não reveladas ao público. E há muitos questionamentos pendentes. Passados 20 anos, até hoje não se tem muita explicação quanto ao problema vivenciado naquela noite por Zé Ramalho, que tardou a chegar, mas compareceu.

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 Por 4 dias,  Alceu, Zé e Geraldo se  hospedaram na casa de Elba e  se dedicaram a ensaios no Rio de Janeiro.  Ao longo da turnê, não havia ensaios,  apenas passagem de som.

Hoje, é também o único a não declarar publicamente a possibilidade de retomar o encontro, descrito por Geraldo Azevedo como tão natural que sequer foi necessário muita discussão sobre ensaios ou setlist. “Algumas músicas que a gente cantava junto, demos umas passadas até no camarim mesmo, mas o resto já era do nosso costume. A gente teve pouco ensaio. Acreditávamos muito na ligação que tínhamos”, relembra.

Geraldo Azevedo/Divulgação

“A grandeza estava na simplicidade e na força de cada um individualmente. Quando juntava, era explosão”, afirma Elba Ramalho, que comenta ainda a importância do projeto para os artistas. “Aprendemos uns com os outros e mostramos uma fatia poderosa da nossa cultura. O Nordeste é potência máxima em música e os quatro mostravam a diversidade da arte, como veios de água descendo na montanha e desaguando no mar. Acredito também que os fãs isolados de cada um adotaram os outros. O projeto fortaleceu a carreira de cada um”, opina.

Em março passado, Geraldo Azevedo e Zé Ramalho usaram as redes sociais para desmentir anúncio de show coletivo em São Tomé das Letras (MG). Em outdoors e na web, a organização prometia reuni-los a Elba Ramalho, em encontro “simplesmente histórico”. Zé foi o primeiro a posicionar-se, por meio de nota, negando presença na cidade e classificando o anúncio como propaganda enganosa. Em sua página na internet, Geraldo Azevedo declarou: “Nunca existiu nenhuma consulta ou negociação para a realização desse show. O grande encontro foi um projeto de muito sucesso, na década de 1990, que rendeu três lindos discos e terminou no início dos anos 2000”.

A prefeitura de São Tomé chegou a emitir nota, declarando que a organização do evento planejava apresentação solo de Zé Ramalho, seguida, na mesma noite, de show conjunto de Elba e Geraldo. O uso “equivocado” do nome do projeto teria, segundo a organização, gerado desconforto entre os artistas – “que não se sentiram confortáveis em continuar as negociações”, cancelando os shows.

O mal entendido ecoa no mesmo vazio em que se perdem os inúmeros pedidos de fãs pela retomada do projeto – nas redes sociais dos artistas, referências à turnê dos anos 1990 são recorrentes. Nem mesmo apresentação única, de caráter comemorativo em função da data, é cogitada formalmente pelos músicos. “Foi uma marca importante; um projeto que gerou um encontro de nossas gerações com o público de outras gerações”, resume Azevedo. Procurado pela reportagem, Alceu Valença não se pronunciou sobre o assunto, enquanto o contato com Zé Ramalho não foi realizado através de sua produtora, a Jerimum Produção e Eventos.

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Único reencontro foi realizado em 2010,   chamado de O Grande Encontro da   solidariedade, em benefício das famílias   atingidas pela crise das chuvas em   Pernambuco, que afetou 70 municípios

Quatro passageiros num táxi lunar

Há 20 anos, pernambucanos e paraibanos, com carreiras variando de 16 a 31 anos, reuniram-se no palco para dar início a um projeto que venderia discos até hoje. O grande encontro recebeu discos de platina e teve mais de um milhão de cópias comercializadas. Antes de ser formalizado, os pernambucanos Alceu Valença e Geraldo Azevedo e os paraibanos Zé Ramalho e Elba Ramalho já tinham se encontrado para troca de ideias e rodas de violão, sem compromisso.

Geraldo Azevedo/Divulgação

Concluíram que, mediante aceitação de Alceu, a participação dos demais intérpretes estaria praticamente assegurada – em função da habilidade do músico pernambucano enquanto articulador e de sua agenda ser, na época, a mais comprometida. A ideia da turnê e gravação nasceu bem antes daquele show no Machadinho, em Natal (RN): foi gestada em Feira de Santana (BA), em conversa entre empresários. De um lado, André Buarque, responsável pela agenda de Alceu Valença e com a missão de convidar Elba Ramalho para participação em alguns shows. Do outro, Paulo Tear, à frente do projeto Dueto, interpretado por Zé Ramalho e Geraldo Azevedo, que moravam em um mesmo prédio, no Rio de Janeiro. A confluência de ideias tornava evidente: “e se reunissem os quatro no mesmo palco?”, sugeriu Buarque.

