Foliões relatam perrengues que (quase) acabaram com seu carnaval

Marina Maranhão

 

Roubos, brigas e assédio estão entre os contratempos que podem estragar a farra. Mas pernambucanos relatam como enfrentaram as dificuldades sem perder a alegria

 

O que deveria ser um momento de diversão e alegria termina se tornando traumático para muitos foliões que curtem o carnaval na Região Metropolitana do Recife (RMR), sobretudo nas tradicionais festas do Recife Antigo e nas ladeiras de Olinda. Violência, roubos, assédio e precariedade do transporte público são alguns dos inconvenientes que podem ameaçar a farra dos foliões. Mas muitos deles se negam a largar a folia.

O empresário Paulo Macêdo, 29 anos, foi uma das vítimas da violência que não abandonou a festa. “Eu estava no Recife Antigo, mandando uma mensagem de texto para a minha namorada, quando fui abordado por cinco adolescentes. Tentaram tomar o celular da minha mão, mas reagi e terminou sendo pior. Um deles me deu um tapa na cara, eu caí e eles levaram o meu smartphone. Passado o susto, levantei e percebi que o melhor a se fazer seria pegar mais uma cerveja”, conta o empresário, que não registrou boletim de ocorrência.

O roubo a aparelhos celulares foi, segundo a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS), o crime mais recorrente durante os meses de fevereiro, sobretudo devido às prévias e ao carnaval. A SDS afirma que, no mês de fevereiro de 2015, foram registrados 4.550 furtos na RMR. Este número foi reduzido a 4.140 em 2016 e, no ano passado, aumentou para 4.419. Para combater crimes do tipo, a SDS promete colocar nas ruas, em 2018, um reforço no carnaval 32% superior ao do mesmo período em 2017. Serão 27 mil agentes de segurança em todo estado entre o Sábado de Zé Pereira e a Quarta-Feira de cinzas.

mil furtos foram registrados no período carnavalesco em 2015

mil furtos foram registrados no período carnavalesco em 2016

mil furtos foram registrados no período carnavalesco em 2017

Segundo o secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua, para combater crimes no período de carnaval, haverá um Centro de Operações onde todos os órgãos parceiros trabalharão em conjunto. “Trocaremos informações de maneira integrada, com o intuito de fazer a festa de 2018 uma das mais seguras dos últimos tempos”, completa o secretário.

Outra questão que gera preocupação é a infraestrutura dos locais de festa. O empresário Paulo Henrique Montenegro, 29 anos, aluga, junto a outros 19 amigos, uma casa na Ladeira da Sé, em Olinda, há oito anos. Segundo ele, em todos os carnavais passados no local, não faltar água foi coisa rara. “Tem que pedir caminhão-pipa e ele não sobe durante o dia, só da meia-noite às 5h. O jeito é ficar sem água, mas como as pessoas estão em estado de felicidade, elas deixam passar. É carnaval e a gente relaxa”, destaca. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) afirma que manteve um esquema especial de abastecimento durante o carnaval de 2017 no Sítio Histórico de Olinda, porém houve um problema de queda de energia, no Sistema Botafogo, que atende a região, o que prejudicou o abastecimento.

mil policiais trabalharam em todo o estado no Carnaval de 2017

mil policiais estarão espalhados por todo o estado no Carnaval de 2018

Outra dor de cabeça certa para os foliões é o transporte público. A estudante de odontologia Gabriela Costa, 22 anos, teve que andar bastante para voltar de Olinda para casa, no bairro do Espinheiro. “Os ônibus que passavam estavam todos lotados e os taxistas não aceitavam fazer corridas pelo taxímetro. Queriam combinar os valores previamente”, explica a estudante, que teve que andar das ladeiras de Olinda até imediações da Avenida Agamenon Magalhães.

Problema semelhante teve a economista Ângela Albuquerque, 32 anos, que também aproveitou o carnaval em Olinda com as amigas. “Na hora de voltar, para a minha surpresa, não tinha táxi para nos levar para o Shopping Tacaruna, onde tínhamos estacionado o carro. Assim como a gente, tinha mais dezenas de pessoas na mesma situação. Acabamos indo a pé até o shopping porque não encontramos táxi mesmo e, para completar, estava chovendo”, lamenta.

