Ensaio fotográfico recria ambiente das clínicas de “cura gay”

Paola Paredes/Reprodução

Três anos atrás, a fotógrafa equatoriana Paola Paredes chamou atenção com seu ensaio Unveiled (“Revelada”, em inglês): em companhia das duas irmãs, ela sentou-se com os pais à mesa de jantar da casa de sua família e, cercada por câmeras disparando a cada 5 segundos, contou a eles que é lésbica.

Agora, ela continua tratando de questões ligadas à homossexualidade com um novo trabalho: o ensaio Until You Change (“Até você mudar”, em tradução livre) é inspirado em clínicas equatorianas que prometem “curar” mulheres gays.

Ainda um ano antes da divulgação de Unveiled, uma amiga de Paola havia contado a ela sobre esses locais. Em princípio, tratam-se de clínicas para a recuperação de viciados em álcool e outras drogas; mas por uma taxa que varia entre US$ 500 e US$ 800 (Entre R$ 1.600 e R$ 2.650), elas também oferecem o “tratamento” voltado para a “correção” da homossexualidade. Entre as técnicas para atingir tal objetivo, estão a privação de alimentos, o abuso psicológico e, em muitos casos, o estupro “corretivo”.

Paola Paredes/Reprodução

“Como naquela época eu estava passando pelo minha própria jornada com minha sexualidade, isso me afetou de um modo totalmente pessoal”, afirmou Paola à Huck Magazine. “A ideia de que eu mesma poderia acabar trancada em uma daquelas clínicas ficou na minha cabeça durante anos e acho que eu, lá no fundo, sabia que deveria criar algo a respeito daquilo.”

Essas instalações existem não só no Equador, mas por toda a América Latina e também nos Estados Unidos e na Europa. Em comum, o fato de serem adeptas de um discurso religioso fanático. Além de homossexuais, elas também recebem adolescentes grávidas e até prostitutas, levadas pelos próprios pais para corrigirem seus “desvios”.

Paola Paredes/Reprodução

Durante meses, Paola entrevistou mulheres que haviam sido internadas em tais clínicas. Além disso, a fotógrafa visitou uma dessas instituições, com um microfone escondido no sutiã e acompanhada de seus pais, fingindo serem clientes em potencial. Na ocasião, as instalações foram mostradas a Paola por uma das responsáveis pelo lugar – segundo ela, a mesma figura intimidante que suas fontes haviam descrito.

“Sinceramente, eu estava apavorada: trêmula e suando muito o tempo todo”, contou ela. “O que mais me chocou foram as meninas, forçadas a usar maquiagem que minhas informantes descreveram perfeitamente: batom vermelho intenso, blush e sombra azul.”

Paola Paredes/Reprodução

Nas fotos, Paola aparece reencenando as diversas situações descritas pelas ex-pacientes que entrevistou – nenhuma delas participou ou esteve presente nas sessões para não terem suas identidades reveladas nem reviverem os traumas que sofreram. Um ensaio que, no início de sua divulgação, tinha a intenção de levar ao simples fechamento desses lugares. Diante de uma dura realidade, hoje Paola acredita que a abordagem deve ser mais ampla.

“Depois de muita pesquisa e entrevistas com ativistas, organizações e advogados, aprendi que fechar esses lugares é quase impossível. Eles operam como a máfia: ligados a uma rede gigantesca e através de muita corrupção”, afirmou a fotógrafa. “A única coisa que podemos fazer é educar as pessoas; ensinar a aceitação e a tolerância. E só o que posso fazer com minhas imagens é criar uma consciência. De um modo que me deixa amarga ao pensar que não é o suficiente.”

Paola Paredes/Reprodução

Para ver o ensaio completo, clique aqui.

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