O filho de São Bento do Una refletiu alguns minutos em silêncio, considerando show recente de Zé e Geraldo, em que ele passara da plateia ao palco, cantando em conjunto, pela primeira vez, Táxi lunar, de autoria do trio, o que reafirmara sintonia antiga entre os músicos. O sim não tardou.

A adição de Elba, desdobramento natural tendo em vista a amizade do grupo, veio em seguida e pareceu enriquecer o projeto. Mais tarde, ela se mostraria peça fundamental e fio condutor d’O Grande Encontro: todos os ensaios necessários à montagem do espetáculo seriam realizados em sua casa e emprestaria a voz à metade das 16 faixas do álbum lançado em julho de 1996 – embora não assinasse nenhuma das composições.

Ilustração: Samuca/DP

Além disso, assumiria, segundo envolvidos na produção da turnê, a função de conciliadora durante negociações, desentendimentos e imprevistos. Apontam para ela, também, as chances de retomada do projeto, que ainda teve outros dois álbuns lançados, em 1997 e 2000, ambos sem a participação de Alceu Valença. O segundo volume foi gravado no estúdio Europhonix, entre agosto e outubro de 1997. O último disco do projeto foi gravado em 2000, dessa vez, com outros convidados de peso.

Geraldo Azevedo/Divulgação
Geraldo Azevedo/Divulgação

Elba chamou Lenine, e cantaram juntos a música Lá e cá, do compositor pernambucano; Geraldo cantou com Moraes Moreira Canta Brasil, cuja autoria é de Alcyr Pires Vermelho e David Nasser; por fim, Zé Ramalho acompanhou Belchior na música Táxi lunar.

Quem eles também interpretam?

Luiz Gonzaga, Raul Seixas, Geraldo Vandré, Caetano Veloso, Vital Farias, Chico César, Carlos Fernando, Zé Vicente da Paraíba, Passarinho do Norte, Bráulio Tavares, Alcyr Pires Vermelho, David Nasser, Tunai, Sergio Natureza, Jorge de Altinho, Ari Monteiro, Cristóvão de Alencar, Ary Lobo, Luís de França.

Parecia a turnê dos Beatles, em proporção, numa visão mais brasileira. Casas lotadas, muitos fãs, filas imensas e delírios.

Elba Ramalho, cantora

Naquele palco, eles representavam simultaneamente a força da amizade, a bagagem do povo nordestino e apresentavam diversas composições representativas junto ao público brasileiro. Para eles, O Grande Encontro já acontecia há anos, mas dessa vez existia um diferencial: a plateia. E foi em meio a improvisos e à espontaneidade do ao vivo que os artistas envolveram e foram envolvidos pelo público do espetáculo. “Não foi nada planejado, foi espontâneo. Para mim era fácil, a gente trabalhava pouco, fazia somente um quarto do show, mas, ao mesmo tempo, era grandioso”, conta Geraldo.

Folhas saídas de um chão de giz

Se nos palcos as duas décadas do encontro não serão celebradas com resgate do projeto, pormenores dos bastidores serão compilados em livro assinado por André Buarque, ex-empresário de Alceu Valença e idealizador da turnê. A obra deve ser lançada até o fim deste ano, com imagens, depoimentos e curiosidades dos envolvidos nos shows.

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Há material inédito do show gravado no Canecão, já que nem todas as músicas foram utilizadas no álbum.

Geraldo Azevedo/Divulgação

“Lembro nitidamente do dia em que, conversando com Paulo Tear, em Feira de Santana (BA), surgiu a ideia. Sempre quis revisitar aquele momento, resgatar minhas lembranças, nossas experiências, bastidores da turnê, bons e maus momentos da excursão. É um importante registro. Estou escrevendo tudo que me vem à memória. Cenas agoniantes como o atraso de Zé Ramalho para a estreia do projeto, em Natal (RN), e momentos emocionantes como o show de abertura”, diz Buarque.

“Espero que um dia voltem a se reunir. É o que o público deseja, são meus votos também”, opina o autor sobre um possível retorno. Quanto ao legado da trajetória conjunta, resume: “A autoestima do povo nordestino foi elevada com esse encontro. A música que eles tocaram, essa, sim, é uma música verdadeira, de raiz, que se debruça sobre a luta do nordeste, a luta do povo nordestino, sua cultura, sua história. Não existe maquiagem, não existe comércio na música de Alceu, de Elba, de Zé e de Geraldo. Não há estruturas megalomaníacas, há somente música e poesia.”

