“Garçom” ambulante conquista o trânsito de Prazeres

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De gravata borboleta e bandeja, Aílton foge do desemprego e conquista clientes com gentileza


É no cruzamento da Avenida Almirante Dias Fernandes com a Rua Emiliano Ribeiro, no bairro de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes, que Aílton Manuel da Silva, 43 anos, surpreende motoristas e pedestres com a inusitada função de “garçom de trânsito”. Vende água, refrigerante, pipoca e muitas outras coisas com uma elegância sem igual. Aliás, não é certo se o que chama mais atenção de quem passa por lá é a sua roupa social, com direito a gravata borboleta, ou a diversidade de produtos oferecidos pelo comerciante em uma bandeja prateada. Os clientes, porém, saem daquele cruzamento com uma certeza: a gentileza de Aílton é de parar o trânsito.  

Após perder o emprego como lixador naval, Aílton passou um ano desempregado e precisava arrumar um modo de ganhar dinheiro para sustentar sua esposa e seus três filhos. Em janeiro de 2015 parou de esperar uma nova oportunidade na área que atuava antes e resolveu começar a vender água nos sinais de trânsito perto de sua casa, no bairro de Prazeres.  

Percebeu que o preconceito da população era grande com os ambulantes,  mas não era maior que a sua força de vontade. De blusa regata, bermuda e chinelo, a maioria dos motoristas se recusava a abrir a janela do carro para ver o que o comerciante tinha a oferecer. Foi então que Aílton resolveu inovar para conquistar a clientela. Camisa de botão, calça e sapato social, foi o traje que passou a usar para ficar conhecido na região. Como se não bastasse, após procurar, sem sucesso, uma gravata borboleta, ele mesmo comprou um tecido e a confeccionou. Hoje, seu uniforme de trabalho, como ele prefere chamar, conta também com uma bandeja e um chapéu para proteger o rosto do sol escaldante. 

A rotina do comerciante é longa e árdua. Começa às 5h, quando acorda, e termina às 17h30, hora em que encerra o “expediente” e volta para casa. Mesmo com muito sol, calor e sendo ignorado por alguns motoristas, ele segue em frente sem perder o pique. “Às 5h estou de pé. Chego por aqui e começo a arrumar as coisas por volta das 6h30. Levo as bebidas em um isopor, daí organizo a minha bandeja e começo a abordar os motoristas a partir das 7h. Paro pra almoçar quando dá tempo, e só saio daqui no final da tarde”, conta Aílton, que tem como meta mínima vender, ao menos, 60 garrafas de água, cada uma por R$ 1,50, além dos demais produtos. Seu lucro semanal chega a ser de R$ 400,00. 

Sempre muito gentil, corre de um lado pro outro tentando captar a atenção das pessoas, sem deixar nenhum carro pra trás. Além dos motoristas, os pedestres também são alvos do comerciante. Ele conta que de manhã cedo o trabalho é mais fácil, porém, a partir das 10h seu pior inimigo ganha força: o sol. Para repor os líquidos, perdidos com o suor, aprendeu a beber muita água ao longo do dia. Outro fator muito importante, aliás, essencial, é o protetor solar. Com o rosto e pescoço esbranquiçados do produto, ele conta que é difícil aguentar o calor do Recife. “Pra quem passa o dia na rua é muito difícil e se torna pior ainda pra mim, que trabalho de manga longa e calca comprida, correndo de um lado pro outro o dia inteiro. No início não tinha o hábito de passar bloqueador solar, porém minha esposa me alertou sobre o câncer de pele e eu comecei a passar todos os dias. Mesmo assim, quando dou uma pausa, faço questão de molhar todo o rosto, e até a camisa, para conseguir trabalhar o resto do dia, senão eu fico cansado muito rápido”, explica.

Produtos

Água, suco, refrigerante, pipoca, salgadinho, paçoca, chiclete, e chocolate.

Preços

Variam entre
R$0,50 e R$3,00.

Localização

Rua Emiliano Ribeiro
Prazeres
Jaboatão dos Guararapes

}

Horário

De segunda a sexta
Das 07h às 17h30

O diferente sempre chama atenção para o bem e para o mal. Alguns outros comerciantes da área já tentaram pegar carona no sucesso e no trabalho pesado que Aílton construiu, e acabou gerando um certo desconforto. Genilson Luiz, de 28 anos, dono de um restaurante self-service na rua Emiliano Ribeiro conta que algumas vezes presenciou discussões entre pessoas que ficavam reclamando que Aílton estava “monopolizando” o território de vendas. “Nunca chegou a ser nada físico mas, já tivemos que chamar atenção de outro comerciante, dizendo que a educação que seu Aílton tem, foi o que conquistou o pessoal da região. Ele sempre trata todo mundo muito bem e isso faz com que as pessoas sempre procurem ele para comprar alguma coisa”, explica Genilson.

O desejo de sair das ruas

“Eu tenho o sonho, de um não precisar mais passar o dia inteiro na rua, nesse sol, para poder sustentar minha família. Um dia, eu vou poder voltar ao mercado de trabalho e conseguir dar as melhores condições para meus filhos”, é o que diz Aílton, quando perguntamos como ele projeta seu futuro. Casado e com três filhos, comerciante não tem encontrado uma vaga de emprego com as qualificações que tem a oferecer. No ramo naval, trabalhava lixando peças de metal usadas nas construções no Complexo Portuário de Suape, em Ipojuca.

Sua esposa, faz faculdade de administração e o dinheiro para pagar o curso vem das vendas que Aílton faz durante a semana nos sinais de trânsito. Ele conta que pretende seguir os passos da amada para que, no futuro, possam ter uma loja e administrar o próprio negócio, ali mesmo em Prazeres. “Se eu pudesse, já tinha comprado uma dessas lojas que ficam aqui na avenida. Algumas delas não vendem muito bem e eu já tenho até ideias para montar meu negócio. Tenho certeza que chamaria muito mais atenção. Mas, esse dia vai chegar e eu vou poder trabalhar com minha mulher em nosso negócio pra manter nossos filhos e eles terem uma boa chance de estudo e, futuramente, no mercado de trabalho”, conta empolgado, como se sentisse a realização dos objetivos em um futuro próximo.

A ambição não faz Aílton esquecer suas raízes, nem das pessoas que precisam de ajuda. Mensalmente doa alimentos, produtos de higiene pessoal e até colchões para a instituição Jesus de Nazaré, voltada para idosos, localizada em Cruz de Rebouças, bairro onde cresceu, no município de Igarassu. “Eu tenho pouco, mas tenho o que é suficiente para mim. Enquanto eu puder ajudar aqueles que precisam mais do que eu, sempre farei”.

Eduarda Bagesteiro

Eduarda Bagesteiro

Repórter

Eduarda é estudante da Universidade Católica de Pernambuco e estagiária do Diario desde março.

Peu Ricardo

Peu Ricardo

Fotógrafo e videografista

Peu Ricardo é fotógrafo do Diario desde 2015

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