Tanto Gabriela quanto Ângela optaram por não fazer denúncia contra os taxistas. Sem contar as subnotificações, a central de atendimento da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) registrou, entre a noite da sexta-feira (24 de fevereiro) e a manhã da quarta-feira de cinzas (1° de março) do ano passado, nove denúncias contra os taxistas. A reclamação mais incidente foi a recusa de passageiros. A dica para quem passar por situações semelhantes é entrar em contato pelo número 0800.081.1078.

Assédio

 

 

Além dos furtos, as foliãs têm outro motivo para se preocupar durante as festividades: o assédio. Uma delas, a estudante Amanda Moreira, 21 anos, passou por maus bocados no carnaval do ano passado, nas ladeiras de Olinda. Ela foi cercada por um grupo de homens que tentou obrigá-la a beijar um deles. “Puxaram meu braço com força e os meus cabelos, mas não sabiam que eu conhecia técnicas de autodefesa”, conta a estudante, que aplicou um golpe de muay thay em um dos garotos, que terminou se arrependendo do ato e se afastando.

Em todo o país, o número de denúncias de assédio aumentou 88% no carnaval de 2017. Para evitar que esses números continuem subindo em Pernambuco, a Secretaria de Defesa Social formou uma parceria com a Secretaria Estadual da Mulher para atender com mais qualidade casos ligados à violência contra a mulher. Novas delegacias da mulher foram instaladas e irão funcionar 24 horas por dia, como as de Olinda, no Varadouro e na escola Sigismundo Gonçalves, no Carmo.

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a mais de denúncias de assédio foram registradas em 2017 (em comparação ao ano anterior)

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dos homens acham que Carnaval não é lugar para mulher direita

Uma pesquisa veiculada pelo Instituto Data Popular, em 2016, sinalizou que para 49% dos homens, carnaval não é lugar para mulher direita e, para 61% deles, mulher solteira que vai para a folia “não pode reclamar de ser cantada”. Os dados ajudam a explicar o elevado número de casos assédios durante os dias de Momo. Segundo informações da Secretaria Especial de Políticas para Mulher, do Governo Federal, as denúncias de violência sexual no ano passado aumentaram 87,9%, em relação ao ano de 2016. Esse número leva em conta os atendimentos feitos pela Central de Atendimento à Mulher (disque 180).

Para ajudar as mulheres a enfrentarem este problema em Pernambuco, surgiu a campanha #AconteceuNoCarnaval, no ano passado. A iniciativa é dos grupos Mete a Colher, Women Friendly e Meu Recife. A ideia é disponibilizar uma plataforma para que mulheres relatem de forma anônima, casos de violência sofridos durante as festas. “O objetivo é recolher relatos de assédio no carnaval, mostrar para o poder público que o problema existe e precisa ser enfrentado”, explica a advogada do Meu Recife, Madalena Rodrigues. A novidade da campanha para este ano é a possibilidade de relatar o assédio através de um número de Whatsapp – o (81) 99140-5869.

Outras ações também serão realizadas durante o carnaval, além da coleta de relatos. “Iremos distribuir as fitinhas da sororidade, que é uma mecânica simples para que mulheres sinalizem às demais que estão disponíveis para ajudar em caso de violência. O número do Whatsapp também estará nas fitinhas, para lembrar o número para denunciar”, conta a fundadora do Women Friendly e uma das idealizadoras da iniciativa, Ana Adobbatti.

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dos homens acham que mulher solteira na folia “não pode reclamar de ser cantada”

é o telefone para denúnciar violência contra mulher

Segundo Madalena Rodrigues, quem entrar em contato com a campanha através do Whatsapp também receberá instruções detalhadas de como proceder para denunciar criminalmente o agressor e que a iniciativa já está circulando mensagens com itens que toda mulher deve saber para sair às ruas consciente e informada. Mais informações sobre a iniciativa em: www.aconteceunocarnaval.org

Marina Maranhão

Marina Maranhão

Repórter

Marina é estudante de jornalismo da Faculdade Maurício de Nassau.

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