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O tempo médio de cada show era de 2h, mas variava de acordo com improvisos e experimentações de arranjos

Do autor, pode-se esperar fragmentos de memórias de quem participou ativamente da construção do espetáculo. Diálogos são transcritos, fala a fala, cenas são reconstruídas com riqueza visual de detalhes, a relação de trabalho e amizade com Alceu Valença, especialmente, é explorada como pano de fundo da publicação. Trata-se, porém, de ponto de vista pessoal dos fatos. A história do grande encontro, em fase de finalização, é antes um diário que, a rigor da palavra, uma documentação – nem por isso menos valioso.

A escolha do repertório, a combinação de datas e a sintonia no palco são detalhadas no livro, além da convivência entre 22 pessoas escaladas para a turnê – entre empresários, técnicos e artistas. “Era uma equipe motivada e animada. Estava tudo muito bem feito, de modo profissional”, recorda. Alceu Valença e Geraldo Azevedo já foram informados da publicação – Alceu teria, inclusive, se comprometido a ceder depoimentos.

A filmagem do primeiro encontro não estava prevista pela gravadora. Os registros existentes são de baixa qualidade e inviabilizam DVD

Entrevista – Paulo Rafael
Produtor do disco O Grande Encontro (1996)

Erigido na década em que axé e sertanejo cresciam no cenário da música, O grande encontro resgata o cancioneiro popular nordestino, do sotaque às referências culturais. O repertório do álbum de estreia parte de Sabiá, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, matriz comum e mais simbólica das raízes nordestinas de Alceu, Geraldo, Elba e Zé até o repente roqueiro do baiano Raul Seixas (Trem das sete). A direção artística é de Sérgio de Carvalho e a produção, de Paulo Rafael, que falou ao Diario sobre o trabalho.

Paulo Rafael/Divulgação
Como foram escolhidas e gravadas as músicas que entrariam no disco?

 

Para gravar um projeto dessa importância, o fator mais importante foi os artistas estarem no momento certo do reconhecimento de suas carreiras, com músicas veneradas pelo grande público. Mas a palavra é “sincronicidade” – essa foi a mágica para que tudo desse certo. Os shows de O grande encontro já tinham sido realizados com sucesso monstruoso e testados em vários lugares antes do registro. A gravação no Canecão (Rio de Janeiro) foi o ápice do encontro, marcado pelo refinamento das interpretações e pelo domínio da interação com o público. O repertório melhorava a cada show. Escolher foi simplesmente colocar todos os sucessos comprovados durante a turnê.

Alguma das músicas é mais marcante, mais emocionante?

Acho que não existe a grande música, existe a personalidade da cada artista. Geraldinho conquista o público pelos desafios mais melódicos e complexos, Alceu pela total interação com os fãs, Elba pelo carisma e enorme carinho do público e Zé pelo seu lado místico e profético, bastante direto. São tantas obras-primas que não dá para escolher uma só.

Pensam em reunir os quatro artistas e promover a gravação de um novo disco? Já consideraram essa possibilidade?

Teríamos que encontrar novamente o momento certo das carreiras dos quatro. Quem sabe um dia?

Em linhas gerais, qual o legado desse disco para a música nacional?

O sucesso absoluto dos shows e do CD mostraram ao Brasil o espelho dele mesmo, um país com orgulho de sua música e de seus artistas, a força da musicalidade e originalidade nordestina, esse foi e é o maior legado.

Houve algum desafio ao montar o disco? Algo particularmente difícil no processo?

Editar todas as grandes músicas, que moldaram toda uma geração. Foi um momento de escolhas difíceis. Foram várias performances, a dúvida de qual seria a melhor gravação daquela música, a interação com a plateia, compilar tudo isso foi o grande desafio.

 

 

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Daniele Alves

Daniele Alves

Repórter

Daniele é estudante da Aeso – Faculdades Integradas Barros Melo. Fã declarada de O Grande Encontro, cantou, dançou e quase chorou fazendo essa matéria. Ainda sonha com uma reunião dos quatro.

Larissa Lins

Larissa Lins

Repórter

Larissa é repórter do Diario. Escreve para o suplemento Viver, especializado em cultura, onde se dedica à cobertura de música. É fã dos trabalhos que refletem a cultura nordestina.

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