Envolvimento da comunidade afeta desempenho de alunos, diz pesquisa

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Pesquisa da Fundaj revela que as 36 escolas com melhor desempenho, entre as sem muito investimento, possuem forte envolvimento de famílias e professores

A gestão participativa nas escolas pode ser um fator determinante para o bom desempenho dos estudantes. A constatação é de uma pesquisa realizada pela Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) com 36 das melhores instituições públicas do Nordeste, de acordo com o ranking de índices do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Dentre as escolas, cinco são pernambucanas e tiveram a média no IDEB dos anos iniciais – utilizada pela pesquisa – quase 54% superior à média geral das escolas da rede pública em Pernambuco (nota 6 frente a média de média 3,9). Além do bom desempenho, as instituições possuem duas características predominantes: 86% das escolas têm Conselho Escolar e 92% contam com um Projeto Político Pedagógico, o que a pesquisa sugere passar longe de coincidência.

“De modo geral, encontramos um discurso que aponta para a necessidade do comprometimento de todo mundo em prol da escola, com objetivos bastante claros e definidos”, relata Verônica Fernandes, coordenadora de Estudos Educacionais da FUNDAJ.

A pesquisa excluiu as escolas que são encubadas em universidades e recebem investimentos específicos do governo (a exemplo dos centros de excelência).

Cortesia/Josline Quidute

Projeto Político Pedagógico
– Define a função social e a razão de existência da escola;
– Estabelece metas e objetivos que devem ser atingidos dentro de determinado prazo;
– Determina os valores que serão priorizados pela instituição, além de determinar uma visão sobre a aprendizagem e o processo educacional;
– Fomenta e desenvolve projetos para o futuro da escola;
– Abre espaço para a participação dos pais e alunos na tomada de algumas decisões;

Conselho Escolar
– Normalmente possui a função de dividir o poder de decisão nas instituições;
– Na maioria dos casos conta com uma função consultiva, de controle social;
– Pode ser deliberativo na tomada de algumas decisões;
– O gestor não decide sozinho, acena para o conselho formado por professores, alunos e funcionários;

Uma das instituições pernambucanas participantes é a Escola Tomé Francisco da Silva, situada no município de Quixaba, Sertão do estado. Lá, explica a coordenadora Josline Quidute, todos os membros da comunidade escolar (professores, funcionários, alunos e pais) participam da implementação do projeto pedagógico e propõem soluções para os problemas da escola.

Além disso, um conselho formado por membros de cada um desses segmentos participa da tomada de decisões, seja de forma consultiva ou até mesmo deliberativa. “O diálogo entre a gestão, professores, funcionários, alunos, famílias e comunidade, proporciona um relacionamento harmonioso, que entende as diferenças e valoriza os profissionais por meio de reuniões bimestrais”, relata Josline.

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A pesquisa foi feita com 36 diretores de escolas de 32 municípios do Nordeste. Em Pernambuco, participaram escolas dos municípios de Quixaba, Tuparetama, Recife, Vertentes e Camaragibe.

Nessas reuniões, pontos já determinados anteriormente pelo grupo são discutidos, mantendo sempre uma construção progressiva da escola. “A agenda foi construída coletivamente, o que favorece a execução das ações e a gestão democrática. Para a equipe, esse é um processo de construção e aprendizagem. A cada ano, vamos aperfeiçoando nossa prática a partir das experiências vivenciadas e dos estudos realizados”, afirma.

Na também sertaneja, Escola Estadual Ernesto Souza Leite, em Tuparetama, a gestão participativa é apontada como fator determinante para o bom desempenho. Além de um colegiado de professores, representantes de turma e responsáveis dos alunos se inserem no universo escolar. “Aqui no interior, diferente do que ocorre normalmente na capital, a escola é abraçada pela comunidade. Há um desejo das famílias de entenderem e de fazerem parte de decisões tomadas”, explica a gestora Maria Lúcia Pessôa. O projeto político pedagógico trafega nas esferas administrativa e educacional, em torno da aprendizagem dos alunos. “É necessário uma gestão participativa. Os alunos devem se sentir parte importante da escola”.

Cortesia/Maria Lúcia Pessôa

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Escolas municipais

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Escolas estaduais

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Foram excluídas escolas com graus de investimento diferenciados como o Colégio de Aplicação da UFPE, o Colégio Militar de Pernambuco e centros de excelência do governo do estado.

Novo momento na educação

Verônica Fernandes ressalta que a educação pública no Brasil está caminhando para um novo momento, que precisa de novas abordagens. “É preciso compreender a qualidade da educação que está sendo buscada e como está sendo buscada. Por um tempo, o objetivo foi a expansão, depois, a correção das distorções das séries. Agora que esses pontos foram atingidos, falta compreender o que de fato está sendo repassado para os alunos”, aponta.

Um caminho, afirma, é justamente tentar entender o que de diferente tem sido feito nas escolas que conquistam bons desempenhos nas avaliações aplicadas pelo MEC, a exemplo do Ideb. A avaliação, conta Verônica, se analisada isoladamente, mostra um resultado satisfatório, mas não aborda o contexto em que cada escola está imerso. “Por conta disso, realizamos o estudo com a participação de coordenadores das escolas nordestinas de destaque, para identificar o que de fato ocorria nesses locais. Entender o que havia de comum entre os gestores e na concepção da qualidade de ensino para perceber o que existia por trás do desempenho”, aponta.

Verônica Fernandes/Cortesia
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As instituições escolhidas obtiveram os melhores desempenhos entre os anos de 2011 e 2013. O grupo focal de coordenadores se reuniu entre 2014 e 2015.

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Gestores especializados

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Gestores há mais de 6 anos

João Vitor Pascoal

João Vitor Pascoal

Repórter

João é estudante de jornalismo pela UFPE. Escreve para o Diario desde 2014, na maior parte do tempo para a editoria Política. Integra a equipe de dados do jornal, no projeto CuriosaMente. Foi bom aluno, inclusive, com envolvimento familiar significativo…

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